Opinião |Tecnologia e construção de autonomia

O uso de tecnologias na aprendizagem infantil deve ser pensado como um auxílio na construção de uma educação que transforme pessoas

Muito se discute sobre a capacidade das tecnologias de informação e comunicação no processo de aprendizagem e de uma educação mais inclusiva e cidadã, mas, para isso, precisamos pensar na realidade do nosso país e nos entraves no processo de inclusão social.

Renda familiar é determinante no uso de tecnologias nas casas brasileiras. (Imagem: Rafaela Nogueira)

É muito simplista colocar a educação como a solução para todos os problemas da sociedade, como se, de repente, a transformação social acontecesse sem grandes dilemas. Entre a educação e a transformação social há uma infinidade de variáveis a serem estudadas, testadas e analisadas, além dos interesses políticos e econômicos envolvidos na questão. A discussão deve ser mais profunda e abarcar o questionamento sobre qual é o tipo de educação que queremos, e uma resposta exata não é possível – até porque cada região do mundo possui uma singularidade e necessidade.

O Brasil, apesar da tentativa em construir a imagem de um país diverso, feliz e respeitoso, ainda possui uma desigualdade socioeconômica avassaladora. As origens e os fundamentos dessa desigualdade são extremamente complexos, mas podemos lembrar de apenas alguns fatores que nos ajudam a ter uma pequena dimensão do problema: o Brasil viveu quatro séculos de escravidão, sendo o último país da América a abolir a escravatura (lembrando que os escravos libertos se encontraram numa situação muito delicada, sem emprego ou moradia e vivendo numa segregação que ainda perdura); a colonização por Portugal deu origem ao latifúndio que concentrou a terra na mão de poucos; e a educação sempre esteve apenas ao alcance apenas da elite – este quadro vem mudando nos últimos anos, mas essa inclusão na educação é constantemente ameaçada.

Para que esse quadro mude, precisamos investir numa educação que desenvolva um posicionamento crítico frente aos problemas da nossa sociedade, para que a alienação dê lugar à autonomia.

As crianças são muito vulneráveis ao mundo que estão inseridas, e, sem uma educação que proteja a criança da alienação, esse indivíduo crescerá submetido aos interesses midiáticos e publicitários – que, de forma geral no Brasil, não possuem uma grande preocupação no desenvolvimento intelectual do cidadão ou na promoção da democracia e da diversidade cultural existente.

Nesse aspecto, deve-se atentar aos usos da tecnologia no processo de aprendizagem, pois, ao mesmo tempo que essa tecnologia tem um potencial democrático e de construção de consciência, também pode causar uma maior alienação e inclusive expor as crianças à violência virtual.

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(Imagem: Bheatriz D’Oliveira)

O papel do educador nesse processo é essencial. Não um educador comprometido apenas a transmitir algum conhecimento, mas compartilhar experiências visando a um desenvolvimento intelectual mais saudável. Essa relação horizontal entre alunos e professores deve ser abolida. Ninguém deve ser visto como superior, pois todos estão sujeitos a diversos tipos de alienação.

Paulo Freire, pedagogo brasileiro de importância mundial, foi muito conciso quando pontuou: “Educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo”.

Pensando nesse ideal, não devemos apenas nos ater ao papel das tecnologias, mas colocá-las, com muita cautela, como aliadas nesse processo de criação de autonomia.

A criança deve saber interagir com o meio ambiente de forma saudável e ter a liberdade de criar e sonhar, por isso o papel da tecnologia na educação infantil deve ser secundário. Entretanto devemos ter em mente que o contato da criança com a tecnologia é cada vez mais inevitável, e, por isso, pais e educadores devem ajudar a criança a utilizar essas ferramentas de forma inteligente e produtiva.

Reportagem: Gabriel dos Ouros

Produção multimídia: Bheatriz D’Oliveira

Edição: Gabriel dos Ouros

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