Ciberativismo e redes sociais: ampliação dos debates da vida real

Fernanda Teodoro, Heloísa Ançanello, Marjory Frojoni e Nicole Saraiva

Desde o surgimento da internet e sua popularização, no final do século XX, a sociedade se encontra cada vez mais imersa na conhecida Era Digital. Essa define-se como a ampliação do uso da tecnologia e da internet para atividades cotidianas, que resulta na modificação de comportamentos sociais, políticos e econômicos. Dentre esses comportamentos, é possível citar o ciberativismo. Que por sua vez, define-se como uma ramificação digital dos ativismos das ruas, como uma forma de ampliar debates políticos e sociais por meio das redes digitais.

A popularização da internet promoveu o fenômeno da conexão digital interpessoal, possibilitando que, mesmo a quilômetros de distância, pessoas pudessem trocar informações. Originalmente, essa comunicação se deu por meio da troca de e-mails. Porém, ao longo do tempo, foram desenvolvidas as redes sociais, o que facilitou e até mesmo ampliou esse contato à distância. Nesse aspecto, as redes sociais nada mais são do que ambientes digitais que permitem a troca de informações entre grupos de pessoas, pertencentes ou não de um mesmo núcleo social, seja por meio de textos, vídeos ou fotos. 

Os brasileiros nas redes sociais

Arte digital com fundo cinza escuro. No canto superior esquerdo, em branco, os dizeres: “Ordem cronológica do surgimento das redes sociais - redes sociais com mais relevância no Brasil a partir de 1997”. No centro, uma linha do tempo da ordem cronológica do surgimento das redes sociais, no período de 1997 até 2016. A linha do tempo é traçada com uma linha horizontal azul clara, onde ficam os anos de lançamento de cada rede. E ao longo de sua extensão, há outras linhas da mesma cor na vertical. Na ponta extrema de cada linha, estão os nomes das redes sociais lançadas naquele ano. Da esquerda para a direita: 1997 - SixDegrees; 1999 - MSN Messenger. 2000 - Tanto faz.net; 2002 - Findster; 2003 - Second Life, LinkedIn, Fotolog, MySpace e Skype; 2004 - Orkut e Flickr; 2005 - YouTube; 2006 - Twitter e Facebook; 2007 - Tumblr; 2009 - WhatsApp; 2010 - Instagram e Pinterest; 2011 - Snapchat; 2012 - Vine; 2016 - TikTok. No canto inferior direito, o logo do Repórter Unesp.

Linha do tempo ilustrando o surgimento das redes sociais com maior relevância no cenário brasileiro a partir de 1997. Fonte: CANALTECH.

A pesquisa “Digital 2021”, realizada e divulgada pelas agências de marketing digital especializadas em mídias sociais We Are Social e Hootsuite, aponta que, considerando a população mundial de 7.83 bilhões de pessoas, 4.66 bilhões são usuários da internet e 4.20 bilhões são ativos nas redes sociais. Ao analisar exclusivamente o Brasil, os dados demonstram que 75% da população utiliza a internet, enquanto 70,3% é ativa nas redes sociais, o que equivale a um total de 150 milhões de usuários brasileiros.

Arte digital com fundo cinza escuro. No centro da imagem está um gráfico de barras, na cor azul turquesa, das redes sociais mais utilizadas pelos brasileiros em 2021. Na lateral esquerda de cada barra, está o nome de cada rede social. Dentro de cada barra, está a porcentagem dos usuários de 16 a 64 anos que acessaram a respectiva plataforma em janeiro de 2021. De cima para baixo: YouTube - 96,4; WhatsApp - 91,7; Facebook - 89,8; Instagram - 86,3; Facebook Messenger - 68,5; Twitter - 51,6; TikTok - 47,9; Pinterest - 47,1; LinkedIn - 42,6; Telegram - 29,4; Skype - 28,8; Snapchat - 25,3; Twitch - 22,5; Tumblr - 17,7; Badoo e Reddit - 16,6. No canto inferior direito está o título do gráfico em branco e abaixo, o logo do Repórter Unesp.

Tradução do gráfico divulgado pelas agências de marketing digital especializadas em mídias sociais We Are Social e Hootsuite. Ilustração das redes sociais mais acessadas pelos brasileiros no ano de 2021.

A grande popularização e uso intensificado dessas redes de comunicação modificaram suas finalidades ao longo do tempo. O Instagram, por exemplo, que é a quarta rede social mais utilizada pelos brasileiros, era conhecido por ser uma aplicação de compartilhamento de fotos. Porém, seu uso foi modificado de acordo com as tendências, como afirmou o head do aplicativo Adam Mosseri em seu próprio perfil: “nós não somos mais um app de compartilhamento de fotos”, de forma que as funcionalidades foram ampliadas a fim de oferecer novas experiências aos usuários. 

