Gourmetização das bebidas alcoólicas no Brasil

A palavra “gourmet” foi difundida pelo gastrônomo francês Jean Anthelme Brillat-Savarianno, em seu livro Filosofia do Gosto, de 1825. O termo caracteriza algo que apresente alta qualidade, elegância, sofisticação e diferencial criativo. Atualmente, pode ser considerado gourmet qualquer produto que possua composição e apresentação diferenciada. O que acontece é que nem sempre o item gourmetizado tem ingredientes que o tornem de fato mais caro: o aumento do preço encontra-se, muitas vezes, na apresentação e no marketing envolvido.

Assim, o gourmet acabou por se tornar o sinônimo de uma versão considerada mais luxuosa de um produto consumido no dia-a-dia. Desta forma trata-se mais da experiência que o cliente terá ao consumir determinado produto do que o sabor do alimento em si. O fenômeno da gourmetização então ganhou destaque em 2014 por meio da internet, como, por exemplo, com a criação de memes sobre o tema, utilizando a imagem do famoso chef, Gordon Ramsay.

Mas e quando se trata da gourmetização de bebidas populares?

De acordo com Gustavo Fernandes, gerente do Texas, distribuidora de bebidas, um dos produtos que mais se popularizou nesses últimos dois anos foi o Corote Sabores. Diferente do original, feito com cachaça, a versão nova é feita à base de vodca e apresenta os sabores blueberry, maracujá, morango, limão e pêssego. Segundo o comerciante, essa versão veio para abranger o público jovem, principalmente os universitários.

A alteração na sua composição pode ser considerada um processo de gourmetização, mesmo que o preço tenha se mantido. Gustavo avalia que os novos sabores do Corote são inspirados nos da vodca Askov, porém esta é comercializada apenas em recipientes de um litro, que custam, aproximadamente, R$ 16,00, enquanto o Corote pode ser encontrado em embalagens de 500 ml por R$4,00 ou em promoções de 3 destas garrafas de meio litro por R$ 10,00.

Drinks mais elaborados geralmente são feitos com bebidas mais caras (Crédito: Pixabay)

Sobre o grande aumento na venda do produto o gerente acredita que tenha sido identificado esse público e por isso foi feito um produto em cima disso. “Eu não pesquisei a fundo a empresa, mas eles devem ter uma pesquisa de mercado muito forte. Foram muito espertos na hora de jogar os novos sabores, de atingir esse público, porque é uma bebida muito barata, e não deixa com ressaca, é uma bebida tranquila”, afirma Gustavo.

Os consumidores da marca concordam com a visão do vendedor. Larissa, 19, é estudante de Relações Públicas e comenta que consome muito o Corote de Morango, e que o fator mais atraente da bebida é realmente seu valor: “Eu bebo porque é barato, porque o gosto é bom, e me deixa louca rápido”.

O valor do Corote também chama a atenção da estudante Ana Carla, 19, quando esta sai com os amigos para pegar bebidas. “Juntamos nosso grupo, cinco pessoas, e conseguimos comprar a promoção de três por dez reais e sai dois reais para cada. Super barato, com dois reais você consegue ficar louco e agora tem os novos sabores. Conseguimos dividir entre nós, gastamos pouco, todo mundo fica feliz no rolê.”

O gerente do Texas diz que quando os clientes chegam à distribuidora eles costumam recusar o Corote em primeira instância, por acreditarem tratar-se do produto à base de cachaça: “Ele [o Corote] vem de uma tradição barata, do Corotinho de pinga. Muitos falam ‘o Corotinho é pinga, é barato’. Não. Ele está querendo dar uma visão diferente. Mas é o que mais sai, e isso já faz uns dois anos. Mas é aquela cara do Corote: o de pinga tem mais aquela cara do andante, do cara de rua. E o público vem aqui comprar achando que é pinga, mas não é. É vodca. É uma nova cara. Ele quer, realmente, voltar isso para os estudantes mesmo”. Assim, o produto foi repaginado e, hoje, são vendidas cerca de 25 caixas, contendo 12 Corotes de 500 ml em cada uma, por dia.

Na distribuidora o segundo destilado que tem mais saída é a Catuaba, uma bebida típica brasileira, que pode ser à base de vinho ou de “coquetel fermentado de cana”. Ela também se popularizou por seu preço acessível e sabor suave, além de prometer efeito afrodisíaco e estimulante. A Catuaba Selvagem, marca comercializada pela Arbor Brasil, estabeleceu uma estratégia de marketing para deixar de ser uma bebida consumida apenas em botecos para chegar à exportação.

O processo de gourmetização presente no mercado brasileiro também pode ser visto em diversos tipos de cachaça. Popular e acessível, a bebida sofreu mudanças em sua produção a fim de atingir um público mais variado, incluindo pessoas de maior poder aquisitivo.

Outros públicos

Gustavo comenta que no Texas a saída de outras bebidas, como vinhos e vodcas mais caras são para pessoas mais velhas, que procuram esses produtos para fazer coquetéis e drinks mais elaborados.

Para algumas pessoas a fase de consumir bebidas alcoólicas como a catuaba já passou, como é o caso de Artur Ferreira, 24, que trabalha com mídias. Hoje ele consome muita cerveja, uma bebida que acredita ser de consumo mais generalizado, mas gosta principalmente de “um gim, uma bebida muito bem batida, muito bem preparada”, mesmo que este tenha um preço mais caro.

Artur conta que, hoje, tem até certa repulsa de Corote. “Na minha cabeça há bebidas que eu já tomei por muito tempo na minha vida universitária e ficaram no passado. Metas pessoais: depois de tal idade, que eu me formar, eu vou parar de beber Catuaba. Quando eu estava no terceiro ano da faculdade eu disse: não bebo mais porradinha (mistura de corote com refrigerante de limão) e não bebi mais”. Ele também diz que não bebe mais pinga nem caipirinha.

O seu contato com pessoas mais velhas, que estão fora do meio universitário e possuem um maior poder aquisitivo, mostra que normalmente as pessoas tendem a estabilizar com a cerveja, que é uma bebida mais universal.

Reportagem: Nathalie Portela

Produção Multimídia: Bárbara Ramirez

Editora: Luana Brigo

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