HIV e Aids: medo dos anos 90 é disfarce para o preconceito

De relatos pessoais a problematizações sobre o tema: já passou da hora da sociedade se atualizar sobre o HIV e a Aids

Você já fez algum teste para detectar o HIV? Qual foi a última vez que falou sobre Aids? Quando lê ou escuta essa palavra, quais são as primeiras coisas que você associa a ela? Pânico? Tristeza? Morte? Se for isso, ou algo semelhante, você ainda está com a mente na década de 90.

Esse “medo” tem outro nome: preconceito

Atualmente, a Aids é uma doença que está mais no imaginário da população do que nos corpos físicos que vivem com o HIV. Quase 40 anos após o início da epidemia, as pessoas ainda se assustam quando escutam falar sobre o assunto. Na verdade, esse “medo” tem outro nome: preconceito.

Mas por que ainda é tão complicado falar sobre HIV e Aids? “Falar de HIV muitas vezes te coloca em uma exposição que, aos olhos de muitos, traz uma condenação”, explica Daniel Fernandes, 34 anos, youtuber no canal Prosa Positiva.

“Você está ali querendo ajudar, mas é tratado com pena ou te julgam por safadeza […] E para os que não tem HIV, quando abordam o assunto, acabam sendo interpretados como se eles também vivessem com o vírus”, Daniel complementa, quando questionado sobre como tornar esse assunto mais cotidiano.

O youtuber conta que recebeu o diagnóstico positivo para o HIV em 2011 e ficou surpreso, entretanto não teve pensamentos ruins. “Eu já tinha uma base de conhecimento sobre viver com o vírus”, relata. Além disso, afirma que, desde então, a empatia que sente pelo próximo passou a ser ainda maior.

Mas, nem todas as reações são assim. Muitas vezes, a desinformação e a visão preconceituosa sobre o assunto transformam a vida da pessoa, fazendo com que ela se isole ou não saiba como prosseguir a partir do diagnóstico positivo. 

Você acha mesmo que sabe tudo sobre HIV e Aids?

Através de um formulário online, uma enquete foi realizada com 137 pessoas. A divulgação foi feita por redes sociais (Instagram e Facebook) e em grupos de universitários no WhatsApp. Confira abaixo os resultados obtidos e as respostas para cada pergunta:

 

E quais são os números relacionados ao assunto?

De acordo com Beto de Jesus, diretor geral da AHF Brasil (Aids Healthcare Foundation), não há dúvidas de que houve avanços no Brasil, desde os anos 90, em relação aos programas que oferecem apoio a pessoas vivendo com HIV. 

“Nos últimos 20 anos, tivemos uma queda expressiva nas taxas de mortalidade, uma diminuição significativa da transmissão vertical do HIV (quando o bebê é infectado durante a gestação, parto ou amamentação) e, desde 2011, não são registrados casos de Aids em hemofílicos ou usuários de drogas injetáveis”, explica.

Contudo, ainda existem barreiras em relação à epidemia e também discriminação e estigma sobre as pessoas que vivem com HIV/Aids. Beto diz que o grande desafio da AHF atualmente é ajudar a reescrever a narrativa da epidemia nos 43 países em que ela está presente.

A Aids Healthcare Foundation é uma ONG que está em 41 países, com  sede em Los Angeles, e tem como objetivo oferecer medicina de ponta e ações de advocacy em medidas contra à Aids. Uma das estratégias de comunicação da ONG é pautar os conteúdos naquilo que é útil na vida das pessoas.

“Estamos sempre reforçando as mensagens de prevenção combinada, de incentivo a fazer o teste, de iniciar o tratamento o quanto antes no caso de pessoas com teste positivo”, Beto comenta. Além disso, a AHF também se posiciona no combate à discriminação e ao estigma de pessoas vivendo com HIV/Aids.

No entanto, a epidemia continua. Confira abaixo números divulgados pelo UNAIDS Brasil. Vale lembrar que o UNAIDS é o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS e que todos os dados são atualizados de seis em seis meses.

 

O que não te contaram sobre HIV e Aids

No dia 21 de setembro, aconteceu o evento “Redução de Danos e IST’s – PositHIVas no Futuro” na Unesp de Bauru para falar justamente sobre o vírus da imunodeficiência humana. Organizado pelo grupo de estudos RD da universidade, algumas pessoas do coletivo Loka de Efavirenz marcaram presença.

A conversa foi mediada pelo Carlos Eduardo (Cadu ou Cadiva) e também pela Pisci, representantes do coletivo e militantes da causa.