Ele ainda complementa que, no momento, a rede social está passando por transformações e se adaptando a necessidade de quatro eixos principais:  criadores de conteúdo, vídeos, experiência de compra e troca de mensagens. Considerando essas alterações, não só no Instagram, mas também em outras plataformas, foi possível identificar a introdução de debates acerca de causas sociais. Esses, que se originaram em grupos do Facebook, se difundiram  para outras redes e, assim, promovem o fenômeno do ciberativismo.

Redes socias e ciberativismo?

O ciberativismo entende-se como uma ramificação do ativismo que, por sua vez, define-se por “qualquer doutrina ou argumentação que privilegie a prática efetiva de transformação da realidade em detrimento da atividade exclusivamente especulativa”, segundo o dicionário Oxford. O jornalista, pesquisador e pós-doutor em Comunicação e Artes, Pedro Pinto de Oliveira, afirma que o ciberativismo não é uma evolução do ativismo no sentido de atuar exclusivamente nas redes, pois as ruas continuam sendo uma condição central dos movimentos. 

Dessa forma, o ativismo digital “depende da performance das ruas para a construção de suas formas e conteúdos, […] precisa das imagens desse encontro das pessoas, da multidão que protesta e performa, dos rostos, dos corpos, dos cartazes, dos gritos de ordem”. O ciberativismo, portanto, atua em paralelo às ações “nas ruas”, como forma de potencializar a difusão de informações e debates sobre causas sociais para além de pessoas que já pertencem à causa.

A jornalista e doutora em Sociologia, Lívia Alcântara, complementa essa questão. Ela discorre que a internet passa a ser parte tanto da vida social quanto do protesto, então, é possível perceber as ações políticas que utilizam esses meios.

"Os movimentos sociais sempre utilizaram a comunicação. Você tem o movimento anarquista, por exemplo, tem uma apropriação muito importante dos fanzines, dos jornais operários. Já na Revolução Russa, por exemplo, você já tem menção à comunicação pelo Lenin. Então, os movimentos sociais sempre se apropriaram dos meios de comunicação, das rádios, da TV, dos jornais. E aí, quando a internet começa a se popularizar, eles se apropriam dela também."

Ciberativismo na prática

Ao analisar as atuações impactos do ciberativismo na prática, é necessário atentar-se as suas diferentes modalidades. No livro “Classifying forms of online activism: the case of cyberprotests against the World Bank”, o autor Sandor Vegh divide o ciberativismo em três categorias:

  • Conscientização e Promoção de uma causa
  • Organização e Mobilização
  • Ação e Reação

As redes sociais são um forte instrumento para todas elas. Entretanto, a popularização dos “criadores de conteúdo” em diversas plataformas, destacando o Instagram, fez com que, principalmente em tempos de isolamento social, conscientizações, e promoções de causas sociais fossem difundidas com maior alcance.

Neste contexto , é possível citar diversos ativistas, entre eles, Gustavo Torniero, Solon Neto e Luanna Sayonara. Estes, iniciaram suas respectivas lutas “nas ruas” e, conforme a internet se tornava protagonista na comunicação, expandiram as informações e debates para as redes sociais. Além deles, a internet também se torna espaço para apoiadores das causas sociais que também procuram difundir conhecimento acerca das lutas, por exemplo, Gustavo Mendes e Fernanda da Silva.

Gustavo Torniero é jornalista e ativista cego pelos direitos das pessoas com deficiência (PCD) e consultor em acessibilidade. Em seu Instagram pessoal @torniero, divulga para os mais de 7 mil seguidores, produções próprias com temáticas de acessibilidade e inclusão, sobretudo, de pessoas com deficiência visual, além de promover debates acerca destes assuntos. Assim, a plataforma é uma importante ferramenta de amplificação dos discursos e defesa de seus direitos.

Fotografia do entrevistado Gustavo Torniero

Gustavo Torniero é jornalista e ativista cego pelos direitos das pessoas com deficiência (PCD) e consultor em acessibilidade. Fonte: arquivo pessoal.

Desde 2015, Torniero faz parte da Organização Nacional de Cegos do Brasil (ONCB) e, a partir disso, passou a auxiliar no processo de conscientização sobre as barreiras sociais, tecnológicas e de acessibilidade que as pessoas com deficiência enfrentam. Já as redes sociais, para ele, são um meio de divulgar seus projetos e também para criar uma comunidade de pessoas com e sem deficiência que apreciam seu trabalho.

