Avaliação psiquiátrica

Se tem uma coisa que a 35ª edição do Repórter Unesp teve, foi timing. Lançada exatamente no dia do aniversário da Luta Antimanicomial no Brasil, a publicação trouxe uma série de reportagens sobre o tema, além de tratar sobre outras questões relacionadas às doenças da mente, como a relação entre a mídia e o suicídio, como vive alguém com esquizofrenia, como é o cotidiano numa residência terapêutica, entre outras.

De acordo com relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS), 121 milhões de pessoas ao redor do globo sofrem de depressão. Segundo outro relatório, o Brasil é o oitavo país com a maior taxa de suicídios do mundo. Em 2014, o índice de pessoas com transtornos de ansiedade e depressão na região metropolitana de São Paulo se equiparava ao de regiões em guerra. Tendo em vista esse panorama, que esses temas venham à tona e gerem debate não é apenas interessante ou chamativo, é essencial. E isso a edição “Ala Psiquiátrica” faz com excelência.

No entanto, uma ressalva é necessária. Como jornalistas e até mesmo como pessoas que convivem, sabendo ou não, com indivíduos que sofrem dessas condições, é primordial o cuidado com a linguagem para não perpetuar ainda mais o estigma sobre essas patologias. O uso de um termo como “loucura” para tratar de transtornos que causam psicose, por exemplo, não deve ser utilizado, preferindo dizer diretamente o diagnóstico de qual se fala e seus sintomas específicos.

O lado oposto do espectro também requer cuidado. No esforço de retirar o preconceito sobre essas condições, é preciso se policiar para não glamourizar essas condições. É extremamente problemático associar doenças graves, que dificultam e até mesmo impossibilitam algumas ações para quem sofre destas, à poesia, beleza e liberdade. Não há nada bonito em uma crise depressiva. Não há nada de livre em episódios psicóticos que impedem indivíduos de arrumarem empregos por causa do estigma que existe ao redor deles.

Para que isso não aconteça, nem a manutenção de preconceitos nem a exaltação das psicopatologias, é necessário delicadeza, mas principalmente, pesquisa. Essa que deveria ser essencial ao redigir qualquer reportagem, do tema que for.

Ao terminar a leitura, ainda se tem a impressão de que outros tópicos poderiam ser abordados. Quando se trata de um assunto tão rico e complexo, é natural que se sinta dessa maneira, pois apesar de ser uma edição longa (com nove textos, ao todo), seria impossível tratar de todos os aspectos das psicopatologias.

Isso, porém, não prejudica a edição, pois as reportagens são completas e cumprem bem o que propõem, que é a elucidação desses transtornos. Outro ponto positivo da edição foi a produção multimídia, que ilustrou bem as matérias com áudios, bons infográficos e fotos autorais.

Ombudsman: Anna Satie

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