Novas regras expandem futebol feminino e aumentam investimentos na modalidade

Apesar dos patrocínios, as bases dos times continuam negligenciadas e ainda se apoiam nas equipes masculinas

Há 40 anos mulheres eram proibidas de jogar futebol. Hoje, o cenário do esporte na categoria feminina está em processo de estruturação e vem, aos poucos, superando a falta de infraestrutura dos times, a discrepância salarial e a ausência de incentivo às atletas.

O Campeonato Brasileiro 2019, organizado pela CBF (Confederação Brasileira de Futebol) e a Taça Libertadores da América da Conmebol, passaram a exigir que cada time inscrito nas competições tenha uma equipe feminina. Essa medida tem como objetivo colocar em prática as diretrizes presentes no Estatuto da FIFA.

No artigo 2 do documento, determinam-se que os propósitos da Federação são: “promover o jogo de futebol da maneira apropriada; promover relações amistosas entre associações nacionais, confederações, árbitros e jogadores organizando partidas de futebol de todos os níveis e apoiando o futebol por outros meios que julgar apropriado”.

Para o coordenador do time feminino de Bauru, Elton Carvalho, tal regra veio para suprir uma necessidade que deveria ser natural aos clubes. “Em termos de investimento, hoje não é um custo muito caro ter uma equipe feminina de alto rendimento no futebol profissional, é só questão de ajustes no clube”. Essa norma, segundo Elton, irá abrir o mercado para as jogadores e proporcionar bons resultados.

O futebol feminino no interior encontra nessa nova regra um futuro promissor e motivação para as atletas. Yúri Lima, auxiliar técnico do Selj Marília, time feminino com mais de 20 anos de história, mantido pela Secretaria Municipal de Esporte, Lazer e Juventude da prefeitura de Marília, conta sua visão sobre esta medida tomada pela CBF:

No Brasileirão, 65% dos times sujeitos à nova determinação ainda não tinham as próprias equipes ou parcerias com times femininos até o início deste ano. A recente norma exige dos clubes uma adaptação para que, a longo prazo,  as atletas tenham condições semelhantes de estrutura de treinos, academia, acompanhamento psicológico e, por fim, igualdade salarial.

No entanto, o preconceito dos torcedores em relação às mulheres que jogam futebol e a ausência de investimentos públicos e privados nos times continuam impedindo o crescimento da modalidade no país.

Para o preparador físico Yúri, há algumas diferenças entre jogadoras mulheres e homens pois, segundo ele, “trabalhar com mulheres é bem mais complexo, tem a questão menstrual, os treinamentos tem que se embasar nesse quesito, tem outros quesitos que diferenciam, como a ansiedade das mulheres, elas são um pouco mais complicadas de trabalhar em grupo, mas de resto é uma experiência ótima”, detalha.

A média de idade das jogadoras do time de Marília é de 22 anos. (Foto: Reprodução)
O futebol feminino em Bauru

Giovanna Fronteira joga no time feminino da prefeitura de Bauru há dois anos. A jovem de 18 anos encontrou na iniciativa da Semel (Secretaria de Esporte e Lazer) uma oportunidade para praticar futebol em um time formado apenas por garotas. Ela conta que desde criança gosta de jogar bola e até já frequentou uma escolinha de futebol, mas nestes treinos tinha que jogar com os meninos, o que era muito desconfortável.

O time bauruense, comandado pelos educadores físicos Elton Carvalho e Everton Alemão, compete nas Copas SBT e Record, além de campeonatos promovidos por outras prefeituras do Estado. “Desde o início do projeto, em 2016, as categorias sub 15 e sub 18 tiveram bom desempenho e conquistaram títulos em todos os campeonatos que jogaram”, diz o coordenador da equipe, Elton.

A equipe, que treina tanto futsal quando futebol de campo, usa as instalações da FIB (Faculdade Integrada de Bauru) para se preparar para as competições. Além do ginásio e campo, a FIB oferece acompanhamento de uma fisioterapeuta para as jogadoras.

