Entrevista: A importância do acompanhamento psicológico no processo de adoção

Durante o processo de adoção de crianças e adolescentes, há uma etapa de preparação psicossocial e jurídica dos pretendentes a pais,  que envolve a realização de um curso obrigatório. Depois disso, é realizada uma avaliação psicossocial, a partir de entrevistas e de visitas domiciliares feitas por uma equipe de psicólogos e assistentes sociais.

Apesar da existência da etapa descrita acima, muitos processos de adoção podem carecer de maior acompanhamento psicológico, que não é obrigatório por lei. Essa assistência, no entanto, pode ser essencial para uma boa adaptação e vivência da criança em seu lar adotivo.

Para saber mais sobre a importância desse acompanhamento e os procedimentos capazes de ajudar na adaptação de uma criança adotada, o Repórter Unesp entrevistou o Prof. Dr. Mário Lázaro Camargo, doutor em Psicologia pela USP (Universidade de São Paulo), com a tese “Adoção: vivências de parentalidade de adultos adotados”.

A imagem mostra o Dr. Mário Lázaro Camargo. Um homem branco, de cabelos preto lisos e óculos.
Mario Lázaro Camargo, professor de Psicologia na Unesp Bauru, pontua que o acompanhamento após o processo de adoção é fundamental para a adaptação
dos pais e da criança ou adolescente (Foto: Gilmara Melo/ Repórter Unesp)

O acompanhamento

Repórter Unesp: Qual a importância do acompanhamento psicológico antes do processo de adoção?

Mário Lázaro Camargo: Eu entendo que o acompanhamento psicológico deva começar antes do processo de adoção e deve ocorrer tanto para a criança que vai ser adotada, quanto para os postulantes à adoção.

O acompanhamento psicológico feito antes é necessário para preparar a criança para vivenciar melhor a transição de um ambiente institucional para um ambiente familiar.

O foco do acompanhamento na preparação dos futuros pais têm que se direcionar para as expectativas, para que eles consigam entender que tem uma diferença entre o que eles esperam da criança, e deles mesmos em termos de exercício de maternidade e paternidade, e o que vai acontecer na prática. 

R. U.: E depois que a criança chega ao novo lar?

M. L. C.: Durante o processo de adoção, ou seja, quando a família já integrou aquele novo membro ao seu seio, o acompanhamento é necessário para facilitar o processo da adaptação, da construção do vínculo, e, principalmente, para estabelecer as boas regras que vão facilitar a convivência. Eu diria até que o processo de acompanhamento é tão importante que dele depende o sucesso da adoção. Então uma família que não pode ser acompanhada corre maior risco de não ter êxito.

As possíveis frustrações

R. U.: Como lidar com as  frustrações que podem acontecer depois do processo de adoção, quando a criança já estiver integrada à família? 

M. L. C.:  É difícil de responder, porque a frustração, enquanto fenômeno psicológico, implica em como a pessoa vai elaborar a relação de diferença entre o que ela formou de expectativa e como a realidade se apresenta. 

Meu jeito de elaborar a frustração, nesse sentido, vai ser diferente do seu. Isso quer dizer que não existe um jeito único ou universal para lidar com a frustração, depende da história de vida e da estrutura de personalidade de cada um, e do que está em jogo. Na Psicologia, a gente tem o entendimento de que quanto maior é a expectativa que eu faço em relação a qualquer coisa, maior é o risco da frustração e vice versa. 

R. U.: Como evitar ter expectativas altas que trazem essa frustração? 

M. L. C.: Na Psicologia há o conceito de maturidade emocional, ou seja, não projetar sobre o outro as expectativas que correspondem aos meus desejos, conseguir entender que ele não é responsável pela minha realização. Isso de construir maturidade nas pessoas, seja no adotante ou no adotado, eu entendo como sendo um dos mais importantes instrumentos para lidar com a frustração. 

