Jornalistas formados na Unesp se destacam no mercado de trabalho

Em seu aniversário, o curso de Jornalismo na Unesp é relembrado por ex-alunos que contam como a faculdade os ajudou em sua formação

Em 2019, o curso de Jornalismo da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp) completará seus 35 anos de existência. O curso foi classificado como 4 de 5 estrelas no Guia do Estudante e possibilitou muitos de seus formandos adquirirem uma posição de excelência no mercado de trabalho.

Localizado no campus de Bauru, a faculdade já foi responsável por formar 2300 jornalistas, de acordo com o site oficial da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (FAAC). Com duração mínima de quatro anos, os alunos têm matérias tanto práticas quanto teóricas nas diversas áreas que abrangem o jornalismo.

Elaine Trevisan, ex-aluna do curso na Unesp, conta que antes de iniciar a faculdade ela enxergava o jornalismo de uma forma diferente e mais “romantizada”, quebrando algumas expectativas: “Somos colocados em um ambiente profissional competitivo, que nos cobra responsabilidade na informação, agilidade e principalmente vontade de fazer o certo”.

“Quebramos aquela imagem do jornalista dos livros, das crônicas, e, dependendo da editoria que nos especializamos, encaramos o preconceito, aqueles olhares tortos e a cobrança de ter que mostrar que realmente está preparado”, ela afirma.

Hoje, Elaine é repórter esportiva no Jornal da Vida da Rede Vida. Ela é repórter de campo, comentarista e narradora das transmissões ao vivo de jogos de futebol. Além do esporte, ela conta que também tem como paixões a política e o cinema. Sua vontade de falar sobre esta foi decisiva em sua escolha de curso, optando pelo jornalismo, e descobrindo uma nova paixão.

Elaine Trevisan realizando sua função de repórter esportiva em um jogo de futebol (Créditos: Arquivo Pessoal/WhatsApp)

Já Gabriela Lima, outra ex-estudante do curso de Jornalismo da Unesp, afirma que sabia que desde criança seguiria essa carreira, pois gosta de falar e se expressar e imitava jornalistas quando era mais nova. Amante da carreira televisiva, ela sempre quis trabalhar com isso. “A universidade serviu para balancear minhas expectativas e pra mostrar uma visão mais realista sobre a profissão”, ela afirma.

Entretanto, mesmo com essa vontade, Gabriela acabou se encontrando também em outra área. Durante sua graduação e até terminar e emendar o seu mestrado, ela trabalhou na rádio AuriVerde de Bauru. Quando a rádio fechou, ela encontrou sua vaga em que trabalha até hoje no portal jurídico Migalhas, especializado, em suas palavras, em “direito, opinião e um pouco de economia”.

Mesmo não sendo o que queria anteriormente, ela afirma estar muito feliz e é a área que ela ama: “Eu nunca imaginei trabalhar com isso e na verdade eu nem sabia que essa área existia. A universidade mostra esses caminhos alternativos, a gente entra nela só pensando em jornalismo radiofônico, televisivo, impresso e na internet, e as possibilidades são as mais variadas”.

Fazer valer a pena

Gabriela afirmou que não teve pressa em se formar, pois queria terminar a graduação apenas após conseguir concluir tudo o que queria na universidade. Ela fez uma iniciação científica pela FAPESP, trabalhou em uma emissora de rádio e fez também um intercâmbio com bolsa, completando todas essas atividades antes de se formar.

“O erro do jovem é querer sair da faculdade e ir direto pro mercado de trabalho sem antes aproveitar todas as oportunidades que a universidade tem a oferecer”, ela afirma.

Gabriela Lima sempre amou a televisão, mas hoje trabalha no portal online chamado Migalhas (Créditos: Arquivo Pessoal/WhatsApp)

A presença dos projetos de extensão também foi apontada como o diferencial na Unesp por Wagner Alves. Formado há quatro anos, hoje ele trabalha no CanalTech, site em que faz reportagens, notas e análises de softwares e produtos.

Ele participou da Rádio Unesp em sua graduação e conta que foi no projeto em que ele aprendeu o que era podcast. Também foi bolsista e conta que em seu segundo ano de faculdade, ele se juntou com amigos para criar uma empresa chamada Player 2, voltada para jornalismo de video games.

“Fazíamos podcasts, vídeos e isso me deu muita experiência. Os projetos de extensão da Unesp abriram a oportunidade para que eu tivesse portfólio. Assim, você vai mais caprichado pro mercado de trabalho e pode mostrar o que já fez e qual é sua especialidade”, ele afirma.

Antes de ingressar em Jornalismo, Wagner cursava seu primeiro ano de medicina na UFSCAR. Ele conta que quando estava esperando o resultado do vestibular, trabalhou em um jornal de sua família em Poços de Caldas, Minas Gerais, e essa aproximação o fez se apaixonar pela profissão.

