Entre medos e sonhos uma longa trajetória

É comum que boa parte do nosso tempo passemos nos adequando às necessidades do dia-a-dia: a burocracia, a moral, o trabalho. Eventualmente,  dá até para sentir parte dos grandes sonhos se esvaindo pelo caminho. Mas no meio deste complexo emaranhado de frustrações e sonhos intransferíveis, muitas pessoas já levaram a cabo a busca de suas vontades.

Esse é o caso de Mário Benedito, 30, que veio de bicicleta do interior do Sergipe até a capital de São Paulo. Quando saiu da cidade de Nossa Senhora das Dores, Mário tinha como sonho conhecer uma figura bem famosa e antiga dos meios de comunicação brasileiro: o Silvio Santos.

A longa jornada de bike

O empresário e apresentador é um dos grandes nomes da televisão no país. Dono do SBT, seria uma tarefa quase impossível encontrar um brasileiro que não tenha em sua memória esta figura. Tarefa mais difícil ainda seria se deparar com alguém que enfrentou mais de 2 mil quilômetros só para conhecê-lo.

Mas Mário não agiu por impulso, a ideia de ir veio um ano antes da partida. “O momento de decisão mesmo, que marcou, foi na sexta-feira. Eu ia sair no domingo de Sergipe, de bike. Aí na sexta eu fui falar com o meu irmão, para alguém da família saber da viagem”, explica. O irmão dele, contudo, teve uma resposta diferente da que havia imaginado. Na época com 14 anos, o garoto decidiu ir junto. “Ele veio comigo até a metade do caminho, e depois retornou porque minha família descobriu”, conta.

Além do homem do baú

Mário tinha 19 anos e diz que as dificuldades tornaram impossível não contar a situação aos pais. Ele lembra que “eles descobriram por que meu irmão não estava aguentando a viagem, e ele estava em fase de desenvolvimento. A gente passou fome, essas coisas, ele começou a ficar fraco e pediu que eu avisasse a família”.

Como era de se esperar, o caminho para este sonho, que podemos literalmente chamar de longo – Mário demorou 23 dias para chegar – teve muitas dificuldades, e metade delas foram em plena solidão. Durante o trajeto, dormiu na beira da estrada ou nas cidades onde ia parando e pedindo comida. Ao chegar em São Paulo, o sergipano encarou novamente a falta de moradia e comida. Mas, antes de tudo, foi direto para a portaria do SBT, na véspera de Natal.

Silvio Santos tinha viajado aos Estados Unidos e Benedito seguiu em São Paulo, esperando por 3 meses que o apresentador voltasse. Nesse tempo dormiu na rua até encontrar a ajuda de um policial. O então garoto de 19 anos foi perguntar ao militar qual era o caminho para o centro, e a conversa foi se estendendo. O policial, depois de achar que estava sendo zombado, acabou ajudando o jovem: ofereceu roupa, abrigo e comida nos dias que se seguiram. Usando dos contatos que tinha, o agente da lei acionou os serviços de imprensa, que levaram a história para os canais de televisão e jornais da cidade.

Até que no dia 27 de março de 2009, dia do aniversário de sua mãe, Mário encontrou Silvio Santos no famoso salão do Jássa, um cabeleireiro que tem entre seus clientes muitas personalidades famosas. O encontro só se tornou possível pois um dos seguranças de Silvio acompanhou a trajetória do sergipano pelos meios de comunicação, e permitiu sua entrada.  Daí pra frente, Mário conseguiu um emprego no SBT, onde está até hoje, ganhou a simpatia do apresentador e foi capaz de ver um lado pouco conhecido dele.

“Eu conheci o Silvio Santos enquanto meu herói, eu conheci Silvio Santos enquanto artista e eu conheci Silvio Santos enquanto empresário. E são pessoas distintas”, conta.

Planejamento a longo prazo

Apesar de impressionante, a história de Mário não é nem de perto uma regra. Algumas pessoas, como a pedagoga Elza Ramello, buscam sonhos mais palpáveis. A aposentada tinha, desde pequena, o sonho de conhecer outras culturas, lugares e pessoas.

Mas para viajar é necessário dinheiro, então a alternativa foi focar no custo/benefício. “Sempre tive muito apoio da família, mas não financeiro, pela condição de meus pais. Exatamente por isso,  eu sempre fazia um planejamento visando não perder de vista o sonho de viajar”, explica.

As viagens de Elza sempre dependeram de um planejamento, pelo qual ela conseguiu visitar de Norte a Sul do país. E as experiências e conquistas pessoais sempre foram compartilhadas: a música, a arte, o artesanato e as línguas.”Faço questão de sempre trazer um pouco dessa cultura para a família e amigos através de fotos, vivencias, vídeos e músicas”, elenca.

Ao apresentar conselhos para quem busca atingir seus sonhos, Elza não se arrisca e termina com uma frase de Paulo Freire: “não há amanhã sem projeto, sem sonhos, sem utopia, sem esperança, sem o trabalho de criação e desenvolvimento de possibilidades que viabilizem a sua concretização”.

 

Texto: Angelo Matilha Cherubini

Produção multimídia: Geovana Alves

Edição: Júlio César 

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