Panela de Pressão completa 65 anos cheio de histórias para contar

Passado e presente do ginásio mais famoso de Bauru envolve vôlei, basquete, futebol e lembranças de torcedores

Quando se fala de esporte na cidade de Bauru, no coração do Estado de São Paulo, o ginásio Panela de Pressão é uma das principais referências no assunto. Antes de qualquer coisa, vale explicar a origem deste nome singular. Segundo o historiador João Francisco Lima, bailes de carnaval começaram a ser feitos no local, com multidões que chegavam a atrair aproximadamente dez mil pessoas. Por ficar muito apertado, os frequentadores do baile afirmavam que o lugar se parecia com uma “panela de pressão”, o que deu origem ao apelido pelo qual o local é conhecido até hoje.

Como tudo começou

A história oficial do Clube data de 1954, quando o Esporte Clube Noroeste disputava o primeiro campeonato de times profissionais do município. Com o sucesso que o clube obteve na competição, seus dirigentes decidiram investir em um centro específico para treinos esportivos. Assim, em junho de 1956, o Panela foi inaugurado oficialmente na Vila Pacífico.

Sobre a inauguração, o comerciante Raduan Trabulsi, jogador do primeiro time de basquete da cidade de Bauru, lembra que foram convocados os times Texas Cowboy e Lobby Trote, trazidos por Babi Barioni, idealizador dos Jogos Abertos do Interior, para iniciarem as competições esportivas do ginásio. Ele conta que foi escalado para jogar em um dos times e assim participou da inauguração do Panela.

Trabulsi relata que, a partir desse jogo, já foram montados times de Bauru e da região. “Foram formadas as equipes do Colégio Guedes, o Bauru Tênis Clube e o Paulista”. Assistente de esportes do Sesc nos primeiros anos de história do ginásio, Raduan narra que a equipe de basquete da cidade não tinha, em seus primórdios, filiação à Federação Nacional.

“O Sesc não podia ser filiado à federação, então, o esporte Clube Noroeste foi filiado e foi a primeira equipe de basquete campeã do interior do Estado. Darci César Improtta encampou o basquete em Bauru”.

Equipe do Sesc no Panela de Pressão em 1956. Tidei Lima, Caetano, Moretto, Robertão, Barbosa, Robinho, Francesi foram alguns dos primeiros jogadores de basquete de Bauru. Raduan (canto superior esquerdo) ajudou a treinar o time. (Foto: Arquivo pessoal/Raduan Trabulsi)

Com o passar dos anos, eventos importantes como os Jogos Regionais e a Liga Bauruense de Basquete aconteceram e ajudaram a consolidar a importância de Bauru na modalidade até os dias de hoje.

Raduan Trabulsi nos dias de hoje. Para ele, o Panela de Pressão é importante porque foi um lugar onde os times podiam recorrer para jogar basquete (Foto: Guilherme Hansen)

Algumas histórias com o ginásio

Em 1994, surge o tradicional Bauru Basket, que mobiliza torcedores até hoje. Um deles é Felipe Lopes. Ele conta que sua história com o clube começou no início dos anos 2000, durante o ensino médio, quando saía da escola e ia até o ginásio. “Eu saía da aula cinco e meia da tarde, comia alguma coisa no centro, pegava um ônibus até a Vila Falcão, pegava algum outro ônibus que parasse perto do Panela e assistia aos jogos, com uniforme da escola mesmo”, recorda.

Como não sabia dirigir e dependia de caronas, nem sempre Felipe conseguia ir ao ginásio, por isso recorria ao rádio para poder acompanhar aos jogos. Desde então, a paixão pelo time só aumentou. “Era apaixonante desde aquela época, aquela atmosfera e energia, de poder ir nas grandes finais com o ginásio superlotado. Tenho lembranças das partidas desde quando comecei a frequentar como também recordações de partidas mais recentes”, destaca. 

Uma de suas principais memórias é a reinauguração da quadra, que aconteceu em março de 2012.

Era um sonho muito antigo da torcida. Nós íamos sediar a Liga das Américas, mas a FIBA (Federação Internacional de Basquete) exigia um ginásio com capacidade mínima de duas mil pessoas. Quando a reestruturação do Panela foi concluída, eu fiquei muito emocionado. Foi a primeira edição da Liga das Américas em Bauru e o time do Bauru Basket estava em  um ótimo patamar.

