O aeroporto que não decolou

Juntos, a cidade de Bauru, a Secretaria de Desenvolvimento Econômico e os exportadores da região querem tornar o Aeroporto Moussa Tobias num centro logístico do centro do estado de São Paulo

Filas para check-in e outras para embarque e desembarque. Aglomeração de pessoas, grande fluxo de táxis, carros e ônibus. A busca por uma tomada e um lugar para sentar, um cafezinho e um pão de queijo com preços inflacionados. Essas e outras coisas são parte da rotina de um aeroporto.

No entanto, para quem vai até o aeroporto de Bauru, na maior parte do dia, se depara com uma grande construção praticamente vazia. O local opera com apenas duas companhias aéreas e possui poucos vôos diários.

Filas de check in vazias no aeroporto moussa tobias.
Filas de Check-in vazias

Criado em 2006, recebeu o nome de Moussa Nakhal Tobias – sendo uma homenagem a um empresário local de origem libanesa. Por conta da localização estratégica de Bauru, ocupando um território exatamente no meio do estado de São Paulo, esperava-se que o aeroporto se tornasse um grande entroncamento para a região. Mas não é o que ocorre. Doze anos se passaram e desde sua inauguração, as administrações da prefeitura não traçaram planos de ação para esse desenvolvimento.

O atual prefeito, Clodoaldo Gazetta, cita o Moussa Tobias duas vezes em seu plano de governo. Na primeira, o trata como um desafio a ser enfrentado para melhorar a integração regional. Depois, no capítulo sobre a temática, é comentada a intenção de realizar estudos para implantar parques, polos e centros de inovação junto ao aeroporto.

Os desafios da Prefeitura

A Secretária da Sedecon (Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Turismo e Renda da Prefeitura Municipal de Bauru), Aline Fogolin, conta que essa pauta está sendo discutida e planos de ação têm sido tomados.

Ela reitera que a Sedecon e a Prefeitura têm feito um trabalho de reconhecimento dos problemas e das demandas para que o Aeroporto possa se tornar um Centro Logístico. “Há muitos anos que o aeroporto não era colocado num planejamento focado no desenvolvimento regional, já que ele não pode ser pensado só localmente. Somos um polo em Bauru, tanto universitário quanto logístico. Então, o modal é importantíssimo nesse cenário, tanto para passageiros quanto para cargas”, afirma a secretária.

Aline conta que a prefeitura tem analisado o cenário atual para entender quais medidas devem ser tomadas. Segundo ela, o poder público tem se reunido com companhias aéreas, agências turísticas, empresários e especialistas no assunto para compreender melhor a conjuntura, já que a Sedecon ou a prefeitura  nunca realizaram estudos antes.

Fachada do Aeroporto de Bauru
O Aeroporto Estadual Moussa Nakhal Tobias está localizado entre a cidade de Arealva e Bauru (há 20km do centro da cidade)

O DAESP, companhia que administra o local, divulgou algumas licitações para melhorias no aeroporto, mas até agora não deram resultado. Passando o período eleitoral, a Prefeitura e a Secretaria irão auxiliar na busca por investidores. Aline afirma que o Moussa Tobias tem uma área pública interessante que pode ser potencializada e precisa de mais hangares. Com isso, o espaço conseguiria receber mais empresas para fazer pouso e decolagem para conexões e se tornar uma área de armazenamento comercial e distribuição – dando suporte ao Porto Seco da cidade.

A questão econômica

A discussão entorno do aeroporto inclui a possibilidade de melhorias na arrecadação da cidade de Bauru. Para o despachante aduaneiro Jacomo Buranello, pode-se tilizar o Moussa Tobias como uma fonte de escoamento de produtos, mas afirma que não dá para saber se o frete compensaria mais do que o modal rodoviário.

O economista Guilherme Torga pensa que, apesar dos esforços para fazer o aeroporto atingir mais empresários e movimentar mais exportações, os tipos de mercadorias produzidas na cidade não compensam os gastos para fazer esse transporte pelo Moussa Tobias. “Mais de 70% das exportações de Bauru e região se concentram em produtos do agronegócio ou da indústria siderúrgica, que geralmente se caracterizam por um grande volume, o que torna o modal aeroviário pouco interessante para esse fim”. Guilherme acrescenta que caso seja necessário um transporte por avião, já existe a opção do aeroporto de Viracopos em Campinas, que fica há 260 km das terras bauruenses.