Assim como Torniero, o repórter da Sputnik Brasil, Solon Neto e seus colegas de faculdade também iniciaram seu ativismo fora da internet. Juntos criaram a agência de jornalismo Alma Preta, especializada na temática racial. Entretanto, a história do jornal teve início em 2015, com a fundação do Kimpa, coletivo negro da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp) de Bauru. Apenas meses depois, surgiu a ideia do blog como um espaço para compartilhar informações e reflexões sobre o que era discutido no coletivo.

Cabeçalho do portal Alma Preta.

Com a expansão do blog, os fundadores Pedro Borges, Vinícius de Araújo e Solon Neto perceberam que “a relação com as redes sociais é muito volátil e você deve ir aonde o interesse do público vai”. Assim, decidiram ampliar o Alma Preta para outras redes, como o Instagram @almapretajornalismo (carro-chefe da empresa) e o canal no YouTube Alma Preta Jornalismo

Vídeo de interpretação em Libras da música "Como É Que Eu Vou Dizer Que Acabou?" de Clarice Falcão, feita pelo estudante e poeta Gustavo Mendes.

Foi com vídeos assim que Gustavo Mendes (@ogusvato), viralizou na internet. O estudante de Psicologia e poeta iniciou sua trajetória na internet pensando em alavancar sua carreira de escritor, mas logo percebeu que, apesar de as redes sociais serem um espaço inclusivo para se abordar diferentes causas, ainda faltam recursos de acessibilidade para o público PCD. 

O jovem, que atualmente tem mais de 29 mil seguidores, se declara militante e encontrou no Instagram uma chance de conversar com seu público sobre temas como a questão LGBTQIA+, o movimento estudantil e o anticapacitismo. A internet marcou os primeiros contatos dele com o ativismo e os diversos problemas sociais que assolam o dia a dia dos brasileiros. Hoje, ele enxerga o espaço como uma das principais plataformas de debate ciberativista, mas diz que é importante levar esse debate às ruas.

Fotografia do entrevistado Gustavo Mendes e sua declaração: "É um meio, não um fim, ou seja, ainda mais agora que a gente está de quarentena e tudo mais, que muita gente não pode ir as ruas, é muito importante. É importante que a gente fortaleça o ativismo nas redes socias, por que a gente vê trabalho de militantes que fazem canais de YouTube explicando conceitos, explicando livros, ajudando a formar as pessoas. Sigo muita gente que fala sobre a vivência das pessoas surdas, a vivência das pessoas autistas, e vários tipos de particularidades e tudo mais. Então assim, é muito interessante por que as redes sociais permitem isso, elas permitem essa pluralidade."

Apesar de ser conhecido nas redes sociais por conta de suas interpretações musicais e demais conteúdos com Libras, Gustavo ainda não se declara um ativista da causa, pois, segundo ele, ainda há um longo caminho de aprendizado. O estudante defende que as redes sociais devem ser um lugar mais igualitário e, para isso, é preciso pensar em acessibilidade: “nos stories, a maioria dos influencers não bota legenda, para pessoas cegas não tem legenda alternativa nos vídeos nem nas fotos (…) não foi feito para pessoas com deficiência”. 

Gustavo não faz parte da comunidade PCD, diferente da estudante de Medicina Veterinária e ativista da causa Luanna Sayonara. A jovem de 22 anos é surda profunda e começou a trabalhar conteúdos em seu Instagram (@medvetsayo) como uma forma de mostrar “do que os surdos são capazes”, como ela mesma afirma. A falta de acessibilidade e inclusão dentro e fora das redes ainda afetam a vida dela e dos mais de 10,7 milhões de brasileiros que possuem deficiência auditiva.

Vídeo de apresentação em Libras da estudante e ativista Luanna Sayonara.
Texto alternativo: Sou Luanna Sayonara, sou surda profunda, tenho 21 anos e moro em Goiânia, Goiás. Eu acredito que serei uma boa profissional, pois sou muito atenciosa e observadora. Isso facilita o meu entendimento.

Uma das situações que mais preocupa Luanna é a inserção no mercado de trabalho. Por não ser oralizada e ser somente sinalizada (Libras), muitas pessoas não a compreendem. “Essa situação é bem difícil, os padrões sociais devem ser iguais, assim, eu me preocupo com o meu futuro quando me formar. Como vou conseguir o meu futuro emprego?”. Dentro de sua página, ela busca inspirar mais jovens como ela a seguir seus sonhos e a engajar na pauta PCD, sem se abalar com os comentários negativos.