R. U.: A frustração também pode estar ligada a outros fatores? 

M. L. C.: A frustração também está vinculada a fatores culturais. Por exemplo, na sociedade brasileira, ainda há a situação de muitos candidatos à adoção pleitearem a adoção de uma criança bem pequena, preferencialmente um bebê. É um fenômeno cultural muito comum em nossa sociedade. Por isso, no Brasil, a adoção tardia é um fenômeno difícil de lidar. 

A gente tem um número pequeno de crianças recém-nascidas nas instituições e um número grande de pais querendo adotá-las. Na contramão, temos um número grande de crianças mais velhas e adolescentes, nas instituições, e um número reduzido de postulantes à adoção tardia.  Isso tem a ver com um dado cultural, em função de um mito. O mito de que a criança mais nova tenha maior facilidade de se adaptar à família, ou o contrário, que a família tenha maior facilidade para se adaptar à criança. 

R. U.: Existe a crença de que crianças mais velhas podem carregar certos comportamentos que entrariam em desacordo com o modo de vida das famílias adotivas, como lidar com essa crença?

M. L. C.: A primeira coisa é entender que esse tipo de situação não acontece dentro de uma família, só porque a criança foi adotada. Esquecemos que o problema da adaptação pode acometer qualquer família. Você pode ter uma família aparentemente bem estruturada e um adolescente muito agressivo e rebelde, e ele não foi adotado.

Nós não deveríamos, do ponto de vista teórico, correlacionar problemas de adaptação ao evento adoção. Essa relação, ou conexão temática, sinaliza para a existência de algum tipo de preconceito em torno da adoção. O preconceito é de que essa criança pode ter dificuldade para se adaptar, e não necessariamente é assim.

R. U.: No Brasil, há uma alta estatística de crianças que são “devolvidas” às instituições de adoção. Quais impactos psicológicos podem resultar desse processo?

M. L. C.: Difícil de prever os impactos, mas dá para dizer que em sua maioria são negativos. Uma devolução pode ser interpretada pela criança como um segundo abandono e forma de rejeição. Dependendo da idade da criança, ela traz consigo a memória do vivido. 

 Eu diria que um possível impacto esteja mais ou menos delineado dessa forma: “que ser humano sou eu que não consigo ser aceito nem na minha família biológica e nem na minha família adotiva?”.  A criança pode fazer uma interpretação nesse sentido, de que sua presença não é benquista, e que ela não tem valor suficiente para mantê-la. Isso pode afetar significativamente sua autoestima e autoimagem.

A adaptação

R. U.: Como tornar mais fácil a adaptação da criança no lar adotivo?

M. L. C.: A adoção é uma via de mão dupla. Os adultos adotam a criança e a criança adota os adultos. É necessário um processo de construção de vínculo, que faz diferença na adaptação. Quanto mais houver investimento afetivo na construção do vínculo, por parte dos adultos e das crianças, provavelmente nós teremos um processo de adaptação melhor.

Nesse aspecto, a questão das expectativas são fundamentais, porque se eu idealizei muito a criança e fiquei esperando ela ser perfeita, nas primeiras dificuldades de relacionamento isso vai gerar uma frustração. Isso vai gerar uma irritabilidade e um afastamento, indo na contramão da construção de vínculo, dificultando o processo de adaptação. Se eu tenho uma maturidade emocional que consegue promover uma administração melhor da expectativa, não vou ver o problema de adaptação da criança como sendo algo que é passivo de culpabilização dela, simplesmente vou focar no problema e tentar resolver. 

R. U.: Existe algum tipo de “receita”?

M. L. C.: Tratando-se de convivência humana, de integração e estrutura familiar, não existe uma receita. Não existem também procedimentos universais, porque cada indivíduo é único e traz consigo desejos, personalidade, estrutura cognitiva e mental.  Por isso, volto à sua primeira pergunta e reforço que o processo de acompanhamento psicológico é tão necessário antes na adoção, quanto após. 