Durante esse emprego, Wagner realizou uma matéria sobre uma escola que não tinha teto no refeitório, então muitas pombas paravam na estrutura e defecavam no local enquanto as crianças se alimentavam. “Eu lembro que fiz a matéria, deu um barulho na cidade e mais ou menos um mês depois a prefeitura colocou o telhado. Isso é muito gratificante”, Wagner confessa.

Wagner Alves, ex-aluno de Jornalismo da Unesp, trabalha hoje no site CanalTech (Créditos: Arquivo Pessoal/Instagram).

A luta pelo lugar no mercado

Tendo uma experiência profissional anterior, Wagner conta que a faculdade o surpreendeu porque ele aprendeu que é muito importante ter repertório. “Um exemplo foi quando eu estava participando de um debate sobre se o videogame era arte ou não. E uma das pessoas dizia que não deveríamos dizer isso porque nem a arte em si sabe o que é arte, baseado nos pensamentos de Duchamp”.

“Se eu não tivesse estudado isso, eu não conseguiria entrar nesse debate. Outro exemplo é que eu trabalho muito com podcast e um dia eu questionei o porquê não trazíamos outros gêneros de rádio, como o boletim, entrevista e o stand up. As pessoas não conheciam o que eu estava dizendo”, ele relata.

Mesmo com visões de vida e experiências diferentes na graduação, os ex-estudantes de Jornalismo entraram em consenso quanto ao caráter do curso: ele é voltado para a academia. De acordo com eles, isso acarreta uma excelente base teórica, mas que em relação à prática voltada ao mercado de trabalho, as primeiras experiências profissionais dos formandos pode ser dificultada.

Wagner acredita que o teórico passado aos alunos na Unesp é o diferencial da faculdade. Ainda assim, também concorda com algumas falhas: “Lembro que fui trabalhar com assessoria de imprensa e minha chefe me pediu para fazer um follow. Eu não sabia o que era e fiquei com vergonha de perguntar”.

Ainda assim, ele não desistiu: “Conversei então com um colega de trabalho, que me explicou que follow era ligar para um jornalista para ver se ele recebeu o seu e-mail. Isso o curso não te ensina”. 

Jaqueline Pereira, também ex-aluna de Jornalismo, defende que a universidade deve investir mais na prática voltada ao mercado de trabalho. “O referencial teórico que a Unesp oferece aos alunos é espetacular, mas eu acho que também precisa ter aquele esforço da prática”, ela afirma.

Após se formar em 2013, Jaqueline teve o seu primeiro emprego na Record TV Paulista, onde trabalha até hoje como coordenadora. Ela também fez mestrado em Mídia e Tecnologia na Unesp e diz estar prestando concursos para tentar a área acadêmica.

Os dois lados da moeda

Enquanto fazia a graduação, Jaqueline conta que teve uma rotina puxada. Como seus pais não tinham condições de bancar uma universidade privada, ela decidiu optar pelo Jornalismo na Unesp e percorria 85 km todos os dias para ir de sua cidade, Dois Córregos, até Bauru. Durante o dia ela trabalhava na prefeitura para pagar o ônibus, e à noite, ela fazia o curso.

Ela afirma que por viajar todos os dias, ela não pôde aproveitar da “experiência completa” da universidade pública, e assim como Wagner, também trabalhou fazendo freelas para o jornal de sua cidade, conseguindo montar um portfólio. “O estágio que hoje é obrigatório no curso pela Unesp é importante para que os estudantes entendam como as coisas funcionam fora da sala de aula”, ela opina.

Após se formar, Jaqueline Pereira conseguiu um trabalho na Record TV Paulista onde trabalha até hoje (Créditos: Repórter Unesp)

Mesmo munidos de críticas, os ex-alunos ainda acreditam fortemente na universidade. Eles afirmam que apenas a graduação em si não é o suficiente, sendo preciso ter independência e correr atrás de maneiras para complementar o aprendizado e se destacar no mercado de trabalho.

“Tudo depende muito da nossa dedicação e esforço para conseguirmos alcançar nossos objetivos”, diz Jaqueline. Ela acredita que é preciso que os profissionais do mercado de trabalho realmente gostem daquilo que fazem.

Gabriela tem uma visão otimista e defende a faculdade: “A universidade pública te dá uma criticidade, um aparato de material que ela te oferece, de professores que são doutores e que entendem a conjuntura atual que a gente vive no Brasil”.

“A técnica você vai encontrar no mercado de trabalho a rodo, mas o jornalista que fala com propriedade sobre o assunto, isso faz diferença em qualquer meio profissional. Eu defendo a universidade pública porque ela vai além da técnica profissional”, considera.

Texto: Julia Cortezia

Produção Multimídia: Patrick Souza

Editor: Guilherme Hansen

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