O modal aéreo é indicado para mercadorias “urgentes”, ou seja, que precisam ser entregues rapidamente. Segundo estudo do Ietec, que reuniu dados do IPEA e do IBGE, os custos de um modal aéreo são maiores em comparação a outros modais. Levando em consideração os tipos de produtos que Bauru exporta, os dados mostram que não há necessidade de um centro logístico aeroviário na cidade. Isso se deve a questões de manutenção e combustível das aeronaves, o que acaba encarecendo o valor final dos produtos.

Barras de ferro são o produto mais exportado de bauru.
Arras de ferro ou de aço não ligadas consistem em 39% de todos os produtos exportados de Bauru, somando R$ 63 milhões em vendas

De acordo com os dados do MDIC (Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços), anualmente, Bauru exporta aproximadamente US$ 200 milhões, sendo a 46ª cidade com mais exportações do estado e a 154ª do Brasil. São 57 empresas ou pessoas exportadoras na cidade, mas o valor, contudo, corresponde a 0,4% de todo o arrecadado no estado.

O despachante aduaneiro Jacomo Buranello, acredita que outro fator que prejudica o potencial exportador de uma empresa é a alta taxa tributária, o que acaba reduzindo investimentos.

Por conta disso, Guilherme ressalta que seria mais interessante que o aeroporto tivesse um investimento para se tornar um terminal regional de aviação doméstica na região central do estado, já que a mesorregião de Bauru conta com 1.5 milhões de habitantes distribuídos em 56 municípios.

A secretária Aline, contudo, acredita que existam produtores que possam se beneficiar do aeroporto, mas que é preciso unir as oportunidades às pessoas interessadas. “Agora, juntando a questão da inovação, um investimento nas universidades para fomentar a pesquisa e conectar, começamos a encontrar os produtos. Bauru tem o potencial, mas está tudo meio desconectado, para o aeroporto ser mais funcional e atrativo precisa ter o outro lado, não adianta ter estrutura se não tiver produto.”

O transporte até o aeroporto e o caso Luciano Huck

No dia 17 de setembro, o Moussa Tobias tomou uma notoriedade nacional e um de seus problemas tornou-se visível. O avião que levava o apresentador da Globo em uma viagem precisou fazer um pouso de emergência na região, devido à problemas climáticos.

Com isso, Luciano desceu do avião e gravou diversos Stories para seu Instagram, mostrando sua surpresa e indignação ao fato de que, em um dia comum na parte da tarde, o aeroporto não oferece um meio de saída até a cidade de Bauru, que fica a 23 km de distância. Ironicamente, Hulk afirma em vídeo, mostrando a frente do aeroporto vazia, que “acho que vai ser fácil sair daqui de táxi, ônibus, Uber ou de carro de boi”. 

Uma nota não oficial da Sedecon circulou por grupos de Whatsapp, dias depois. A mensagem afirmava que a unidade havia ficado feliz que seu avião conseguiu pousar sem problemas, explicou que pelo fato de Bauru ser uma cidade de médio porte, existem poucos horários definidos para chegadas e partidas e que Uber’s e táxis estão à disposição em qualquer horário do dia.

A nota também respondia à insatisfação de Luciano, descontinuando a ironia utilizada para denegrir o trabalho realizado no aeroporto, e finalizava convidando Luciano para conhecer Bauru. Aline Fogolin afirma que não houve posicionamento oficial da Sedecon e a própria secretária decidiu não soltar nada, pois não houve pedido de Huck ou de sua equipe. O apresentador retratou-se dias depois do ocorrido via redes sociais, afirmando que possui uma relação de infância com o município.

A situação evidenciou o problema de acesso ao aeroporto. Ele fica pouco mais de 20 km do centro da cidade. Existe apenas uma linha de ônibus que faz o trajeto, que sai do Centrinho da USP e vai até o Moussa. Em dias de semana, o percurso é feito seis vezes, mas com intervalos grandes entre os horários. Aos finais de semana, há apenas transporte nos horários próximos aos voos – os táxis seguem esses mesmos horários.

Onibus no Moussa tobias, em um dos poucos horários disponíveis ao longo do dia.
Ônibus em um raro momento no Moussa Tobias

O que vem pela frente?

Aline Fogolin afirma que, nos próximos meses, a Sedecon iniciará um período de “chamamento” para capacitação do receptivo turístico. Isso inclui taxistas,  cadeia hoteleira e restaurantes. Assim, ela acredita que a cidade estará preparada para receber o turista que vem para negócios ou passeio.

Estão agendadas reuniões com as empresas aéreas que já operam na cidade para entender as razões dos horários reduzidos. Além disso, a secretária afirmou que fará parcerias com as prefeituras da região para que haja um fluxo maior de passageiros no Moussa Tobias.

 

Repórter: Gustavo Lustosa

Produção Multimídia: Julia Mendonça

Edição: Danilo Mendes

 

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