Resistência às vacinas provoca volta de doenças

Os mais de 4 mil casos de sarampo no Brasil em 2019 revelam fragilidade no programa nacional de vacinas

O Brasil apresentou dois surtos de sarampo durante 2019, sendo um nos primeiros meses do ano e outro em junho. Casos isolados também foram registrados em 2018, mas, até então, a doença era considerada erradicada no país desde 2001.

De acordo com o boletim epidemiológico, publicado pelo Ministério da Saúde em 19 de setembro, o país possui 4.476 casos confirmados da doença, sendo que 3.906 dos casos foram relatados a partir do dia 23 de junho. Cerca de 97,5% estão concentrados em 153 municípios do estado de São Paulo, principalmente na região metropolitana da capital, enquanto que 2,5% dos casos estão nos outros 16 estados brasileiros.

Por consequência, foram notificadas quatro mortes por sarampo: três em São Paulo e uma em Pernambuco. Dessas, três eram crianças menores de um ano e um possuía mais de 42 anos de idade . Nenhum deles estava vacinado contra o sarampo.

 Cerca de 97,5% dos casos de sarampo estão concentrados em 153 municípios do estado de São Paulo.

O cenário também é preocupante fora do Brasil. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), ocorreram surtos de sarampo em mais de 180 países, com um aumento de 300% no número de casos, no mundo todo, de 2019 para 2018. Um relatório divulgado pela ONU em abril deste ano estima que 169 milhões de crianças não receberam a primeira dose de vacina contra o sarampo entre 2010 e 2017.

Esse cenário deve-se a um sentimento crescente de desconfiança em vacinas, muito por conta do movimento antivacina, que, segundo a OMS, passou a fazer parte, em 2019, da lista das dez maiores ameaças à saúde global, assim como o ebola, o HIV, a dengue, entre outras doenças.

O movimento antivacina pelo mundo

De acordo com Juarez Cunha, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), o movimento antivacina começou a se desenvolver com a publicação de um artigo do médico britânico Andrew Wakefield Lancet na revista científica Lancet em 1998. O artigo relacionou a vacina tríplice viral (que combate sarampo, caxumba e rubéola) a casos de autismo em crianças.

O artigo foi desmentido por outros cientistas, Wakefield perdeu o registro médico e a publicação foi tirada de circulação. Entretanto, grupos antivacina ainda acreditam no estudo e propagam essas ideias.

79% da população mundial acredita que as vacinas são seguras.

Apesar do movimento antivacina ser presente no Brasil, Juarez explica que os motivos para a diminuição da vacinação envolvem outros fatores no país. “O movimento antivacina no Brasil não é tão grande como é em outros lugares do mundo como Europa e Estados Unidos. O que temos percebido no país é que essa diminuição das coberturas vacinais está relacionada com a falsa segurança de que as doenças não existem mais e que, por isso, não precisam mais vacinar, que é exemplo da poliomielite e do sarampo. Chamamos essas pessoas de ‘hesitantes’, que devem receber muita atenção, pois é um grupo que não é necessariamente contra, mas sim hesitante em vacinar”, esclarece.

De fato, a situação internacional é mais preocupante se comparada à brasileira. A pesquisa realizada pelas instituições identificadas no infográfico a seguir comprovaram que pessoas que residem em países de alta renda possuem mais desconfiança em vacinas.

 

Sucesso em queda – Linha do Tempo

A década de 90 foi o auge da campanha de vacinação no Brasil. O Programa Nacional de Imunizações (PNI) passou a articular-se com instituições de defesa dos direitos da criança, como a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), a Pastoral da Criança, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas). Dessa forma, foi criado em 1991 o Comitê Técnico Assessor em Imunizações (CTAI).

Em 2001, já não havia registros de sarampo no Brasil.

Devido à alta em casos de sarampo, com cerca de 42 mil casos registrados, em 1992, foi criado o Plano Nacional de Controle e Eliminação de sarampo. Ele visava à extinção da doença como prioridade da sua política de saúde. Dessa forma, foi realizada uma campanha de vacinação, de abril a maio daquele ano, o que gerou uma diminuição de 81% no número de casos. Foram mais de 48 milhões de crianças imunizadas, atingindo uma cobertura vacinal de cerca de 96%. Dessa maneira, em 2001 já não havia registros de sarampo no Brasil. Por isso, a Organização Panamericana de Saúde (OPAS) conferiu uma certificação de país livre da doença em 2016, a qual foi perdida devido à prevalência atual da doença no território por mais de um ano.

 

Desafios e complicações

De acordo com a médica pediatra e responsável técnica pelo Centro de Vacinas de Bauru, Leonor de Fátima Santos, “em algumas regiões do país, mesmo com a vacina gratuita, disponível em todas as unidades básicas de saúde, a cobertura vacinal não chega a 50% da população-alvo. Isso porque muitos pais não levam seus filhos para tomar a vacina”.

Juarez acredita que existem vários fatores que impactam nessa decisão de não vacinar. Há o desconhecimento da doença, não só pela sociedade, mas também por profissionais da saúde. Isso, porque, com 36 mil salas de vacinação distribuídas por todo o Brasil, preparar ou enviar profissionais capacitados a áreas mais remotas pode ser muito difícil. Esse problema acontece devido à estrutura do sistema público, seja por falta de recurso humano ou desvalorização do profissional.

