“Deixa o menino cantar, vai!”: conheça o rap brasileiro

Rappers do cenário bauruense comentam a história por trás das três décadas de rap no Brasil e suas principais transformações

Desde que surgiu, em 1973, o rap pode ser considerado uma forma de afirmação da cultura negra e latina, sendo e criando meios de expressão de uma identidade socialmente marginalizada. Dessa forma,  muitos puderam transformar realidades em música e poesia. Vozes silenciadas criaram ecos.

Apesar de ter sido criado na década de 70, foi nos anos 90 que o movimento ganhou força no Brasil, especialmente em São Paulo, quando dançarinos e MCs começaram a se encontrar na estação de metrô São Bento. Nessa época, artistas como Thaíde, Racionais MCs e Ndee Naldinho começavam a fazer história. Aos poucos, ficaram categorizados como aqueles que marcaram o momento explosivo do rap no país da bossa nova. 

Racionais Mc’s, 1990 (Foto: Reprodução)

Revolução social e política

Com letras que, em suma, denunciavam uma realidade nunca descrita, cantadas por pessoas historicamente excluídas, se iniciava no país uma revolução não apenas estética, mas também social e política. Nascido a partir da cultura negra, o rap primeiramente pode ser considerado como um meio de luta contra o racismo.

Músicas como “Racistas Otários“, do Racionais Mcs, definitivamente incomodaram e ainda incomodam aqueles que fomentam o preconceito. “E eles vêem, por toda autoridade, o preconceito eterno. De repente, o nosso espaço se transforma num verdadeiro inferno. Reclamar direitos de que forma, se somos meros cidadãos e eles o sistema?”, indaga.

O que ninguém esperava é que em um país nitidamente preconceituoso, esse era apenas o início de uma gama extensa de músicas e artistas que surgiriam. A periferia e a questão dos negros no país também ganharam notoriedade na voz de Sabotage que, ao mesmo tempo, revelou o rap como meio de revolução e  transformação pessoal. Morto por quatro tiros no ano de 2003, Sabotage deixou seu legado com o clássico “Rap é Compromisso”. 

“Voz que vem de preto para preto”

Após duas décadas, o movimento continua forte no Brasil. Atualmente, nomes como Negra-Li, Criolo, Marcelo D2 e Emicida, marcam o cenário do rap e parte da grande mídia brasileira.

Juntamente com isso, a música ecoa alto suficiente para chegar também no interior paulista, surgindo novos artistas e jovens influenciados pelo estilo e pela ideologia por trás do hip-hop. 

É o caso do rapper bauruense Júlio César Bastos, mais conhecido como “Dom Black”. Com 33 anos, o cantor possui 4 discos e foi vencedor nacional do festival “Sons da Rua”, de 2017. Influenciado por Thaíde, Racionais MC’s e pelo Sistema Negro, Dom teve, a princípio, seu primeiro contato com o rap no começo dos anos 90 e escreveu sua primeira letra aos 11 anos de idade.  “Eu me identificava com o estilo principalmente pelo fato de ser uma voz que vinha de preto para preto. Eram pessoas falando sobre o que a gente vive, nossa história e nossa relação com o mundo”, relembra.

Bom Black

Dom Black soltando o verso no Sons da Rua de 2017 (Foto: Denise Guimarães/Reprodução/Acervo Quilombo Groove)

De acordo com ele, o movimento foi imprescindível para o empoderamento das minorias brasileiras. “O rap dos anos 90 tinha um empoderamento que hoje faz falta. Acho certo a molecada ir em busca do dinheiro e do sucesso, mas existe um esquecimento da ideologia. É difícil encontrar ativistas reais hoje em dia”, comenta. 

“Imagina se eu dissesse tudo que eu tenho visto”

“Quem disse que quem não deve não teme, não tomou tanto enquadro, nem viu tudo o que eu vi”, é um dos trechos da música “Sem Preconceito”, do rapper bauruense Ariel David Luiz (25), conhecido como David Mc.

Semi-finalista do festival “Sons da Rua” de 2019, David é conhecido pelo caráter político de suas letras. Negro, o Mc iniciou sua relação com a música aos 9 anos de idade.

Suas letras falam sobre a periferia, a perseguição policial à população negra, o racismo e diversas questões políticas. É o caso de “Profissão Perigo”, lançada pela “CB Produtora” em 2018: “Imagina se eu dissesse tudo o que eu tenho visto. Parece que o governo investe pro país voltar ao início”.

David Mc no centro da cidade de Bauru, onde costuma vender seus CD’s diariamente ( Foto: Victoria Carvalho)

O real rap e o real grafite vão contra o sistema

Segundo o rapper apesar de existir mais espaços para o movimento no centro da cidade, o estilo musical se “quebrou” em alguns sentidos por conta do capital. “O real rap e o real grafite vão contra o sistema, sem absorver tanto daquilo que é comumente considerado bom, como o dinheiro. A cultura hip-hop do passado e de hoje é a mesma, os militantes continuam. Com um espaço maior, talvez. A grande diferença é que algumas pessoas não sabem manter um equilíbrio”, conta.

Além disso, a repressão, principalmente policial, ainda afeta o movimento. “O rap é sinônimo de liberdade. Acho que a frase ‘deixa o menino cantar, vai!’ é a principal graça que Deus derramou sobre quem faz esse tipo de música”, acrescenta. 

De acordo com David, desde que começou a se envolver com a música, o hip-hop melhorou seu diálogo. “Primeiramente, o rap tem total importância na minha vida, porque me ensina a conversar com as pessoas e a responder dentro de casa. Me ensinou a usar o pensamento para responder. É uma revolução diária através das palavras”, acredita.

Por meio da música, projeto visa melhorar a realidade de crianças e adolescentes

Ismael Moraes dos Santos (21), mais conhecido como Mael Mc, busca ensinar o diálogo a seus alunos por meio de oficinas de hip-hop que são desenvolvidas pela Prefeitura de Bauru em residenciais do Minha Casa Minha Vida.

Mael MC em oficina

Mael Mc em uma de suas oficinas no Minha Casa Minha Vida de Bauru (Foto: Victória Carvalho)

Com aulas duas vezes por semana, as crianças e adolescentes aprendem a aprimorar a escrita, a fazer rimas, bem como trabalhar o encaixe da letra na melodia. Para o Mc, o projeto, em síntese, possui potencial educacional e transformador. “O intuito do projeto é inserir essas crianças e adolescentes em um caminho melhor e propiciar à elas uma maior abrangência da cultura, que na maioria das vezes é escassa em lugares mais simples da cidade”, comenta. 

Que o tempo é um possibilitador de mudanças, não existe dúvida. Com a democratização cada vez maior das mídias sociais e uma gama de artistas mais diversa, com o rap não poderia ser diferente. O que não muda é a realidade da periferia, a repressão policial e a desigualdade social. Em suma, é por esse motivo que o rap se faz necessário. O porque a arte se faz necessária. É através dela que surgem Doms por aí. Davids por aí e Maéis por aí.

Confira playlist que celebra o rap da década de 1990 até atualmente:

Repórter: Victória Carvalho

Produtora multimídia: Daniele Olímpio

Editora: Flávia Gasparini

Editora-chefe: Nayara Campos

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