Infância conectada é motivo de preocupação?

As crianças têm acesso cada vez mais fácil ao mundo da tecnologia, possibilitando uma inclusão digital cada vez mais precoce.

Brincar de pega-pega, esconde-esconde, queimada, amarelinha, futebol com os amigos, são atividades típicas das crianças, que não precisam se preocupar com muitas coisas a não ser em acordar cedo para ver o desenho preferido na televisão ou fazer as tarefas de casa. Brincadeiras típicas de crianças, que fizeram parte da infância e fazem parte das lembranças da maioria das pessoas. Mas parece que, atualmente, algo mudou.

Brincadeiras como futebol, pega-pega e esconde-esconde são trocadas pelos jogos no tablet ou celular. (Imagem: Stella Ruiz)

A tecnologia está em todo o lugar. Invadiu todos os espaços. Hoje em dia é difícil encontrar pessoas que não estejam conectadas por meio de aparelhos tecnológicos cada vez mais modernos, como smartphones, tablets e computadores. As empresas responsáveis pelo desenvolvimento desses aparelhos se esforçam anualmente para criar inovações, que fazem parte do nosso dia a dia e já ocupam um espaço significativo no nosso cotidiano e em nossas relações pessoais. Mas engana-se quem pensa que isso é coisa de adulto; as crianças passam a ter um acesso cada vez mais frequente aos aparelhos eletrônicos e aparatos tecnológicos. Percebe-se o uso cada vez mais precoce de celulares e tablets, além de games interativos, no cotidiano de pessoas que nasceram na última década, fazendo com que as crianças fiquem mais presas dentro de casa e tenham cada vez menos interação social. Os dados apontam que 82% das crianças e jovens acessam internet e usam celular todos os dias. Mesmo dentro das escolas e nas salas de aula, o uso de tablets é crescente, fazendo com que o ensino esteja submetido ao uso desses novos aparelhos. Mas até que ponto o uso de tecnologia pode ser benéfico ou prejudicial para a vivência de uma infância saudável?

Pesquisadores da área de educação afirmam que alguns aparelhos eletrônicos podem ser responsáveis por desenvolver áreas cognitivas do cérebro, que fazem com que as crianças saibam lidar mais facilmente com desafios no futuro. Quanto aos jogos eletrônicos, existem aqueles que podem proporcionar experiências educativas e pedagógicas, o que pode ser benéfico para o desenvolvimento e o aprendizado das crianças.

Na cidade de Bauru, a escola D’Incao Instituto de Ensino é a primeira da América Latina a ser equipada com um MacBook por aluno, buscando excelência na tecnologia e na educação. A escola, que atende o Ensino Fundamental, Ensino Médio e Pré-Vestibular, traz um ensino totalmente vinculado às novas ferramentas tecnológicas.

O proprietário da escola, Pedro D’Incao, acredita que os problemas como déficit de atenção, atrasos cognitivos e dificuldades de aprendizagem estão associados às propostas pedagógicas equivocadas das escolas. “Pude presenciar experiências no Brasil, no México, na Colômbia, no Canadá e nos Estados Unidos, onde o uso da tecnologia nas escolas está causando um enorme impacto positivo no aprendizado das crianças”, afirma Pedro, que traz à cidade de Bauru essa nova proposta educadora. Guilherme Cabello, ex-aluno da escola, diz que o uso dessas ferramentas “facilitava nossa vida e permitia o contato com muito mais informações, que somente a lousa e os livros sozinhos não conseguiriam”.

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Porém, tudo em exagero, pode virar um desastre. O professor da Faculdade de Educação da Universidade de Passo Fundo e estudioso na área de educação infantil, Edemilson Jorge Ramos, comenta que “o computador, enquanto instrumento universal pode trazer benefícios ou malefícios, dependendo de quem, como e porquê o utiliza em atividades com crianças.” Para ele, não se trata da tecnologia em si, mas do propósito para a qual está sendo utilizada. “A mesma tecnologia que permite a criança aprender de forma lúdica, pode levá-la a uma experiência de cyberbullying”, afirma o professor.

O mundo está cada vez mais interligado através das inúmeras redes existentes, graças à tecnologia e ao uso da Internet. Hoje, podemos resolver situações a quilômetros de distância, conhecer pessoas do outro lado do mundo e obter conhecimento com apenas um clique do computador. Esses fatores colaboram para que a inclusão digital ocorra cada vez mais cedo, para que as pessoas se sintam ativas e pertencentes a um grupo social. Porém, devido ao uso das tecnologias, as crianças estão perdendo cada vez mais cedo a oportunidade de interagirem e se desenvolverem socialmente.

A psicopedagoga e professora doutora em Educação, Maria Dolores Fortes Alves aponta os riscos de um uso desenfreado de aparelhos eletrônicos sem a mediação de pais ou responsáveis: “Crianças pequenas possuem aquilo que chamamos de “cérebro motor”, cérebro que aprende através da interação com o objeto. Assim, criança precisa brincar, movimentar-se e conviver socialmente com outras crianças, principalmente abaixo de 6 anos. Deste modo, tanto computador como televisão, quando oferecidos à criança, devem ter tempo limitadíssimo ou ela poderá sofrer grandes prejuízos físicos, como inteligência espacial prejudicada, risco de obesidade; emocionais, cognitivos e sociais”.

Percebe-se que a busca pelo equilíbrio é primordial no uso de inovações tecnológicas, principalmente para crianças, que ainda não possuem capacidade de discernir o que é certo e errado e estão em constante processo de formação do seu intelecto, da sua capacidade de afetividade e de sociabilidade. A inclusão digital é essencial diante do cenário atual de mundo globalizado em que vivemos, mas sempre com cautela. O professor livre-docente da UNICAMP e educador, Celso Dal Ré Carneiro também acredita na necessidade de harmonia entre o uso da tecnologia e outras formas de aprendizado, embora entenda que “a capacitação digital é imperiosa, pois o mundo que nos cerca é permeado por tecnologias, e as pessoas precisam aprender desde cedo a usufruir desses benefícios”.

O professor Edemilson dá o alerta: “A tecnologia digital se inserida na vida de uma criança sem a mediação dos pais ou professores, perde o seu potencial educativo e, ao se tornar um mero entretenimento, pode levá-la ao uso descontrolado, à descontração, ao isolamento”. Mesmo que haja um domínio de seu manuseio, é preciso a intervenção de pessoas responsáveis, que auxiliem a criança a ser capaz de atribuir significados positivos ao atual cenário tecnológico. E que elas saibam aproveitar a infância em sua totalidade, aprendendo com a tecnologia, mas sem se esquecer das brincadeiras de criança, que deixam lembranças e saudades ao longo do tempo.

Reportagem: Tatiana Olivetto

Produção multimídia: Bheatriz D’Oliveira

Edição: Gabriel dos Ouros

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