O que tem atrás da cerca das grandes propriedades no Brasil?

Quem já se aventurou pelas estradas do interior do Brasil, deve ter se deparado com uma cena comum: quilômetros e quilômetros de terra cercados por um mesmo padrão de cerca e um mesmo arame farpado.

A posse de terra é um dos debates mais antigos do país e o central quando falamos da vida e do trabalho no campo. Quem tem terra, tem poder. Quem não tem, cede às condições dos latifundiários ou se vê obrigado a procurar um novo lugar para viver e encontrar um sustento para si e para a sua família.

Não à toa, casos de exploração do trabalhador rural são frequentes. Hoje menos do que décadas atrás, é verdade, mas com o monopólio regional e com a pouca fiscalização estatal em áreas remotas, práticas degradantes ainda são uma realidade.

Com o avanço cada vez maior da tecnologia e a facilidade do acesso à maquinários, o espaço para esse trabalhador diminuiu ainda mais. Muitos migraram para centros urbanos. Outros, se adaptaram, qualificaram-se ou mudaram de função.

Já aqueles que possuem uma pequena porção de terra que lhes permite o sustento de suas famílias, resistem. Enquanto os grandes latifundiários, em sua maioria, dedicam-se à produção agrícola e pecuária voltada para a exportação, a agricultura familiar garante a comida do dia a dia do brasileiro.

Vale frisar que a visão de que a distribuição de terra é desigual não vem apenas da lógica de que “uns têm muito” e “outros têm nada”. Historicamente, o Brasil foi um país colonizado, logo, a terra foi tomada, de maneira usurpadora e arbitrária. Consequentemente, a distribuição dessa terra não foi feita de maneira justa ou legal.

É justamente sobre a perspectiva de resistência e auto-suficiência do agricultor familiar e da visão de terra como direito social que consegue garantir uma vida digna através do seu trabalho e seu pedaço de terra, que o MST vê a reforma agrária como a principal medida para um país mais justo e igualitário. A mim, ao analisar o panorama rural brasileiro, só me resta concordar com o movimento.

 Giovanna Castro, editora da Ilha 3, sobre trabalho no campo, da edição 56 do Repórter Unesp

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