Assédio sexual em retrato mostra um cotidiano que incomoda

Permeando as mais diversas estruturas da sociedade, a violência sexual acontece com mais frequência do que imaginamos, tornando-se um grande obstáculo no dia a dia das mulheres.

Não raro, esses episódios acabam passando despercebidos pelas outras pessoas, afetando diretamente a vítima, que muitas vezes se sente sozinha e ameaçada. A realidade do assédio sexual, mesmo enraizada na nossa cultura e -por consequência- naturalizada por muita gente, permanece na memória das vítimas, deixando como marcas os problemas psicológicos ou até mesmo físicos.

Esse tipo de violência afeta mulheres nas mais diversas faixas etárias, em várias situações diferentes, independentemente da roupa que estão vestindo, do horário ou lugar em que o assédio sexual acontece. Para mostrar essa realidade multifacetada, mulheres deram seus relatos (de maneira anônima) contando os mais diversos episódios nos quais se sentiram constrangidas e humilhadas por atitudes machistas e misóginas.

 

Créditos: Victória Linard

Eu estava vestindo uma roupa de frio, saindo para esperar a carona para faculdade, porque me buscam aqui na frente de casa. Era finalzinho da tarde e, como eu moro no centro, tem bastante trânsito por esse horário. Bem aqui na porta de casa tem um semáforo, fico sempre esperando na calçada do lado. Daí um motoqueiro parou e apontou o dedo para mim, não entendi. E aí, quando eu percebi, ele estava se tocando, se masturbando enquanto o sinal não abria.

 

Créditos: Victória Linard

No meu antigo estágio, sempre fui vítima de assédio sexual e de outras situações muito constrangedoras. Trabalhava em um centro de reintegração social, com penas alternativas. Toda hora tinha um homem querendo saber meu nome e eu percebi que alguns, mais tarde, me adicionavam no Facebook. Mandavam mensagem falando umas coisas tipo “Como você assim tão linda não é casada?” “Não tem filho?” “Você namora?” ou falando de como eu era bonita para trabalhar “naquele lugar”. Eu ficava bastante assustada com essas perguntas que, além de tudo, eram repetitivas. Pensei em nem aparecer mais.

 

Créditos: Victória Linard

Eu estava indo a pé para o meu curso na escola técnica, que fica no centro da cidade. Parei para esperar o sinal fechar. Nisso, um cara começou a olhar para mim e parou o carro para ficar me chamando de gostosa, mandando beijo e piscando. Eu só queria atravessar a rua e todo mundo ficou me olhando. Naquela semana, fazendo o mesmo caminho, aconteceu uma situação bem parecida, mas em frente a uma construção. Fiquei com medo porque estava sozinha na rua e não tinha como voltar. São uns porcos, ou você sai andando ou fica e corre o risco.

 

Créditos: Victória Linard

Fui com umas amigas para um barzinho num sábado, assistir um show. Era bem pertinho de casa, coisa de uma ou duas quadras, então eu fui a pé mesmo. Quando o show acabou, percebi que um cara ficou me olhando sem parar, eu fiquei incomodada mas não levei a sério. Na hora que saí do bar, atravessei a avenida para entrar na minha rua, mas o cara entrou antes. Voltei para a avenida, e ele voltou também, do outro lado da calçada. Ficou me esperando na esquina. Quando eu ameaçava continuar andando, ele andava junto. Precisei ligar para o meu pai me buscar de carro, mesmo estando à uma distância ridícula, porque fiquei com medo.

 

Créditos: Victória Linard

Me lembro que, aos 11 anos, um homem de uns 30 anos me mostrou seus órgãos genitais no metrô, só eu vi, mais ninguém. Fiquei horrorizada. Dali para frente, eu me policiava para pegar vagões menos cheios e me sentar ao lado de mulheres, porque eu era criança e não sabia me defender. As investidas continuaram na adolescência e na vida adulta. De pé, no ônibus, haviam sempre os engraçadinhos se roçando em mim.  Até mesmo grávida, percebia os olhares maliciosos dos homens.

