Fetiche por serial killers: das manchetes às telas de cinema

Assassinos em série batem recordes de audiência em reportagens e protagonizam obras de ficção

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Ficar na rua durante a noite não era seguro. Com o fim da tarde, as pessoas trancavam as janelas, fechavam as portas e só voltavam a sair quando amanhecia. Pela manhã, os jornais noticiavam a busca por um assassino e, nas ruas, ouviam-se histórias daqueles que diziam ter visto o criminoso.

Essa poderia ser a descrição da rotina dos habitantes de Londres em setembro de 1888, que viviam com medo de Jack, o Estripador. Mas, na verdade, é um retrato do dia a dia dos brasileiros que acompanharam, no último mês de junho, a procura por Lázaro Barbosa. O goiano de 32 anos que assassinou uma família no Distrito Federal foi chamado de “serial killer de Brasília” pela mídia brasileira. 

Apesar das semelhanças, as histórias tiveram finais diferentes. Os assassinatos em série na antiga Londres acabaram em alguns meses, sem a descoberta da identidade de Jack — hoje, ele é conhecido como “pai dos serial killers”. Lázaro, por sua vez, foi morto por uma força-tarefa da polícia no dia 28 de junho, quase vinte dias depois de invadir uma residência e matar três integrantes de uma família. 

Há outra diferença essencial entre os casos. Embora Lázaro tenha cometido assassinatos em sequência, ele não pode ser chamado de serial killer. Jack recebeu esse título por ter uma assinatura (peculiaridades deixadas nas cenas do crime que se baseiam em fetiches do criminoso) e um modus operandi (um modo específico de abordar e matar as vítimas). Lázaro recebeu o mesmo rótulo sem ser propriamente diagnosticado.

Mas o que faz de alguém um serial killer? Segundo o psicólogo forense Shouzo Abe, existem alguns traços necessários para classificar uma pessoa como um assassino em série. “As vítimas de um serial killer possuem características em comum, uma espécie de estereótipo. Ele deve usar um modus operandi para matar pelo menos três pessoas que obedeçam a um mesmo estereótipo”, diz.

A advogada criminalista Eduarda Szpilman afirma que a morte de Lázaro impossibilita uma análise profunda de sua mente. “Achávamos que ele poderia ser um serial killer em formação, já que seu modus operandi ainda não estava definido”, explica. 

Um dos motivos para Lázaro ter ficado conhecido como “serial killer do DF” pode ser a cobertura midiática que, em alguns momentos, possuía teor sensacionalista. Em reportagens televisivas, páginas de jornais e postagens nas redes sociais, houve uma espetacularização de um caso que envolvia crimes violentos — mas, diferentemente do que era divulgado, não passava disso.

Clique e ouça um áudio da Eduarda explicando o perfil criminológico do Lázaro e a dificuldade de encaixá-lo numa perspectiva de serial killer:

Glamour na dor e no sofrimento

Em um texto de 20 de junho, o jornal O Globo publicou uma matéria com o título: “Caso Lázaro: 270 policiais ainda buscam por serial killer em Goiás”. De modo igual, a Folha de SP chamou o goiano de “serial killer” em uma reportagem publicada no final de junho. Mesmo sem comprovação de especialistas, veículos tradicionais de mídia classificaram Lázaro dessa maneira, gerando maior comoção popular e audiência.

A Record TV, por exemplo, ocupa o segundo lugar em audiência em períodos “normais”, perdendo apenas para a Rede Globo. Mas, no dia da morte de Lázaro, o canal de televisão do bispo Edir Macedo ultrapassou a audiência da Sessão da Tarde — aparentemente, o filme “Coincidências do Amor” não foi uma boa escolha para este dia. 

Dados do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (IBOPE) revelam que, no dia em que Lázaro morreu, 2.875.278 pessoas da Grande São Paulo ligaram as TVs no canal da Record. Quase um milhão de domicílios sintonizaram na cobertura do canal televisivo, do meio-dia às 18 horas.

O motivo para tanto sucesso foi o “furo” dado pela Record, a primeira emissora a noticiar a prisão de Lázaro, assim como sua morte pela força-tarefa policial. 

Para o historiador e pesquisador Luiz Carlos Sereza, a mídia tem um papel importante na construção de personagens como Lázaro. “O serial killer é construído como um monstro. O caso Lázaro é um exemplo disso e essa é uma relação que temos que estudar e destrinchar para perceber como essas figuras são ampliadas pela mídia”, diz. 

Sereza ressalta que a mídia só bate recordes porque há quem consuma esse tipo de cobertura. “Há um interesse do receptor, de pessoas que têm um interesse gigante em narrativas de crimes”, acrescenta. 

manchetes sobre serial killers brasileiros

Essa curiosidade popular por crimes cometidos por assassinos em série pode estar ligada ao medo. Segundo o psicólogo Davi Romã, o medo é um sentimento que engaja as pessoas. 

Os serial killers são mundialmente famosos pela sua capacidade de manipulação, atraindo as vítimas de forma sedutora e, em alguns casos, escondendo o seu lado mórbido dos familiares e amigos. Por exemplo, Liz Kloepfer namorou Ted Bundy por anos, assassino em série condenado pela morte de 36 mulheres.

