Preconceito e ignorância são barreiras para inclusão de pessoas com deficiência no ensino superior, alertam especialistas

“A sociedade erra ao julgar as pessoas com deficiência como alguém diferente de si por meio do modelo ultrapassado que vê a deficiência apenas pela ótica médica”, avalia María José Bagnato. Ela é professora da Faculdade de Psicologia da Universidad de la República – Uruguay (UDeLaR) e ex-diretora do Programa Nacional de Deficiência do Uruguai. Para María, o tema da inclusão deve ser visto como produto da diversidade humana. É preciso superar o senso comum de que a deficiência é apenas um problema a ser consertado.

De acordo com o censo demográfico feito pelo IBGE em 2010, 46 milhões de brasileiros declararam ter algum tipo de deficiência. Contudo, ignorância e preconceitos ainda permeiam as relações do grupo com a sociedade.

Especialistas em acessibilidade e inclusão apontam que este tipo de pensamento excludente prejudica. Ele afeta a oferta de oportunidades iguais e participação social plena por parte das pessoas com deficiência. Para eles, é um processo de mudança. Por isso, deve ser capitaneado pelas universidades, com discussões por políticas públicas mais eficazes.

Ana Raquel Périco Mangili, jornalista que tem distonia (contração que afeta de modo regular um ou vários músculos ou membros), relata que sempre ao sair na rua se depara com muitos olhares. Ela acredita haver interferência na empatia alheia, já que sua deficiência é aparente. “São olhares de curiosidade, estranhamento e de piedade, o pior deles”, relata.

O descrédito na capacidade de autonomia da pessoa com deficiência gera um trato assistencialista. De acordo com o Estatuto da Pessoa Com Deficiência, tais comportamentos impedem a participação social destas pessoas em igualdade de condições e oportunidades com as demais.

Segundo a pesquisadora Maria José Bagnato, os sistemas de ensino são um dos motivos que levaram à falta de reconhecimento entre sociedade e pessoa com deficiência. “Por muitos anos, falou-se de educação de pessoas com deficiência em lugares segregados, o que dificulta a inclusão em outro contexto”, explica a professora da UDeLaR. Para ela, isso também impede que a sociedade tenha contato com o diferente. São necessários espaços acessíveis a todos, onde possa acontecer uma troca de vivências.

Ensino Superior

Segundo dados do Inep, o número de matrículas feitas por pessoas com deficiência no ensino superior foi de 33.377 mil em 2014. O número não representa nem meio por cento do total de alunos matriculados em universidades no mesmo ano.

Eliana Lúcia Ferreira é membro do projeto em rede “Acessibilidade no Ensino Superior” do Programa Observatório da Educação (OBEDUC), o qual visa analisar políticas públicas educacionais e desenvolver mídias instrumentais sobre deficiência e inclusão. A pesquisadora investigou as causas da baixa taxa de pessoas com deficiência nas universidades.

Em artigo publicado em 2015 na Revista Ibero-Americana de Estudos em Educação, a especialista analisa as estruturas arquitetônicas, atitudinais e pedagógicas que compõem as universidades. Segundo Eliana, tais dispositivos foram construídos para um modelo estabelecido de aluno, com condições físicas e intelectuais específicas. Ela avalia ser “um modelo que tende a excluir desse espaço pessoas em condições diferentes, no caso específico, as pessoas com deficiência”.

Ana Raquel Périco Mangili, que cursou jornalismo na Unesp de Bauru, percebe que a pessoa com deficiência sofre um desestímulo social. “Muitos nem pensam em fazer faculdade porque o ambiente insiste em dizer que são incapazes. É algo implícito, mas que tem grande poder” diz.

Como fazer?

Para Julio Putallaz, que é coordenador do programa de inclusão da Universidad Nacional Del Nordeste (UNNE) na Argentina, a universidade deve ser vista como um laboratório que mostra ser possível incluir todas as pessoas em suas particularidades. “A universidade tem uma função social muito forte que precisa responder às demandas que vêm da sociedade”, comenta.

