Não é só o bebê que chora

Comentário referente à edição número 32 – Parto

Ao decidir um tema para o Repórter Unesp, a busca é sempre por elementos de nossa sociedade que mereçam questionamentos. Por vezes, a escolha do tema é sobre algo tão interessante que apenas uma edição é pouco. Fatores como tempo para a produção, pessoal envolvido e disponibilidade de fontes interferem diretamente na matéria que sairá. Dito isso, creio que a edição 32 deixa aquele sentimento de sede por mais informações. Não que essa edição cause insatisfação, pelo contrário. Contudo, quanto mais conhecimento sobre as questões do parto, mais informação e poder de decisão para a gestante.

A violência obstétrica é um ato cometido diariamente por equipes médicas contra mulheres que estão em um dos mais delicados e vulneráveis momentos da vida. Essa violência soma-se às outras diversas que as mulheres sofrem ao longo da vida. Afinal, a mulher está sendo agredida em um dos momentos mais exaltados pela nossa sociedade, a maternidade.

Para entendermos bem o que se configura como “violência obstétrica” é fundamental explicar quais são os tipos mais recorrentes, além de mostrar que certas atitudes tidas como “padrão” não deveriam existir, nem como exceção. A matéria incumbida com a missão de apresentar como ocorre essa violência, cumpriu muito bem sua função. Ao longo do texto vemos as definições de violência, junto a dados que mostram o tamanho do problema. Afinal, não é nada aceitável tamanha disparidade entre recomendações internacionais e o cenário atual. Os variados dados trazidos pela matéria elucidam eventos que acontecem sistematicamente durante o procedimento do parto.

São ações que causam muitos prejuízos à relação da mãe com o bebê e ao parto em si. A grande vilã dessa história não é a cesárea e sim a forma como as gestantes são tratadas no momento do parto. O objetivo não é difamar a cesárea, o foco é mostrar que esse procedimento é uma escolha que compete à protagonista desse momento, a mãe. Uma escolha, não uma regra.

O parto humanizado surge como alternativa para pais, em especial a mãe, que buscam uma conexão mais forte com o nascimento de seu bebê. Assim, vemos uma apresentação das ideias dessa alternativa, junto à relatos de mães que fizeram essa escolha. Fez falta um vídeo ou áudio com o depoimento de algumas mães que escolheram o parto normal. Ouvir a pessoa relatando esse tipo de experiência é mais interessante do que apenas ler. Porém, a leitura dos depoimentos não deixa de ser envolvente, sendo um aspecto respeitável. Os vários depoimentos colhidos suplementam a matéria, deixando-a mais consistente. O texto opinativo mostrou uma opinião bem equilibrada sobre o assunto, mostrando-se também sólida e bem estruturada.

Ao fim, foi uma edição competente. Cumpriu a proposta de alavancar o tema para debate, informando sobre as condições atuais e como elas deveriam ser. Os recursos multimídia poderiam ser melhor explorados, mas a edição conseguiu caminhar mesmo sem esse suporte de variadas plataformas. O mais importante é que essas informações cheguem às pessoas que estão envolvidas no processo de nascimento dos bebês. São elas que podem impedir e coibir a prática de mais uma violência contra a mulher.

Ombudsman: Daniel Linhares

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