Para quem não conhece, o Loka de Efavirenz surgiu em 2016 e tem como propósito discutir as violações dos Direitos Humanos sofridas pelas pessoas que vivem com HIV/Aids, além de levantar discussões a respeito dos estigmas que giram em torno do assunto.

O próprio nome do coletivo já é um grito político. Um toque de ironia, ao passo que vai contra o tabu existente na sociedade. Efavirenz foi o principal remédio distribuído no Brasil para o tratamento de HIV/Aids durante muito tempo, mas que gerava diversos efeitos colaterais, desde insônia e tonturas, até depressão e pensamentos suicidas. 

O bate-papo se iniciou com a seguinte pergunta: “O que é prevenção para você?”. Ao som da música Vivas, os participantes responderam à questão em um papelzinho cada, para que depois todos fossem lidos e o debate se iniciasse.

O tema na mídia

Uma vez que nem a mídia sabe como abordar o assunto, a informação não chega corretamente para a população. De acordo com Cadu, militante no movimento social de Aids e do movimento negro, discutir sobre HIV/Aids é falar sobre classe, gênero e raça.

A capa da Veja que trouxe uma figura abatida do cantor Cazuza, em 1989, é o reflexo da “Aids do medo” que acontecia na época. Anos se passaram, porém, reportagens sensacionalistas e mentirosas sobre o tema continuam sendo produzidas pelo jornalismo tradicional.

Em 2015, foi ao ar, pelo Fantástico, uma reportagem sobre os “carimbadores” (pessoas que transmitem o HIV para outras sem o conhecimento delas). A matéria continha incoerências, como quando um suposto carimbador disse ter HIV, mas ser algo bem controlado.

A pessoa que vive com HIV/Aids e realiza o tratamento antirretroviral, encontra-se em um status de indetectável, ou seja, quando a carga viral é abaixo de 200 cópias por mililitro de sangue (média internacional). Portanto, considera-se que essa pessoa é indetectável e intransmissível, podendo ter relações sexuais sem o uso do preservativo, já que o vírus não será transmitido.

Segundo Cadu e Pisci, o movimento dos carimbadores não existia, mas passou a acontecer após o sensacionalismo da mídia, o que fez com que projetos de leis que criminalizam a Aids voltassem a ser discutidos.

“Esse tipo de matéria faz com que se tenha um criminoso e uma vítima, colocando o discurso da Aids, em 2015, como se estivesse sendo dito nos anos 80”, explica Pisci.

Campanhas de prevenção e o estigma

Casos assim não são únicos quando se fala sobre culpabilizar a pessoa que vive com HIV. Isso acontece nas próprias campanhas de prevenção, com um “discurso bélico” trazido pela medicina. A prevenção é pensada apenas para os corpos que não vivem com HIV/Aids e não para as pessoas positivas.

A assimetria existente na hora da prevenção coloca o estigma de vetores de doença em quem é soropositivo. Além disso, não se fala sobre a transmissão de outras IST’s. Esse tipo de discurso, que tem poder e é baseado em leis, proposições filosóficas ou médicas, é conhecido como dispositivo da Aids.

Confira aqui e aqui campanhas do Ministério da Saúde de prevenção ao HIV na década de noventa.

Pensar no dispositivo da Aids, é, afinal, também pensar em uma forma de controle em relação ao corpo da pessoa positiva. É criada uma narrativa em cima das populações-chave (muitas vezes tratadas de maneira equivocada como populações vulneráveis), de forma que marca e estigmatiza esses indivíduos.

“A linguagem transmite a cultura. E se a nossa cultura é uma cultura de guerra, nosso corpo vai estar em campo de batalha”, afirmou Pisci durante debate.

“Quando você fala sobre populações vulneráveis, você esvazia a produção de violência e desequilíbrios das relações de poderes na sociedade, e essencializa a violência no corpo da pessoa que vive com HIV/Aids”, ressalta Pisci. 

A pessoa é vulnerabilizada porque a sociedade não reconhece a humanidade dela. O UNAIDS considera que gays, profissionais do sexo e seus clientes, pessoas trans e pessoas que usam drogas injetáveis são as principais populações-chave em relação ao HIV.

Mas isso não condiz com a realidade, visto que certos grupos não são considerados por questões de violência de gênero e racial. De acordo com a Agência Aids, mulheres cis negras morrem três vezes mais que as mulheres brancas; elas também estão em primeiro lugar na lista de mortalidade em decorrência da Aids em São Paulo.