Ginásio Panela de Pressão em sua última reforma, em 2012. (Foto: Arquivo pessoal/Felipe Lopes)

Outra torcedora é Marina Beppu. Fundadora da torcida organizada Gigantes do Vôlei, dedicada ao SESI Bauru, ela conta que uma de suas principais lembranças é da final da Superliga B, em 2015, quando o time foi para a série A. “Realmente é uma Panela de Pressão. Quando lota, é bem marcante”, opina.

Presente e futuro do Estádio

Apesar de ter muitas histórias para contar e ser um símbolo bauruense, o Panela de Pressão não passa por um de seus melhores momentos. O ginásio está em uma situação difícil, que envolve a Prefeitura Municipal e o Esporte Clube Noroeste.

Desde 2009 há um contrato de aluguel entre a prefeitura e o Noroeste, proprietário do Panela. O município pagava uma quantia de 29,6 mil reais para o Norusca, como é conhecido o time de futebol da cidade. No entanto, o acordo foi quebrado em fevereiro deste ano, sob a alegação de que o Noroeste não honra seus compromissos financeiros há algum tempo.

Para o secretário municipal de esportes, Alexandre Zwicker, a quebra do contrato foi motivada por razões jurídicas. “O Ministério Público vem nos notificando desde o ano passado que nós não poderíamos pagar o aluguel do ginásio para o Noroeste, pois eles possuem uma dívida trabalhista enorme. Para isso não ser tido como improbidade administrativa da prefeitura, o Ministério público determinou a rescisão do contrato”.

Em reunião realizada no dia 1º de março deste ano entre o clube e a prefeitura, ficou determinado que será feito um novo Refis para que o Noroeste consiga a renovação do contrato municipal com o Panela. Além disso, tanto o SESI quanto o Bauru Basket poderão usar as dependências do ginásio até o mês de maio para que os times não precisem se deslocar a outros municípios. Zwicker afirma, ainda, que o prazo de elaboração de um novo Refis depende da aprovação do departamento jurídico da prefeitura e da Câmara Municipal. A Secretaria de Departamento Jurídico foi contatada pelo Repórter Unesp, mas não quis dar entrevista.

Quanto à possibilidade do Bauru Basket e do SESI Bauru não poderem jogar no ginásio após os fins de seus respectivos campeonatos, o secretário diz que o risco não é tão grande quanto parece. “Ambos os times, por serem empresas privadas, podem acertar diretamente com o Noroeste o pagamento de um aluguel pelo Panela de Pressão, pois a prefeitura pagava a locação não só do ginásio, mas também de áreas como a do estacionamento e do campo de futebol. Se o aluguel for só da área do ginásio, o aluguel será bem menor que o que nós pagávamos”, salienta Alexandre.

Procurada pela equipe do Repórter Unesp, o Esporte Clube Noroeste não quis conceder entrevista. O clube afirmou, porém, que não vai se manifestar até o mês de maio, quando o acordo temporário entre a prefeitura e o clube estiver chegando ao fim. No entanto, a assessoria do time replicou a nota oficial que foi emitida à imprensa à época do acordo com a Prefeitura de Bauru, no início de março:

O Noroeste comunica que chegou a um acordo, nesta manhã de sexta-feira (1), no Ministério Público, com a Prefeitura de Bauru e as presidências de Bauru Basket e Sesi Vôlei Bauru. Foi acordado que o município fará um novo Refis, tornando o Norusca apto a ter o contrato do ginásio Panela de Pressão renovado. Desta forma, as duas modalidades sublocatárias e a Semel continuarão utilizando o ginásio e as parcelas do ginásio continuarão sendo destinadas para dívidas trabalhistas do Alvirrubro. Foi firmado também que o Bauru Basket e o Sesi Vôlei Bauru irão contribuir com o Noroeste para fazer os pagamentos do Refis. Os valores serão calculados novamente e divulgados pela Secretaria de Finanças.

Confira a seguir a entrevista que o Repórter Unesp realizou com José Maria Fernandes, o “Seo Zé”, que acompanha o Bauru Basket há mais de 20 anos:

Repórter: Guilherme Augusto Hansen

Produção multimídia: Valquíria de Carvalho

Editora: Ana Carolina Montoro

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