História em chamas: o incêndio no Museu Nacional e o descaso com o patrimônio público

Na noite de domingo, 2 de setembro, os brasileiros presenciaram um marco trágico para a história do país. Em meio às chamas de um incêndio, eles assistiram milhões de peças históricas serem destruídas no Museu Nacional, no Rio de Janeiro.

O fogo começou por volta das 19h30 do domingo e só foi controlado no fim da madrugada da segunda-feira (3). Grande parte do acervo de 20 milhões de itens se perdeu. Fósseis, como o de Luzia – o fóssil humano mais antigo já encontrado na América – múmias, obras de artes, biblioteca vasta e outros registros históricos foram reduzidos a cinzas.

Antônio Carlos de Lima, professor de história da UFRJ, foi um dos pesquisadores que perdeu toda seu trabalho no incêndio. “Minha instituição queimou integralmente. Todo meu material pessoal de 33 anos de trabalho na mesma instituição queimou integralmente” , diz o professor.

Funcionários do Museu Nacional se aliaram ao Corpo de Bombeiros na tentativa de apagar o fogo, antes que chegasse a uma parte da construção que continha produtos inflamáveis. Devido à falta de carga em hidrantes, foi necessário retirar água do lago que se localiza na Quinta da Boa Vista, bairro carioca que abriga o Museu, além do reforço de caminhões pipa no local.

As causas do incêndio ainda são desconhecidas pelos peritos, que não descartaram a possibilidade de incêndio criminoso. De acordo com o Corpo de Bombeiros, não houve nenhum ferido. Havia quatro vigilantes no local, que conseguiram sair a tempo.

Denúncias e abandono

Em meio às investigações e ao sentimento de consternação que envolve a nação, surgem denúncias sobre o estado de conservação e sobre um possível abandono do Museu por parte do poder público. Segundo informações do site da UFRJ, a Universidade Federal do Rio de Janeiro, o reitor da faculdade, Roberto Leher, revelou em entrevista à imprensa que o lugar sofria com a falta de linhas de financiamento por parte do governo.

Também foi revelado que negociações com o BNDES, Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Nacional, ainda estavam em andamento.  O objetivo era arrecadar verba que, entre outras funções, seria utilizada para a reorganização e revitalização do sistema de prevenção de incêndios.

Outros museus já foram vítimas de incêndios antes, como o Museu da Língua Portuguesa, localizado na Estação da Luz em São Paulo, que, em 2015, teve grande parte de seu acervo destruído. Sua recuperação está sendo finalizada e a previsão para a abertura das visitações é para o segundo semestre de 2019. O Instituto do Butantan também sofreu com o fogo em 2010, perdendo um acervo de 70 mil cobras, aranhas e escorpiões conservados em formol.

O acervo histórico do Museu Nacional era riquíssimo. A instituição era marcante não apenas para a história do Brasil, mas também para a da América e para o mundo, “É muito difícil se referir a todas as peças do museu no passado. É difícil reconhecer a perda, não só para mim, mas para todos os meus companheiros”, diz Regina Dantas, professora e doutora em História pela UFRJ.

O Museu e o mundo

O Museu Nacional, localizado na Zona Norte do Rio de Janeiro, completou 200 anos em 2018. Seu acervo contava com mais de 20 milhões de itens de geologia, antropologia, paleontologia, botânica, zoologia, arqueologia e entomologia. Uma riqueza histórica mundial que sofreu grandes perdas com um incêndio no dia 2.

Ao longo de seus dois séculos de história, o Museu Nacional recebeu diversas personalidades nacionais e internacionais. Entre elas, o ex- presidente, Juscelino Kubitschek, a cientista, Marie Currie, o físico teórico, Albert Einstein, Santos Dummond, considerado o pai da aviação, e o antropólogo e etnólogo, Claude Levi Strauss.

A resposta à tragédia veio com grande repercussão  e solidariedade dentro e fora do país. Enquanto muitas universidades do Brasil e outras personalidades prestaram homenagem ao museu e mostraram um tom de tragédia, líderes mundiais e outras instituições também trataram do caso. O governo português, por exemplo, expressou sua comoção quanto ao ocorrido e ofereceu ajuda no processo de retomada do museu, conforme nota divulgada pelo ministério da educação.

Em nota ao público, o Museu agradeceu  a colaboração de todos que se manifestaram em prol da instituição. O anúncio também revelou que um orçamento de 15 milhões de reais, destinado à segurança do Palácio sede do Museu Nacional e a um projeto de recuperação do museu, foi liberado pelo Ministério da Educação.

Texto: Hanna Queiroz, Pedro Fonseca e Lucas Ávila

Produção multimídia: João Pedro Pinheiro

Edição: César Cabral

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