A luta pela memória da capoeira

Não é difícil reconhecer uma roda de capoeira, o som do berimbau, com o pandeiro e o atabaque, os movimentos ágeis e precisos que misturam dança e luta, são elementos característicos.

Essa arte durante muito tempo foi proibida no Brasil, em 1890 o código penal da República proibia a prática da capoeira com punições como castigos corporais. A capoeira é de origem afro-brasileira, nasceu aqui criada pelos povos africanos na época da escravidão, com movimentos inspirados em danças guerreiras africanas, sempre foi um símbolo de luta e resistência do movimento negro, como representado em suas canções:

“…Negro arrebentou correntes, depois de tanto mau trato. No meio da capoeira venceu o capitão do mato…”.

No governo de Getúlio Vargas, a capoeira passou a ser mais valorizada quando Manoel dos Reis Machado, o mestre Bimba,  foi convidado para uma apresentação no Palácio do Governo e a primeira academia de capoeira foi criada.

Edson, 34, o contramestre Burca, trabalha com capoeira há mais de 20 anos e dá aulas  em Bauru. Ele ressalta a importância do mestre Bimba para a preservação da capoeira, “A capoeira é a luta regional baiana que mestre Bimba criou, isso foi o pontapé para que ela não morresse, se não fosse por ele a capoeira teria se extinguido assim como várias manifestações de matriz africana”.

Ao longo dos anos essa luta foi se modificando e outros elementos da cultura africana e brasileira foram adicionados, atualmente são reconhecidos três tipos: a Angola, a Regional e a Contemporânea. A Angola é a capoeira mãe, a mais tradicional. A regional tem influência das lutas asiáticas como karatê e o kung-fu. Já a contemporânea é uma mistura das duas.

A luta pela preservação

Em 2004, o então Ministro da Cultura, Gilberto Gil criou o Programa Brasileiro e Mundial da Capoeira, que previa a construção de um calendário da capoeira, criação de um centro de pesquisa em Salvador, implantação do ensino da capoeira nas escolas, apoio diplomático a capoeiristas no exterior, uma previdência específica para eles e o lançamento de editais que fomentassem a prática da capoeira. Esse foi o início de um longo processo para a preservação e o incentivo da capoeira no Brasil.

Reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial no Brasil em 2008 e, posteriormente pela UNESCO em 2014, os próprios capoeiristas não entram em consenso sobre a efetividade desse título. A capoeirista e doutoranda da USP, Andressa Marques Siqueira, que pesquisa Patrimônio Cultural Imaterial, explica que “Muitos consideram um título vazio, outros acham válido, já que a partir do momento que o governo registra algo como patrimônio cultural brasileiro, ele tem responsabilidade sobre esse bem e se torna responsável pela salvaguarda daquilo”.

“Quem salvaguarda a capoeira somos nós. Então se ela continua viva e presente no mundo inteiro é por mérito dos capoeiristas. Esse caminho foi feito pelos capoeiristas sem a ajuda do governo”

Depois que a capoeira foi declarada patrimônio cultural em âmbito nacional, Instituto do Patrimônio Histórico Artístico e Nacional (IPHAN) tentou elaborar um plano de salvaguarda nacional para a sua preservação. No entanto, em 2012, decidiu-se que cada estado faria seu próprio plano, já que a capoeira tem valores e simbologias diferentes em cada região do Brasil.

Siqueira afirma que ao consultar os planos de salvaguarda dos estados pelo site do IPHAN, somos informados que esses estão em andamento, ela explica ainda que há dificuldade em obter mais informações. “Nas minhas pesquisas com o IPHAN, nem os próprios técnicos sabem dizer se os planos dos estados estão realmente encaminhados e se tem algum pronto”. A pesquisadora tem acompanhado de perto elaboração do plano da Bahia e de acordo com ela esse seria único estado que o concluiu, apesar de não ter sido aplicado .

Andressa ressalta que até hoje os planos só foram aplicados pontualmente, em alguns lugares, mas não em nível estadual. Ela cita a cidade Campinas como um exemplo em que os capoeiristas se reuniram com a prefeitura e conseguiram que ela se comprometesse a aplicar a capoeira na escola e incentivar sua prática.

Outra dificuldade para a aplicação do plano seria o financiamento do Estado:

“O Brasil nunca foi um país que investiu muito em cultura. O atual governo, inclusive queria acabar com o Ministério da Cultura, por conta disso, recebemos cada vez menos verba, e para a cultura popular e Patrimônio Imaterial o dinheiro é menor ainda”.

Aqui em Bauru não é diferente, a capoeira resiste e sobrevive graças a persistência dos capoeiristas. A cidade é receptiva à prática da capoeira em lugares públicos, tanto que todo último domingo do mês o contramestre Burca organiza uma roda de capoeira na Avenida Getúlio Vargas. Porém ele salienta, que a Prefeitura não estimula e apoia os capoeiristas: “Eu realizo o maior encontro nacional de capoeira do interior paulista, um dos maiores do cenário brasileiro e nós não temos incentivo nenhum”.

Texto: Ingrid Watanabe e Michelly Neris

Produção multimídia: Christian Macías Retamar

Edição: Victor Barreto

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *