Nº 41 – 2017 | Cultura da violência

Terceira maior população carcerária do mundo, quarto maior exportador de armas pequenas, e liderança mundial no número de homicídios. Números que impressionam apenas aqueles que, ao ver o Brasil, tiveram uma lente colocada diante dos olhos durante séculos.

O mesmo país fundado sobre mitos do pacifismo e da passividade, difusor e exemplo de uma suposta democracia racial no século passado e amplamente conhecido por suas festas e cordialidade ostenta posições em rankings de violência que assustam grande parte dos brasileiros.

As várias pesquisas, relatórios e dados que foram usados nesta edição retratam as mais diversas esferas da violência: econômica, política, cultural, midiática. Em todas as pesquisas, porém, há convergência em um dado: os negros são os que mais morrem, sejam eles ou elas vítimas da violência policial, das prisões sucateadas que abrigam hoje quase 700 mil pessoas, da violência doméstica.

O surgimento da internet possibilitou iniciativas de resistência a essa violência, como portais de mídia negra ou de divulgação e promoção dos Direitos Humanos. Fruto dessa mesma rede de computadores, que permite a união de muitas pessoas em prol de uma causa com menos intermediações, são as páginas em redes sociais que incitam a violência em suas publicações. A investigação feita pelo jornal britânico The Guardian, que revelou a forma como as apurações de violações de direito da comunidade do Facebook são realizadas, talvez explique o porquê de diversos conteúdos violentos permanecerem na rede.

Foto: Guilherme Sette/Repórter Unesp

No entanto, isso é crime. Assim como programas de televisão que mostraram execuções ao vivo, a punição é necessária, muito embora o processo do Ministério Público Federal que exige a retratação da emissora responsável pelo programa em questão ainda esteja parado na justiça brasileira, há mais de um ano.

Nada surpreendente se pensarmos que foi esse mesmo sistema de justiça que, na última semana, deu uma sentença de onze anos a uma mulher que furtou onze ovos de páscoa de um supermercado em São Paulo. Ela vai compor as 700 mil pessoas que estão, hoje, no abarrotado sistema carcerário brasileiro, dominado por organizações criminosas.

Ela deixou três filhos e vai fazer parte da estatística que comprova a reincidência de ex-detentos ao crime. Seria então o encarceramento em massa a decisão mais racional que o Estado brasileiro vem tomando ao longo do último século?

Ou seria, então, a vigilância ininterrupta de câmeras de segurança a principal maneira de suprir a falta de políticas públicas que provocam as crises das grandes cidades do mundo hoje? Bauru terá, até o final do ano, câmeras em dez pontos da cidade que foram identificados como pontos de assaltos e furtos da cidade.

Será em Bauru, também, que uma desocupação será feita em um assentamento nos próximos três meses. Mais de 500 famílias terão que sair de uma terra na qual se estabeleceram por conta de uma reintegração de posse. O histórico de violência das remoções dos grandes eventos que o país sediou moveu a equipe do Repórter Unesp ao assentamento. Uma galeria de fotos mostram um pouco do local e de seus personagens.

Desejamos uma boa leitura a todos e todas!

Editora-chefe: Daniela Arcanjo

Editor-adjunto: Guilherme Sette

Gestora de mídias sociais: Ana Carolina Moraes

Nesta edição:

Armas no Brasil: um retrato dos comércios internacional e doméstico

Entrevista: games causam comportamentos violentos?

63 jovens negros são mortos por dia no Brasil

Vazamento revela política do Facebook para conteúdos violentos

Costumeiros na TV, programas policiais ignoram leis brasileiras

Relatos de ex-detentos comprovam violência nas penitenciárias

Bauru terá videomonitoramento até final do ano, promete vereador

Centenas de famílias serão removidas de acampamento sem terra em Bauru

 

One thought on “Nº 41 – 2017 | Cultura da violência”

  1. Zenonzord says:

    Interessante tema, exposto em suas diversas facetas ao qual nos habituamos como parte ingrante de nossa vivência como brasileiros. Não há escapatório se não o debate, como diria Eduardo de Facção Central aqui “se Deus der rolê de cartão magnético, nem por marca de nascesça reconhecem no exame médico”.

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