Como anda a mobilidade urbana em Bauru

Bauru possui um população 370 mil pessoas, de acordo com a estimativa do IBGE.  A cidade é a maior do centro-oeste paulista e é sede de uma região administrativa do estado. Mas, será que a infraestrutura para a mobilidade urbana corresponde à cidade? Entenda os problemas enfrentados por quem se locomove pela cidade e quais os planos da prefeitura para melhorar a qualidade da mobilidade urbana.

“Quando chove, alaga”

A administração pública de Bauru recebe pontuais reclamações. Um deles, o mais famoso e que envolve a mobilidade, é referente à vazão da água da chuva. A Avenida Nações Unidas é notícia certa quando há uma chuva mais forte na cidade. “O problema da Nações é uma falha de drenagem e a solução ali seria a construção de piscinões”, afirma Letícia Kirchner, secretária de planejamento de Bauru.

Mas falar de uma obra dessa amplitude vai além do poder municipal, visto que a verba para o reparo é muito alta. “Tem um orçamento de 200 milhões de reais, não é uma obra simples”, como afirma Letícia. No ano passado, a receita orçamentária de Bauru – o dinheiro disponível para as despesas do município – foi de 1,2 bilhão. Desses, 1,1 bilhão foram destinados aos gastos fixos da cidade. Além disso, há investimento federal na área de tratamento de esgoto e de asfalto.

Com isso, o problema das Nações parece não ter estimativa de solução. Uma ajuda a curto prazo seria o aumento da área onde a água possa infiltrar o solo. No entanto, em uma avenida com asfalto por toda a extensão dificulta o processo de escoamento.

E o transporte público, como anda?

Com reivindicações diversas, os moradores de Bauru reclamam dos horários dos ônibus, das condições dos veículos, da disposição dos pontos no centro da cidade, entre outros pontos. Ouça abaixo quais são as reivindicações dos moradores do município. 

Sobre o problema das plataformas para pessoas com deficiência, a Emdurb diz que a manutenção “é feita e todas são testadas antes que o carro saia da garagem, mas devido a vários fatores, como as condições das vias, o funcionamento da plataforma pode ser afetado ao longo do dia”. Mas que se uma plataforma apresentar problemas, o carro é substituído. A Emdurb reitera que qualquer problema que o usuário tiver no transporte é só entrar em contato por meio do telefone 3233-9062 ou pelo e-mail emdurb@emdurb.com.br

Mobilidade urbana em Bauru

A respeito do problema nos horários de linhas noturnas para quem trabalha ou estuda e precisa dos ônibus até mais tarde, a Emdurb afirma que “no caso de estudantes, temos poucos problemas, pois os últimos horários atendem as universidades e escolas. Apenas recebemos um pedido da UNESP, feito recentemente, ao qual estamos avaliando, de adiar esses últimos horários devido a saída dos alunos. Quanto aos trabalhadores, qualquer solicitação que recebemos, tentamos adaptar o horário da linha”.
Desse modo, entre em contato com a Emdurb, por meio dos canais de atendimento, para que seus problemas sejam analisados pela empresa e possam chegar a uma resolução.

Andar a pé é “lenha”

Os bauruenses têm optado pelo transporte motorizado, por questões de segurança e da própria mobilidade. A secretária de planejamento Letícia Kirchner, conta que a solução é criar um fundo exclusivo para a construção de calçadas. A lei que propõe mudanças na constituição municipal foi encaminhada pela Prefeitura de Bauru para a Câmara Municipal em agosto e contempla, além de uma nova norma para a construção de calçadas, a mudança na forma como as multas são cobradas de quem tem uma calçada irregular.

Nesse sentido, o munícipe prestaria contas com a prefeitura a respeito da irregularidade que lhe fosse autuada e o valor arrecadado seria revertido para a construção de calçadas. “Esse dinheiro vai ficar exclusivo para a mesma finalidade. E esse recurso pode ser utilizado para a construção de calçadas públicas, de calçadas em locais de interesse social, aonde a população tem dificuldade para conseguir pagar”, conta a secretária. A nova lei ainda não entrou em vigor e a anterior, aprovada em 2009, não permite tais mudanças.

Menos carros e mais bicicletas

A prefeitura, através da Secretaria de Planejamento (SEPLAN), também tem um projeto voltado para o uso de bicicletas. Trata-se da construção de ciclovias que interliguem a cidade em diversos eixos e deem aos bauruenses a opção da bicicleta, não apenas como lazer, mas como meio de transporte.

O projeto foi pensado para uma implantação gradual de ciclovias, mas o intuito inicial é utilizar ciclovias já existentes e promover a ligação entre estas, como as ciclovias na Nações Norte e na Avenida Edmundo Carrijo Coube. “Imagina se a gente conseguir interligar esse eixo norte-sul”, comenta Letícia. A Nações Unidas é a principal avenida de Bauru e, em uma boa parte do percurso, tem uma boa nivelação. “Nesse caso, a gente queria tentar levar a ciclovia e não a ciclofaixa, trabalhar no canteiro central da Nações. A gente têm certeza que vai ter utilização”.

Há também a intenção de se fazer ciclofaixas com sinalização e infraestrutura adequadas. Um dos locais selecionados é a Avenida Nuno de Assis. “Nós vamos fazer agora a pavimentação (…) e a intenção é que a gente consiga fazer uma ciclofaixa ali bem melhor do que a primeira que foi feita. Inclusive, a intenção é já fazer a reforma do todo, onde ela vai ser um pouco alargada para um metro e meio e vão ser colocados tachões (…) A intenção é, desde a Nuno, a gente chegar na [avenida] Comendador José da Silva Martha”, comenta a secretária de planejamento.