“As pessoas se sentem muito provocadas e muito intimadas a prestar atenção e a agir quando estão com medo”, explica Romã. A mídia explora esse sentimento com imagens explícitas, detalhes mórbidos e recursos narrativos que reduzem a apresentação do problema.

Outra perspectiva é que a obsessão por assassinos em série pode ter origem na necessidade de “glamourizar” a dor alheia. Para o psicólogo criminal Christian Costa, não há glamour no crime ou na dor e no sofrimento do outro. 

Contudo, não é isso que se vê nos noticiários. Existem inúmeros fatores sociais, econômicos e culturais por trás de um serial killer. O processo noticioso utilizado para divulgar crimes se baseia na redução dos indivíduos, diminuindo os casos a confrontos entre pessoas boas e ruins. Para Romã, essa é uma visão simplista e maniqueísta.

Marcos Américo, professor da Pós-Graduação em Mídia e Tecnologia da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), explica que a representação dos serial killers no cinema e nas séries de TV tem origem parcial no jornalismo. “Na literatura policial e no cinema, vemos que a representação desses crimes tem como ponto de partida o fato jornalístico, que cria narrativas interessantes com sedução e medo”, explica.

Atraídos pelo mal

Quase 270 policiais participaram da operação para encontrar um criminoso. Ele foi capturado depois de conseguir escapar algumas vezes e, no fim, levou pelo menos 38 tiros. No boletim de ocorrência, os policiais dizem ter disparado contra o assassino cerca de 125 vezes

Não, não estamos assistindo a um filme de James Bond ou a um novo capítulo de Difícil de Matar. A grandiosa operação que poderia ser a cena de uma produção hollywoodiana, na verdade aconteceu em Águas Lindas, cidade goiana onde Lázaro foi encontrado depois de 20 dias de busca. 

Assim como a ficção inspira a realidade, o inverso também acontece. Inúmeras séries, filmes e livros trazem serial killers como protagonistas. 

Norman Bates, o vilão de Psicose, é considerado por muitos o “pai dos assassinos em série no cinema”. O filme de terror lançado em 1960, dirigido por Alfred Hitchcock, tornou-se um clássico e influenciou diversas obras cinematográficas com serial killers na trama. O sucesso de Hitchcock foi tanto que, em 2013, seu longa ganhou uma série derivada com cinco temporadas, chamada Bates Motel

cena do filme psicose

Hannibal e American Horror Story são outros exemplos de séries de TV que se inspiraram na história de Hitchcock. Os serial killers são parte central do enredo nessas produções, que foram sucesso de audiência.

Com o passar dos anos, os assassinos em série se tornaram “pop”. Séries voltadas ao público adolescente que abordam o tema surgiram de maneira orgânica na TV, colecionando diversas temporadas e muitos fãs. Dois exemplos desse gênero de terror teen são Scream Queens (2015), que trata os serial killers de maneira escrachada e exagerada, e Scream, do mesmo ano, com traços de terror clássico, baseado na franquia “Pânico”.

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Não é preciso viajar até Hollywood para observar esse fenômeno. No Brasil, a série Bom Dia, Verônica apresenta o serial killer Brandão, que mata mulheres nordestinas que vêm a São Paulo em busca de oportunidades profissionais, deixando filhos em suas cidades natais. O modus operandi de Brandão faz referência a um trauma do seu passado, algo bastante comum em histórias de ficção desse tipo. 

A recepção do público nas redes sociais foi positiva — a série passou algumas semanas entre as mais vistas da Netflix, plataforma que produziu o seriado. Inclusive, levou apenas alguns meses para que o serviço de streaming confirmasse a segunda temporada.

Os episódios são baseados no livro homônimo de Raphael Montes e Ilana Casoy. Ele é conhecido por escrever obras de sucesso com assassinos em série brasileiros, enquanto ela é criminóloga e empresta seu conhecimento técnico sobre o assunto. 

O livro é publicado pela DarkSide Books, editora nacional inteiramente dedicada ao terror e à fantasia. O selo “Crime Scene”, por exemplo, reúne obras sobre crimes e serial killers da vida real. Segundo a editora, os livros desse selo falam sobre o “estranho mundo dos psicopatas, pervertidos e assassinos seriais [que] sempre despertou o medo e a curiosidade mórbida em muitos de nós”.

De onde vem essa obsessão por histórias sangrentas? “Se identificar com o que é cruel, é se identificar com aquilo que se é. Nós somos cruéis e maus. À medida que alguém nega a maldade, acaba deslocando essa energia para um cenário de filmes, séries e livros”, diz o psicólogo criminal Christian Costa.

Para Marcos Américo, narrativas desse teor são interessantes devido às pessoas se projetarem na história, mesmo que sejam de ficção. “Todo mundo já teve vontade de matar alguém, mesmo que metaforicamente”, diz. 

Na vida real ou na ficção, os assassinos em série despertam a atenção de diferentes formas. O fato é que serial killers existem, podem estar em qualquer lugar, e devem continuar protagonizando narrativas reais ou do cinema. Resta à mídia melhorar a forma de abordar esses casos, respeitando e convalidando aspectos psicológicos, sociais e culturais de cada indivíduo.

Reportagem por Guilherme Ferreira, João Macruz, Eduardo Moreira, Gabriel Delgado, Maria Clara e Vitoria Pereira.

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