Cultura do álcool: dos filmes, da publicidade e do hábito real

O que você faz quando ganha uma promoção no emprego? E para comemorar um aniversário? No término de um namoro? Quando vai à praia e está calor? Quando precisa esquecer de todos os problemas ou comemorar todas as conquistas da vida? Existem várias respostas para essas perguntas, mas uma delas é comum e recorrente: beber.

A bebida alcoólica é uma constante na vida da população mundial: cada pessoa consome mais de 6 litros de álcool por ano, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). No Brasil, o consumo per capita ultrapassa a média mundial, passando de 6,2 litros em 2006 para 8,9 em 2016, ainda conforme a pesquisa da OMS. Mas, qual é a explicação para esse aumento?

Em seu livro “Uncorking the Past: The Quest for Wine, Beer, and other Alcoholic Beverages” – em tradução livre, “Tirando a rolha do passado: a jornada por vinho, cerveja e outras  bebidas alcoólicas” -, o diretor do Laboratório Arqueológico Biomolecular do Museu da Universidade da Pensilvânia, Patrick McGovern, sugere que se não fosse pela inebriação causada pelo estado não-sóbrio das pessoas, muitas descobertas e invenções pré-históricas e modernas estariam comprometidas. 

ícones: freepik

Tudo isso – as comemorações, afogar as mágoas, ter ideias brilhantes, vangloriar quem mais bebe – tem nome e definição: Cultura do Álcool. Mas, o que exatamente é essa cultura? É a glamourização do abuso da bebida alcoólica. É chegar em uma roda de amigos, perceber que tudo o que é falado ter a ver com as histórias de quando tal pessoa estava bêbada e normalizar o assunto. É também ver propagandas, filmes, músicas, séries e produtos vangloriando a bebida.

Maristela Monteiro, assessora sobre abuso de substâncias e álcool da OMS, afirmou em entrevista para a BBC Mundo que, para ela, “o desenvolvimento econômico e a globalização são causadores diretos da tendência gritante ao abuso do álcool”. “Essa cultura é real”, disse. A celebração do álcool pode ser vista facilmente no nosso cotidiano, desde muito cedo. “Com 13 anos eu já bebia essas batidinhas, muito por pressão social dos amigos, mas na minha família o álcool sempre esteve presente. A influência vem de todos os lados”, afirma Thaís Costa, 22, que está fazendo MBA em Malta.

A Cultura do álcool está em todos os lugares. Filmes como “Se Beber Não Case”, “American Pie”, “Superbad” e tantos outros glamourizam a bebida e a colocam em um pedestal. Uma pesquisa feita pelo jornal “BMJ Open” mostrou que, em 532 filmes escolhidos, o tempo de exibição de cenas com bebidas alcoólicas somavam em média quatro horas e meia, podendo chegar a oito. Culpe a música (“Blame it on the alcohol” – Jamie Foxx) também, culpe o mundo pop, o sertanejo, a eletrônica.

A normalização do consumo abusivo do álcool, sem importar idade, está por todos os lados, por todos os países. Thaís acredita que “o contato com o álcool acontece independente da cultura”, já que ela está convivendo com uma pessoa de cada continente e consegue observar isso. “Quando chegamos na vida adulta isso de beber acontece. São costumes que a gente assiste e aprende, copiando os mais velhos. O que muda, de um país para o outro, é que no Brasil a cerveja é a preferida, já na Itália é o vinho”, conclui.

Como já dizia o ditado popular, para tudo há uma consequência. E, para o álcool, existem diversas. A primeira é a dependência, o alcoolismo, quando ele afeta a mente. A partir disso o corpo inteiro vira vítima fácil: gastrite, cirrose, impotência, anorexia alcoólica, câncer e mais centenas de doenças. A OMS estima que 3,3 milhões de pessoas morrem a cada ano tendo a bebida alcoólica como causa primária – sendo a secundária doenças, suicídios ou acidentes de trânsito -, isso supera o número de mortes por AIDS, tuberculose e violência juntos.

Apesar de todos os transtornos causados, o álcool em si não é o problema se o consumo for moderado. “O ponto não é o álcool, o álcool é só uma aparência”, opina a doutoranda e mestre em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo, Andrea Cavalheiro. “O que realmente causa todo o problema são os mecanismos psíquicos que acionam esta aparência como desejo ou dependência emocional, compulsão, carência ou necessidade de aprovação externa, associação ao orgulho como uma marca de status”, completa. A própria OMS não vê o álcool em si como o problema, mas sim o abuso do uso, já que 5,9% de todas as mortes do mundo são consequência da bebida.

Em 2002, a proibição de propagandas relacionadas a produtos do tabaco impulsionou brasileiros a pararem de fumar, de acordo com a pesquisa da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas). Tomando o cigarro como exemplo, acredita-se que fazer o mesmo com o álcool é o caminho mais óbvio devido ao seu perigo, isto é, por ser uma droga que tem uma aceitação social gigante.

Políticas públicas que mostrem todos os perigos do álcool – ao invés de somente um “beba com moderação” – como fizeram outros países, parece ser o melhor caminho para que a “Cultura do Álcool” perca essa força infinita sob as pessoas, já que essa droga lícita traz perigos tanto para o indivíduo quanto para a sociedade.

Reportagem: Giovana Romania

Produção Multimídia: Victor Pinheiro

Editora: Thais Modesto

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