Histórias contrastantes trilhadas em um espaço comum na Casa do Hip Hop em Bauru

“Aquilo ali, do jeito que está abandonado, é um ‘reduto de nóia’, vai pegar fogo”. Essas foram falas do vereador de Bauru Coronel Meira, durante uma sessão na Câmara Municipal. Ele se referia à Estação Ferroviária, que hoje abriga a Casa do Hip Hop. A opinião de Meira faz parte de um debate bem mais profundo: qual é a real importância da presença deste espaço de produção cultural para a população da cidade?

Bem próximo à Casa do Hip Hop está o Museu Ferroviário, que divide com ela algumas áreas em comum, como os trilhos do trem. Ambos são locais de incentivo à cultura e que, apesar de terem abordagens e estruturas diferentes, acabam tendo uma função muito parecida, de preservação e difusão da história de uma população.

A história oficial

Arthur Castro, de 24 anos, é estagiário do Museu Ferroviário há dois meses. O seu trabalho é monitorar visitas ao espaço. Enquanto guia o público pelo museu, ele introduz a história de criação da cidade. Apesar de ter uma certa liberdade para contar a narrativa sob o ponto de vista que lhe convém, ele admite que há uma interpretação mais estimulada pela prefeitura – “uma leitura positivista”, afirma.

O protagonismo é da burguesia. Teoricamente, foi ela quem trouxe o desenvolvimento para Bauru; a grande responsável pela cidade ser da maneira que é hoje. “Inclusive tem lugares que recebem o nome dessas pessoas, como a praça que fica bem na frente da estação, a Machado de Melo”, conta. “Ele foi um engenheiro, dono de uma empresa ferroviária, que organizava grupos para ‘exterminar’ os índios e abrir espaço para as construções”.

Outras ruas e avenidas da cidade também são homenagens ao que Arthur se refere como “burguesia positivista”. “Azarias Leite e Araújo Leite são nomes de uma família de acionistas das fazendas de café que contratavam capangas armados, conhecidos como jagunços, para matar indígenas”, completa.

Não apenas em grandes ruas e praças da cidade estão imortalizados estes nomes. Arthur acrescenta ainda que os livros de história, que narram o surgimento da cidade, trazem estes personagens como protagonistas, senão como únicos agentes. E a problemática disso é grande já que, sem explicar de onde eles vêm, a quem se referem – não de maneira crítica ou aprofundada -, qualquer outro grupo de pessoas, participantes ativos da construção da cidade, é ignorado e julgado como irrelevante.

Uma alternativa?

No prédio ao lado do museu está o espaço concedido pela prefeitura para a organização da Casa do Hip Hop. “Não é uma invenção da cidade de Bauru e, sim, uma adaptação de um molde criado na cidade de São Paulo”, explica Guilherme Paschoal Delazari, de 21 anos.

Estudante do cursinho pré-vestibular da Casa do Hip Hop há dois anos – desde a sua inauguração -, ele explica o quanto o espaço foi importante para a sua formação de caráter. “Com certeza não é a mesma coisa que um cursinho normal”, ele admite. “É bem menos ortodoxo. E isso tem prós e contras”.

Guilherme era alguém que gostaria de ter mais informações que fugissem do modelo tradicional, ou positivista, como o que Arthur coloca como o predominante dentro do Museu Ferroviário. Mas o estudante compreende que aquele conteúdo ainda é o necessário para que as pessoas consigam passar no tão sonhado vestibular, então é aquilo que eles precisam aprender.

É exatamente essa “falta de combatividade” que Arthur desaprova no espaço. “Eu não vejo muita diferença da história contada pela Casa do Hip Hop para a do Museu Ferroviário”, ele diz. “O que eles fazem não é muito diferente do trabalho de quaisquer ONGs, igrejas ou outras denominações religiosas que oferecem suporte a adolescentes. Não existe nada que de fato ‘represente os de baixo, excluídos’”, completa.

Combativa ou não, a Casa do Hip Hop, mesmo que escolha contar a “história oficial”, subverte a estrutura. São pessoas ocupando um espaço com uma carga simbólica gigantesca, que pegam os símbolos e usam-nos para traçar a sua própria história. Seja com eventos culturais, como “batalhas de rima”, com oficinas gratuitas, desde luta, música, até técnicas básicas de grafite, seja com a difusão de conhecimento oferecida pelo cursinho – que é bem acessível.

Guilherme, diretamente afetado pela iniciativa, enxerga esse potencial: “Eu acho que a Casa do Hip Hop como um todo, como apoio para a sociedade mais marginalizada, é essencial para a criação e manutenção de mentes pensantes vindas da periferia, principalmente por ser um lugar de educação, integração, arte etc”.

Foto: Nádia Linhares

Texto: Bárbara Alcântara

Produção multimídia: Nádia Linhares

Edição: Caroline Cardillo

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