Tanto para Giovanna, quanto para a torcedora do Santos, Ana Kubata, o caminho para conquistar a adesão da torcida nos jogos é a divulgação. Investir em marketing, em transmissões ao vivo e em publicidade dos clubes femininos é um método efetivo para que meninas que gostem de jogar futebol encontrem times para treinar, além de contribuir para a valorização das atletas profissionais.

A torcedora do peixe conta como está sendo feita a comunicação do time feminino do Santos, o Sereias da Vila. “O Santos tem feito um trabalho muito legal nas redes sociais divulgando o time feminino, noticiando, fazendo coberturas e chamando a torcida para ir aos jogos, e realmente o público aumentou de 2018 pra cá. Mas ainda há uma diferença gritante na quantidade de torcida que comparece aos jogos masculinos e aos femininos”.

Uma das razões para que haja essa diferença de público são os horários dos jogos. Enquanto os times masculinos ocupam dias e períodos em que a maioria da torcida não trabalha, as equipes femininas jogam, normalmente, durante a semana e em horários comerciais, o que dificulta a presença da torcida nos estádios.

Stela Christina, jogadora do time feminino de Bauru. (Foto: Amanda Melo)
Copa do Mundo 2019

De 07 de junho a 07 de julho acontece a Copa do Mundo de futebol feminino.  O torneio, este ano sediado na França, contará com 24 equipes dos cinco continentes. A seleção brasileira, de Marta, Formiga e Cristiane, participou de todas as edições, no entanto, nunca levantou a taça e está indo para França com um histórico de oito derrotas consecutivas nos últimos jogos.

Comandadas pelo técnico Vadão desde 2017, o time tem como diferencial a melhor jogadora do mundo, Marta, que foi eleita pela FIFA seis vezes a estrela máxima do futebol. Nenhuma outra jogadora ou jogador carrega tamanho número de premiações. Marta também sustenta outro recorde em sua carreira, a jogadora já superou Pelé em número de gols em Copas do Mundo. Hoje, está empatada com Ronaldo Fenômeno com 15 gols. O artilheiro das Copas é o jogador alemão Miroslav Klose, que está aposentado, ou seja, ainda neste ano a atleta brasileira pode superá-lo.

O elenco brasileiro conta com a única atleta da história que participou de todas as Copas do Mundo, a camisa 8, Formiga, que completa 41 anos e oito Copas em 2019. Além das premiações individuais, a seleção vai para a França levando as taças de sete edições da Copa América, três Jogos Pan-Americanos e, também, três Jogos Mundiais Militares.

Marta, Cristiane e Formiga comemorando gol sobre a Coreia do Sul no Mundial 2018.
(Foto: Reprodução)

Pela primeira vez a Rede Globo vai transmitir todos os jogos da seleção feminina na Copa do Mundo. Até a última edição do torneio apenas as emissoras abertas TV Bandeirantes e TV Brasil fizeram a transmissão de alguns jogos.

Ana Kubata, torcedora do Santos, time pelo qual Marta conquistou, em 2010, uma Libertadores e a Copa do Brasil, vê a transmissão da Copa de 2019 como um feito importante. “Estamos em uma fase de luta feminista em que é muito importante enaltecer e apoiar os times femininos. Acredito que a visibilidade vai ser grande também, é um acontecimento que muita gente está tendo conhecimento. Claro, sabemos que não vai chegar ao patamar de torcida que o time masculino teve na copa, mas acho que vai ser o ano com maior visibilidade para a seleção feminina”, destaca.

Treinos em Bauru

Os treinos do time de futsal feminino da Prefeitura de Bauru acontecem às segundas e quintas-feiras, às 20h30min, na quadra da FIB, localizada na Rua José Santiago, na Vila Ipiranga.

Os treinos de futebol de campo são às quartas e sextas-feiras, também às 20h30min, no mesmo local. A participação é gratuita e para meninas a partir de 13 anos.

Repórter: Giovana Moraes

Produção Multimídia:  Amanda Melo

Edição: Daiane Tadeu

 

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