Um discurso para quem?

Para quem chega todo o discurso de cura bélico? Pautando também a questão das classes, quem consegue aplicar o que é passado pelas campanhas de prevenção são apenas as pessoas positivas que têm uma ótima qualidade de vida (praticam esportes, se alimentam bem, não passam por tanto estresse). Enfim, pessoas brancas e ricas.

 

Não são todas as pessoas que vivem com HIV/Aids que chegam no [I=I] (indetectáveis e intransmissíveis), por conta do racismo, misoginia e outros preconceitos enraizados na sociedade. Além disso, o desmonte do SUS é outro fator que complica a realidade dessas pessoas. “Há uma tecnologia muito grande para lidar com a Aids, mas também existe uma barreira para essas pessoas que acessam ou não”, afirma Pisci.

Durante a conversa, Cadu e Pisci citam Herbert Daniel, uma das principais referências do movimento de Aids no Brasil, explicando que existem três epidemias: a primeira, o vírus em si; a segunda, o adoecimento por conta do HIV ao quadro de Aids; e a terceira, a criminalização da pessoa positiva.

Por isso, apenas acessar a medicação e fazer várias campanhas de prevenção não resolve a questão da Aids. A segregação social vai desde o ambiente de trabalho até às relações afetivas e pessoais da pessoa. 

“Em uma família de bem, as pessoas não vão falar sobre Aids, mas vão falar sobre porte de arma”, Cadu pontua. Além disso, ele também fala que a mídia deveria dar uma contranarrativa sobre o tema.

O coletivo afirma que a individualidade dentro do movimento não deve existir.

“Em uma família de bem, as pessoas não vão falar sobre Aids, mas vão falar sobre porte de arma”

Para não falar tudo que a população já espera saber sobre pessoas que vivem com HIV/Aids, Cadu explica que se deve oferecer, portanto, uma outra perspectiva a respeito do assunto. “Ao invés de trazer essas questões tão ditas a tanto tempo, para gerar pânico, vamos mostrar os artistas e o que estão produzindo por conta do HIV e Aids”, pontua. 

Elus citam o trabalho da ativista e artista Micaela Cyrino. Micaela nasceu com HIV, a partir da transmissão vertical. Entretanto, mesmo que viva com HIV desde o nascimento, a artista citou em outras entrevistas que o racismo e o machismo a atingem muito mais que a sorofobia. 

Onde estão as pessoas positHIVas?

Maycon Moreira, 32 anos, é psicólogo, adora assistir Netflix, estar com as pessoas que gosta, viajar, namorar e vive com HIV há, aproximadamente, oito anos. Ao mesmo tempo, ele gerencia a página Indetectáveis, onde compartilha informações a respeito de HIV e Aids.

O psicólogo conta que já sofreu preconceito por ser soropositivo, entretanto, hoje em dia, não carrega consigo nenhum sofrimento: “Se trata de alguém (pessoa preconceituosa) que precisa de atenção, conhecimento, educação e que precisa ser informado, porque é uma pessoa manipulada”, diz. 

Além do relato pessoal no vídeo abaixo, Maycon afirma que a única mensagem que poderia passar para a sociedade é para que se informem. “Se der positivo, nós vamos estar aqui, estamos nisso juntos. A gente pode fazer parte desse processo de ressignificar, acolher”, acrescenta.

Para anotar no bloco de notas!

Para você aprender mais sobre HIV e Aids, o Daniel Fernandes separou uma lista de fontes para buscar informações corretas! “É importante estarmos informados sobre o HIV, pois sempre haverá alguém próximo necessitando de um apoio e um abraço”, finaliza.

Repórter: Laura Gallinari

Produtor multimídia: Guilherme Ribeiro

Editora: Fernanda Fernandes

Editora-chefe: Nayara Campos

*Esta edição foi atualizada às 16h44 do dia 12 de novembro de 2019. A palavra “pesquisa” foi substituída por “enquete”. No segundo infográfico, os textos “Segundo dados divulgados pela Unaids Brasil”, “Número de novas infecções por HIV” e “Pessoas morreram de doenças relacionadas à AIDS” foram substituídos, respectivamente, por “Dados globais divulgados pela Unaids Brasil”, “Número de novas infecções por HIV em 2018” e “Pessoas morreram de doenças relacionadas à AIDS no último ano”. O texto “ambes do coletivo e militantes da causa” foi substituído por “representantes do coletivo e militantes da causa”. A frase “entretanto sem florear o movimento” foi retirada.

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