R. U.: Como o senhor vê a adaptação psicológica nos casos em que a família adotante já possui filhos consanguíneos?

M. L. C.: É diferente, porque o casal que já teve seus filhos e parte para uma adoção, tem uma experiência no exercício da maternidade e paternidade construída na relação com os filhos biológicos. Um casal que tem um segundo filho, administra de forma diferente sua maternidade e paternidade, em função do que ele aprendeu na experiência com o primeiro, porque o ser humano está o tempo todo aprendendo e amadurecendo. Então, certamente, haverá um exercício mais qualitativo da maternidade de paternidade se a adoção for posterior ao nascimento de filhos biológicos.

R. U.: Pode haver dificuldade em como lidar com o filho biológico e com o filho adotivo?

M. L. C.: O que eu acho importante destacar e que foi perceptível nas minhas pesquisas: o mito de que a criança adotada traz consigo problemas em função de um eventual abandono e de uma eventual convivência num lar desestruturado, pode levar o adotante a construir uma relação do tipo de compensação afetiva. Do tipo “preciso dar mais carinho e ser mais próximo da criança, porque já foi abandonada”. Isso é um perigo, porque essa compensação pode construir uma identidade e favorecer um processo de constituição de subjetividade de uma criança que terá dificuldades para entender limites e conviver no grupo.  A gente não deveria construir essa relação, deveríamos investir com equilíbrio, com maturidade no processo de construção do vínculo.

R. U.: Atualmente, nós convivemos muito com o preconceito ligado à adoção. Na sua opinião, como podemos lidar com esse preconceito, para que a adoção não tenha tantos estigmas? 

M. L. C.: As pessoas tendem a avaliar a adoção como algo não natural e não bom, apesar de ser possível vislumbrar na adoção um ato de humanidade e de grande respeito pelo ser humano. A sociedade de um modo geral se divide entre essas duas posições. 

O grande esforço que a sociedade deveria fazer é justamente lidar com esse estigma e verificar aquilo que se apresenta como sendo positivo nas experiências de adoção. Poderíamos começar com um trabalho de mostrar casos bem-sucedidos de adoção, o que normalmente não acontece. 

Se você olhar, por exemplo, as últimas novelas e filmes, o que da adoção foi veiculado? Que mensagem essas mídias fizeram chegar à população? De que a adoção é uma coisa boa?  

Recordo-me de um filme que há uns três anos foi veiculado: “A orfã”, que é de terror. É uma produção cinematográfica, mas produz um conteúdo para o imaginário da população. E é assim que se constrói cultura, vamos processando as informações, elaborando as nossas sínteses e socializando isso. 

Temos que filtrar mais as informações sobre adoção, fazer circular bons exemplos, demonstrar os números que comprovam esse fenômeno na população brasileira e mundial como tendo um potencial social magnífico para resolver problemas humanitários de abandono. 

R. U.: Por fim, como o senhor vê a adoção? 

M. L. C.: No meu livro tem uma epígrafe da Ana Freud, que eu gosto muito de citar. Ela diz que mesmo que você tenha tomado decisões erradas no começo de uma partida de xadrez, até que seja dado o xeque-mate, belas jogadas ainda podem ser feitas. 

Penso que essa epígrafe se apresenta como uma boa metáfora para a adoção. Ainda que a criança tenha sido vítima de um abuso, de violência doméstica, ainda que tenha sido institucionalizada, abandonada por sua família de origem, a adoção dá a ela a chance de construir uma história, uma vida. Portanto, assim como na partida de xadrez belas jogadas podem ser feitas, para essa criança uma bela vida pode ser vivida. 

A imagem apresenta uma foto de Anna Freud em preto e branco. A mulher é branca, de meia idade, tem cabelos lisos e pretos. Ao lado da foto de Anna, há a frase "Os primeiros anos da vida são como os primeiros lances de uma partida de xadrez: dão a orientação e o estilo de toda a partida, mas enquanto não vem o xeque-mate, ainda há belas jogadas a serem feitas".
Citação usada na tese “Adoção: vivencias de parentalidade de adultos adotados”, escrita pelo professor Mário Lázaro Camargo (Arte: Gilmara Melo/ Repórter Unesp)

Repórter: Anne Cristine Hernandes Santos
Produtora multimídia: Gilmara Melo
Editora: Milena Almeida

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