Como consequência, muitas pessoas em áreas remotas podem apresentar dificuldade pois, por falta de profissionais na região, precisam se locomover até áreas mais distantes. Juarez ainda aponta mais uma complicação fornecida pela complexidade do próprio calendário de vacinação nacional. “Hoje temos vinte vacinas previstas no calendário vacinal, o que faz com que muitos pais fiquem hesitantes devido à quantidade de vezes que é necessário locomover-se ao local para tomar a vacina ou, de fato, não consigam”, exemplifica.

Falta de informação é um risco

De acordo com Leonor, o grupo hesitante quanto à vacinação também é um fator preocupante. “A falta de informação e de vivência do risco e também a erradicação de doenças deixaram as pessoas muito confortáveis em relação à vacinação. Elas pensam: ‘Se não existem casos da doença, então eu não corro risco’”, aponta.

É preciso lembrar que as vacinas só estão em circulação após terem sido testadas e comprovadas em segurança e eficácia.

Juarez concorda que esse desconhecimento a respeito do embasamento científico das vacinas é outro ponto crucial. É preciso lembrar que elas só estão em circulação após terem sido testadas e comprovadas em segurança e eficácia. “No entanto, não podemos negar que podem existir efeitos colaterais de algumas vacinas, mas eles geralmente são leves. Quando se pesa em uma balança os efeitos que uma dessas doenças pode causar contra os efeitos colaterais de vacinar-se, fica claro que as complicações da doença são muito mais graves e fatais do que as da vacina. Um exemplo claro é o sarampo, que já fez quatro vítimas no estado de São Paulo. Se há uma vacina eficiente contra, por que não tomar?”, questiona o profissional.

 

Soluções

De acordo com Juarez, melhorar a comunicação, falar melhor sobre as doenças para que as pessoas entendam a gravidade que é a volta delas e, também, abordar a segurança das vacinas são atitudes essenciais que já vêm sendo tomadas pelas instituições de saúde, mas que precisam ser aprimoradas.

“Antes, as mídias tradicionais possuíam uma penetração muito maior na sociedade do que atualmente. Hoje, as mídias sociais ganharam uma importância indiscutível e precisamos acompanhar isso. Por outro lado, não conseguimos chegar nesse núcleo devido à incidência de informações falsas amplamente compartilhadas e que fazem um estrago muito rápido. Muitas vezes não é possível nem responder e esclarecer tais informações, que não necessariamente são totalmente mentirosas, mas que são mal interpretadas”, afirma.

“Hoje, as mídias sociais ganharam uma importância indiscutível e precisamos acompanhar isso”, Juarez Cunha, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).

Portanto, é importante interagir com esses canais diferentes e deixar claro que podem existir efeitos colaterais, por exemplo, pois essas são algumas das informações divulgadas como forma de convencer as pessoas a não imunizar-se, o que atinge diretamente a população hesitante que desconfia de algumas vacinas. “Generalizar a mensagem é algo que estamos tentando evitar. É necessário ir direto ao ponto, falando especificamente. Queremos fazer vídeos mais curtos e podcasts, que são fortes tendências atuais, com textos mais curtos e objetivos. É preciso aprender a falar com o outro público, principalmente os jovens”, explica.

A reinvenção do Zé Gotinha

Até mesmo o famoso garoto propaganda da vacinação no país tem buscado novas formas de conversar com o público. O Zé Gotinha foi criado em 1986 pelo artista plástico Darlan Manoel Rosa, a convite do Ministério da Saúde e com o apoio do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), visando promover a logomarca como uma estratégia para erradicar a poliomielite até o ano de 1990.

A campanha obteve sucesso, pois em outubro de 1994 o Brasil recebeu certificado de erradicação da poliomielite. O nome ‘Zé Gotinha’ surgiu por meio de um concurso realizado em escolas de todo o Brasil, o que favoreceu a identificação por parte das crianças. Nascia, então, o símbolo da vacinação infantil brasileira.

Novas estratégias de publicidade foram adotadas, como campanhas mais sérias e com apelo emocional.

Apesar do sucesso, a queda no número de cobertura vacinal aconteceu gradualmente, fazendo com que novas estratégias de publicidade fossem adotadas. A imagem lúdica e sorridente do Zé Gotinha começou a dar espaço para campanhas mais sérias, que apresentam os reais impactos dessas doenças.

Novas estratégias de mídia

Essa artifício de utilizar vídeos com apelo emocional foi a maneira encontrada pelo Ministério da Saúde de conscientizar a população a respeito dos riscos que muitas vezes não são vistos. “Algumas pessoas possuem a sensação de falsa segurança por não verem as consequências dessas doenças. É necessário, portanto, mostrar o que pode acontecer caso a vacinação não seja feita, como forma de conscientização e eliminação da desconfiança”, pontua Juarez.

Algumas campanhas midiáticas em redes sociais também têm sido feitas com parcerias de atores e influencers digitais, como é o caso da atriz Larissa Manoela, que recentemente publicou um vídeo convidando crianças a irem nos postos de saúde tomarem vacina da gripe. A jovem possui mais de 24,3 milhões de seguidores e a publicação teve mais de 856 mil visualizações. A apresentadora Xuxa Meneghel, ícone da televisão brasileira e “rainha dos baixinhos” já colaborava desde os anos 80, mas reapareceu em uma campanha recente, pensada para o público que cresceu com ela e também para o mais recente.

“Gosto muito de uma frase que diz: ‘Para cuidar, é preciso um sentimento comunitário’. Só assim, com o engajamento e responsabilidade de cada um de nós será possível erradicar novamente doenças que já faziam parte do passado”, finaliza Leonor.

Repórter: Taleessa Silva

Produtor multimídia: Guilherme Ribeiro

Editora: Fernanda Fernandes

Editora-chefe: Nayara Campos

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