Nas raízes do esporte: o desafio de enfrentar a homofobia

Capa da revista francesa L’Équipe do mês de maio. (Crédito: Reprodução)

OPINIÃO. A consagrada revista esportiva francesa L’Équipe lançou, neste mês de maio, uma edição especial sobre homofobia no mundo do esporte. A capa foi ilustrada pelo beijo de dois atletas de polo aquático.

A foto dos homens se beijando faz parte do filme ‘Les Crevettes Pailletées’, que conta a história de um vice-campeão mundial de natação, que após fazer declarações homofóbicas, é condenado a treinar um time de pólo aquático gay. O longa-metragem será lançado no dia 8 de maio.

Na reportagem, a revista listou alguns dos poucos e corajosos atletas que se assumiram LGBT’s ao redor do mundo. Entre eles, o jogador de vôlei brasileiro Michael dos Santos, que protagonizou um caso de homofobia durante a semifinal da Superliga de vôlei no ano de 2011.

As repercussões negativas da matéria demonstraram a grande dificuldade em se debater a sexualidade nos meios esportivos. Um exemplo disso foi a recusa de um jornaleiro parisiense em expor a publicação, ato que gerou uma resposta da prefeita de Paris, Anne Hidalgo. Considerando a atitude inaceitável, ela tuitou: “todos os meios serão  implementados para reverter ações e comentários preconceituosos (envolvendo o caso)”.

Ao citar o atleta Michael dos Santos, a L’Équipe destacou o alarmante dado: o Brasil é um dos países que mais mata LGBTs no mundo.  Segundo o Relatório de 2018 do Grupo Gay da Bahia, o país registrou 420 mortes de pessoas lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e travestis no Brasil naquele ano. Isso significa que, a cada 20 horas, uma pessoa LGBT foi morta ou se matou em 2018.

Além do caso de Michael, outros atletas brasileiros já foram alvos de ataques homofóbicos e escancararam a intolerância no esporte. Aos 36 anos, o jogador de futebol Richarlyson, atual meia do Esporte Clube Noroeste,  lidou com o preconceito e o assédio ao longo de toda a sua carreira.

Ofendido pelo diretor de outro clube, vaiado e rechaçado inúmeras vezes pelas torcidas, Richarlyson foi constantemente apontado como “viado” e, mesmo afirmando inúmeras vezes ser heterosexual, teve sua carreira prejudicada.

Talvez o ápice de discriminação e perseguição vivenciada pelo atleta tenha sido em 2017, quando foi apresentado ao Guarani para disputar a Série B debaixo de protestos e até bombas atiradas pela torcida campineira.

Um comportamento assustador, porém contundente às lamentáveis práticas dos brasileiros nos estádios, em que é comum ouvirmos o grito de “bicha” direcionado ao goleiro adversário durante a cobrança de um tiro de meta.  O hábito é uma adaptação da prática mexicana de entoar o grito de “puto”, já com conotação homofóbica, em vários lances dos jogos.

Consideradas como meras brincadeiras e provocações características do ambiente viril e competitivo dos esportes, as ofensas, o assédio e a perseguição contra LGBT’s são naturalizadas e tratadas como parte da “raiz” do meio. Consequentemente, torcedores que se posicionam contra isso sofrem graves represálias.

Um caso bastante emblemático ocorreu no ano passado, em que um torcedor palmeirense se posicionou contra um grito homofóbico de sua própria torcida no Twitter e teve sua vida ameaçada. Demonstrando a indiferença das equipes esportivas à questão, o Palmeiras não se pronunciou e tentou esconder o fato. Já em 2013, no caso do selinho de Emerson Sheik, um dirigente do clube paulista afirmou que “o Corinthians não se mete nisso não”.

Ao levarmos todo esse contexto em conta, excluindo algumas raras exceções de respostas das equipes, constatamos uma omissão quase generalizada da classe esportiva no combate à homofobia. Nas confederações, diretorias e comissões técnicas das equipes, por parte da torcida e da maioria dos atletas.

Sim, é necessário considerarmos que o preconceito contra homossexuais é um problema social amplo que atinge estruturalmente todas as esferas da sociedade brasileira. Sendo inclusive reforçado por figuras de máxima autoridade no país, como o presidente Jair Bolsonaro.

No entanto, muito mais precisa ser feito. É impensável que o esporte, uma das mais eficazes e abrangentes vias de inclusão social, tenha a diversidade como exceção à regra, sendo, inclusive, perseguida e condenável. É, também, condição limitante e excludente para incontáveis atletas.

O esporte moderno não deve negar totalmente suas raízes, mas precisa ter a capacidade de se reinventar, adequando-se à realidade atual. Lutando contra sua tradição machista, coibindo os preconceitos de gênero e de sexualidade.

Texto: Daiane Tadeu

Editora: Gabriela Arruda

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