Além disso, Letícia conta sobre um outro projeto “que são os parques lineares, que nós estamos tentando começar, de fato. Um deles é o Córrego Barreirinho, que é uma área que se inicia no final da Nuno de Assis (…) e pega um monte de bairros. Dos dois lados a gente têm Jardim Silvestre, Jardim Flórida, pega o Mary Dota, então é uma área do córrego, onde a intenção era fazer um parque linear e implantar a ciclovia ali”. 

Letícia comenta que Bauru “vem de um histórico de ciclovias que, ou não foram feitas, ou elas foram feitas, mas apresentam algum problema, porque ao mesmo tempo que ela é uma ciclovia ela é um estacionamento”, com isso, a intenção é “começar um processo de construção de ciclovias constante, como nós fizemos com as rampas de acessibilidade. Desde o ano passado a secretaria de obras pegou uma equipe, é uma equipe pequena, mas ela só faz isso, e a cada dia ela faz uma rampa e com isso as coisas estão surgindo, o problema é a gente ficar parado, a gente precisa estar sempre andando”.

Situação da cidade

Em Bauru, a primeira reunião do Núcleo Gestor que analisou o plano de diretrizes para modificar e melhorar a mobilidade, tanto urbana quanto rural, foi feita em 2011. A função do Núcleo Gestor era funcionar como agente de fiscalização e orientação das ações do Plano Diretor de Transporte e da Mobilidade. Entretanto, em 2015 o Plano ficou estacionado e só foi retomado em 2017 no qual o prefeito da época, Clodoaldo Gazzetta, definiu por um Decreto um outro grupo que pudesse retomar os estudos e elaborações do Plano.

Em Maio deste ano, aconteceu a 2ª Conferência Municipal de Mobilidade de Bauru e foi organizada pelo Conselho Municipal de Mobilidade (CMM) em parceria com a Prefeitura Municipal, a Secretaria do Planejamento (Seplan) e a Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural (Emdurb). O tema foi “Mobilidade Urbana para o Desenvolvimento Sustentável” e o objetivo era complementar o Plano de Mobilidade com a participação e opinião da população.

Nessa Conferência, quatro prioridades ficaram decididas: mobilidade ativa, transporte urbano coletivo, sistema viário e educação para o trânsito e meio-ambiente. A mobilidade ativa diz respeito ao ato de ir de um lugar para o outro, seja a pé ou de bicicleta. As ações envolvem a manutenção das calçadas, nova definição de tempo nos semáforos para que os pedestres possam atravessar com calma, a expansão das ciclovias, entre outros. Em relação ao transporte urbano coletivo, entre as melhorias está remodelagem do sistema de paradas e o melhor atendimento à pessoa idosa.

O sistema viário, por sua vez, envolve medidas como pavimentação das vias, alteração da velocidade do tráfego e urbanização de vias de acesso. No quesito das ações educativas, as medidas incluem conscientização sobre segurança no trânsito e a importância do plantio de árvores. No caso da segurança, a responsabilidade de promover políticas que possibilitem que tais ações sejam colocadas em prática é dos gestores públicos. 

Plano ideal

Atualmente, o Plano de Mobilidade Urbana em Bauru está em fase de revisão, na última etapa do processo. Ele pode pode interferir na dinâmica da cidade de diversas maneiras, entre elas pelo incentivo do uso da bicicleta, o favorecimento da circulação a pé em calçadas melhores, entre outros.

Mobilidade urbana em Bauru

De acordo com o doutor em Planejamento Urbano e Regional, José Xaides, o plano de mobilidade também influencia na arquitetura da cidade. “Se houver um plano com criação de novas centralidades geradoras de emprego pode-se planejar melhor estas zonas de uso para que elas sejam mais adensadas”, afirma José.

Segundo o especialista, os centros urbanos também podem abrigar moradia popular, desde que tenha preservação do patrimônio histórico, evitando que essas moradias fiquem em áreas periféricas e as cidades sejam mais compactas, ao invés de expandi-las para especuladores imobiliários.

José Xaides afirma que plano de mobilidade também tem impacto durante a captação de recursos do Governo Federal. A verba é fornecida quando são apresentados planos e projetos detalhados que foram aprovados com a participação popular. Caso não seja feito dessa maneira, pode gerar Improbidade Administrativa aos gestores públicos.

Para que existe o Plano?

O Plano de Mobilidade Urbana possui inúmeros objetivos. Segundo o especialista, entre eles está distâncias e tempos de deslocamentos menores, alternativas de modais de transporte mais saudáveis, integração de bairros vizinhos, entre outros. “O Plano de Mobilidade deveria ser um meio e não um fim em si mesmo (..) caso contrário, se torna apenas meio de racionalizar e ampliar o lucro das empresas de transporte urbano, ou seja, mais um instrumento de especulação urbana da população”.

Fatores históricos

A maioria das cidades enfrenta algum problema no quesito mobilidade urbana e segundo José, a origem pode ter relação com alguns fatores como o não cumprimento de normas por parte dos gestores públicos. “Também o fato de que o poder público e seus gestores têm sido omissos e cúmplices com os especuladores urbanos, e assim ao invés da criação de planos focados na qualidade de vida das pessoas (saudáveis) pautam os planos a partir do interesse dos donos de terras, construtoras e outros especuladores” afirma José.

Repórteres: Mariane Borges e Nathália Sousa

Produção Multimídia: Julia Mendonça

Edição: Danilo Mendes

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