 

Créditos: Victória Linard

Sempre que eu vou ao shopping Boulevard, aqui em Bauru, eu tenho que fazer uma pequena travessia de um lado pro outro da Nações Unidas. Quando eu dobrava a esquina do mercado Assaí com o shopping, eu ouvia buzinadas e homens mexendo comigo. Isso não era exceção, mas um problema constante e que me incomodava muito. Depois de um tempo, eu comecei a tentar atravessar o mais rápido possível (e quase fui atropelada por isso) e de cabeça baixa, pra tentar ser invisível. Já cheguei a usar o estacionamento do mercado para chegar até o shopping, por medo de mexerem comigo. É muito difícil você se policiar e se privar de uma coisa tão banal por medo de ser assediada. E é absurdo o quão comum isso é. As mulheres estão sempre evitando coisas ou mudando trajetos porque sabem que correm algum risco de serem incomodadas – ou pior. Cara, eu só queria atravessar a rua. Qual o problema disso?

 

Créditos: Victória Linard

Comigo sempre acontece quando eu estou andando na rua, porque sei que os caras me esperam passar para ficar olhando a minha bunda. Isso acontece direto. Agora eu aprendi a ficar encarando eles até ficarem constrangidos. Só que é ruim, né? Você já sai de casa sabendo que vai ser observada por uns caras estranhos que você nem sabe quem é.

 

Créditos: Victória Linard

Quando eu estava no colegial, tinha um professor que soltava umas frases bem pesadas para as meninas, do tipo “que bundão gostoso que você fica com essa calça” ou “como você está gostosa hoje, hein?!” E constantemente eu ouço assovios na rua, gritos, buzinadas, enfim… Coisas que me deixam bem incomodada! Isso geralmente acontece quando estou indo até a faculdade, porque vou andando. Não dá nem dez minutos de trajeto e sempre alguém mexe comigo. E eu não respondo, porque tenho medo de xingar e alguém sair pra me bater ou ameaçar.

 

Créditos: Victória Linard

Desde a adolescência faço bicos de garçonete, uma área que o assédio é enorme, inclusive já “tive” que dançar com velho bêbado e assediador porque ele era o dono da festa.  Pior que isso é o assédio por parte dos outros garçons e barmans. Eles são legais com você, te ajudam em tudo… Mas quando você vira as coisas eles falam de como você é “delicinha” e eles querem te pegar. Toda noite isso, toda vez… A cada noite de trabalho eu ficava com mais raiva. Eles ofereciam carona e no caminho ficavam me assediando… Pensei que ia ser estuprada ali mesmo. (…) É horrível saber que estão sendo legais com você só porque querem te comer, que não é legal, talentosa, esforçada, engraçada… Nada disso, só é um corpo, que ainda pode estar fora dos padrões e aí ferrou, porque você passa a se odiar. Se odeia ao invés de odiar os caras. Por fim, a cada dia me sentia mais mal para ir trabalhar, dias antes de trabalhar eu já estava com crises de ansiedade. E imagina se eu resolvo falar isso pra alguém? Se eu resolvo falar pro meu chefe? Vai dizer que sou louca, sem senso esportivo, mal comida.

Créditos: Victória Linard

Já sofri muito assédio desde muito nova. Na rua indo pra escola, pra casa…. Na escola já passaram a mão em mim várias vezes. Em festas já ficaram insistindo muito pra ficar comigo e tentaram me puxar. Inclusive, recentemente, um amigo de anos fez isso comigo e foi horrível. Fiquei me perguntando: então ele não foi meu amigo todo esse tempo porque gosta de mim, me acha legal… Era só porque queria ficar comigo. Isso me deixou bem mal.

Repórter e produção multimídia: Victória Linard

Edição: Vandressa Vellini

Foto de capa: Mãos para trás Créditos: Victória Linard)

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