Para a sorte de Luanna e de muitos outros, existem pessoas como Fernanda da Silva, tradutora e intérprete de Libras, que é atuante e influencer pela acessibilidade. Ao utilizar suas redes sociais para transmissão de conhecimento ao público, Fernanda busca “um mundo mais inclusivo”. Ela ainda afirma que a internet é um ambiente com inúmeras dificuldades, começando pela falta de empatia pelo outro, mas que para ela não foi difícil introduzir as pautas e debates em que acredita por ser algo que ela domina e vive diariamente. 

Em sua conta (@fernandaasilvaa), ela ensina sobre Libras, interpreta músicas como Gustavo e discute sobre a militância PCD, principalmente, dentro da comunidade surda. Ela vê que tratar esses assuntos de maneira pedagógica é uma maneira de provocar uma reação em cadeia, fazendo com que as pessoas entendam a mensagem e passem adiante. Essa é uma forma de difundir o ativismo para outras pessoas que não conhecem o movimento.

Fotografia da entrevistada Fernanda da Silva e sua declaração: "Eu tento mostrar de forma clara, didática, de forma que todos consigam entender bem tranquilo o que a mensagem está querendo ser dita, né. Então eu tento mostrar o quanto a sociedade é preconceituosa, não é inclusiva e o tanto que a gente tem que mudar com isso. Por que, enquanto eu consigo mudar o meu amigo, esse amigo também vai conseguir mudar o outro amigo, e a gente vai formando elos e fazendo com que a sociedade seja mais equitativa e igualitária"

Por meio desses influenciadores, é possível perceber como diversas pautas encontram no ciberativismo uma forma de crescer e se desenvolver, criando uma onda de compartilhamento de informação e conscientização. A maneira com a qual o debate é difundido tem muito haver com o perfil do público que interage com ele. 

No caso do Alma Preta, é notável que uma grande parcela dos seguidores que consomem aquele conteúdo se sente afetada por ele em alguma instância da vida. Enquanto a participação de um público PCD é mais baixa, principalmente, devido a falta de recursos de acessibilidade nas redes sociais, o que afeta a troca de conteúdo com eles.

“Não é mimimi

Ao passo que os assuntos abordados são de extrema importância a partir de um ponto de vista social e humano, ainda há uma parcela de pessoas que usam a internet para promover discursos de ódio e preconceitos. Todos os entrevistados para esta reportagem relataram já ter presenciado uma experiência com haters.

Neste sentido, tanto Solon quanto Gustavo Mendes veem isso como uma consequência de ser figura pública. Por sua vez, Torniero complementa: “com a visibilidade que alguns conteúdos passam a ter, sempre tem alguém para dizer que o que você está falando é ‘frescura’ ou, como alguns preferem chamar, ‘mimimi’”.

Nesse contexto, é possível observar o fenômeno da “cultura do cancelamento” e os hates. A exposição nas redes sociais significa estar sujeito ao “tribunal da internet”, o qual é responsável tanto pelo apoio quanto pelos hates. Os hates, consistem em comentários negativos ou com discurso de ódio que são feitos nas publicações ou nas caixas de mensagens privadas nas contas dos usuários. Gustavo Mendes, por exemplo, já se sentiu na obrigação de excluir conteúdos de seu perfil por conta de ameaças nos comentários.

Cada um deles lida com a problemática de uma forma, seja pela absorção de críticas construtivas, diálogos ou até descarte daquilo que é puramente negativo. A intérprete Fernanda tenta dialogar em algumas situações, o essencial para ela é fazer com que as pessoas se sensibilizem e entendam a problemática de comentários assim. Mas ela afirma que apesar dos comentários negativos, o apoio da comunidade surda é fundamental para que ela continue com o seu trabalho.

“Eu lembro que era alguma coisa que foi postado na internet, super preconceituosa, capacitista, eu não expus a pessoa, eu apenas citei um caso mas essa pessoa me procurou e ela me ameaçou e falou um monte de coisa que eu não tinha que falar isso. [...] Eu recebo muitas mensagens das pessoas me tendo como exemplo principalmente da minha atuação como intérprete e também da minha luta. Então é dessa maneira que eu tento tirar um pouco desse peso de receber essas mensagens que nós não deveríamos receber.”

Apesar das dificuldades, tanto em relação a conquista do público quanto aos hates, o ciberativismo é uma maneira de ocupar o espaço digital. Nas palavras do jornalista Pedro Pinto de Oliveira, “estar nas redes é uma condição de poder do ativismo”. De forma que este, além de cumprir sua função de extensão do ativismo das ruas, também amplia a difusão e a democratização da informação para além de pessoas já participantes de movimentos.

*Reportagem atualizada no dia 9 de agosto de 2021

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