Julio Putallaz, durante o “V Encontro Técnico-Científico “Acessibilidade e Inclusão no Ensino Superior” realizado na UNESP de Bauru. Foto: Matheus Ferreira

Pensamento parecido tem Maria José Bagnato, da UDeLaR. Para ela, “é dever da Universidade atender a situação das pessoas que se encontram em vulnerabilidade social”. Os dois pesquisadores acreditam no potencial emancipador que a universidade tem na formação delas.

Darío Alfredo Mamaní é diretor do programa de deficiência e inclusão social da Universidad Nacional de Tucumán, na Argentina. Ele pondera que o modelo de universidade que se quer é aquele que mude as estruturas sociais. Para tanto, deve garantir acesso, permanência e trabalho para a pessoa com deficiência. “Precisamos incorporar na agenda institucional das universidades a questão da acessibilidade”, conclui.

A pessoa com deficiência na Universidade

A Unesp estabeleceu, no dia 12 de junho deste ano, os membros da sua Comissão Permanente de Acessibilidade e Inclusão. Dentre os trabalhos da comissão, está a realização de um diagnóstico das condições de inclusão e de acessibilidade na universidade. Há também a proposição de um plano de ação de melhoria.

Cleópatra Planeta, pró-reitora de extensão da Unesp e membro da comissão, vê a acessibilidade como um tema transversal. “A questão passa por todas as dimensões da universidade: ensino, pesquisa, administração, pós-graduação e extensão”, explica.

Segundo ela, a atual gestão, iniciada em 2017, realizará um diagnóstico interno, localizando, definindo e ouvindo as demandas da pessoa com deficiência. “É importante articular os grupos dentro da universidade que já trabalham com o tema para que as discussões possam virar políticas institucionais e planejamento”, ressalta.

Confira na galeria a seguir os recursos de acessibilidade existentes no campus da Unesp de Bauru:


Um exemplo de plano de ação em curso acontece na Universidad Nacional del Litoral (UNL), na Argentina. De acordo com as professoras Alejandra Costa e Pamela Bordón, o programa UNL Acessível, coordenado por ambas, trabalha com vários aspectos. O primeiro é a acessibilidade acadêmica. Trata-se de oferecer ao aluno todas as tecnologias assistivas (libras, braille, arquivos de som, ampliação e simplificação de textos). Assim, é possível auxiliar o aluno com deficiência a entender o conteúdo.

Outro ponto da UNL Acessível é a capacitação docente. Inclui métodos para tornar as práticas dos professores acessíveis para todo tipo de aluno. Junto com a adaptação dos lugares físicos, o programa oferece uma assessoria laboral às pessoas com deficiência. Desse modo, as incentiva a ocuparem vagas no mercado de trabalho.

Reportagem: Matheus Ferreira

Produção multimídia: José Felipe Vaz

Edição: Nathane Agostini

2 thoughts on “Preconceito e ignorância são barreiras para inclusão de pessoas com deficiência no ensino superior, alertam especialistas”

  1. Silvana Neves says:

    Quando se fala em deficiência, como seria a inclusão de pessoas com problemas cognitivos?Tenho um sobrinho fisicamente saudável, porém com problemas, que estão sendo investigados, talvez esquizofrenia, síndrome de Asperger…..enfim, como ajudar, já que com relação às tarefas e perguntas objetivos ele se encontra no padrão de normalidade.

  2. Sueli Aparecida Pereira says:

    Fiquei muito feliz com esse evento e notícias.
    tenho uma filha com 16 anos , que tem uma alteração cromossômicas rara.
    tem dificuldades com a escola. Esta no sétimo ano , ama estudar.
    e apesar de sofrer muito , a educação oferecida a ela segue um padrão , que dificulta e muito,ela quer ser psicóloga
    Obrigada pelas boas noticias

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *