Mulheres narram passado e presente de agressões

De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde, estima-se que 70% das mulheres em todo o mundo vão sofrer, em ao menos um momento das suas vidas, algum tipo de abuso por parte do parceiro.  Nesta reportagem, trouxemos três diferentes relatos de mulheres que amargaram ou amargam um espaço nos números de agressões contra mulheres no Brasil. Pelo teor de alguns relatos, é válido ressaltar que o conteúdo jornalístico aqui apresentado pode ser sensível a algumas pessoas e acionar nelas certos gatilhos emocionais.

Acompanhe nossa lista no Spotify que integra nossa matéria (Créditos: Bianca Furlani)

A curta narrativa a seguir obscurece uma vida de abusos, e Amanda* é breve ao descrever as violências e suas circunstâncias. Essa brevidade assusta e, ao mesmo tempo, traz o contorno das reais dimensões da violência contra a mulher – e mãe – que teve seu pescoço cortado pela lâmina de uma faca empunhada pelo ex-marido.

Ferida aberta

“Sofri violência física. Ele tentou me estrangular quando eu tava grávida e, quando minhas filhas tinham quatro meses, nós brigamos e ele passou uma faca no meu pescoço. Também  teve violência psicológica: ele fazia gaslighting (forma de abuso psicológico no qual as informações são distorcidas e/ou seletivamente omitidas para favorecer o abusador, ou simplesmente inventadas com a intenção de fazer a vítima duvidar de sua própria memória, percepção e sanidade), falava que eu era gorda, que dormia comigo por pena, que ninguém ia me querer depois dele, etc.

“O agressor era o pai das minhas filhas.”

O agressor era o pai das minhas filhas e, por ele ser usuário de drogas, eram frequentes as explosões de raiva. Quando ele passou a faca no meu pescoço, ficou com medo do meu pai, que é policial, e ele mesmo chamou a polícia. Ligou pro 190 e falou pro atendente que tinha me esfaqueado. Os policiais perguntaram se eu queria seguir com o B.O. e eu falei que sim. Minha mãe me levou de volta pra casa dela, porque minhas filhas eram muito pequenas.

Ele ficou preso dois meses, porque mexeu tanto com a minha cabeça dizendo que me amava que eu menti em audiência, dizendo que ainda estava com ele. Eu tinha print dele combinando o depoimento comigo. Pouco depois do fim do processo, ele me rejeitou de novo. Depois disso tudo, eu não consigo me relacionar 100% com ninguém. Aprendi a identificar comportamentos abusivos – como comentários negativos sobre aparência, sobre o que eu faço, etc. – e desconfio de todo cara que se aproxima.”

O comportamento atual da vítima da violência é, em suas próprias palavras, uma consequência direta da experiência traumática pela qual ela passou. Ainda assim, segundo a psicóloga Aline de Marco da Silveira (CRP: 06/140539), não há nada que garanta que uma relação abusiva vá necessariamente gerar consequências psicológicas. Em função da complexidade da situação, é difícil enquadrar Amanda* em qualquer quadro sem o tratamento psicoterápico adequado, mas há alguns caminhos para entender sua desconfiança e dificuldade em relacionamentos.

“Quando há consequências psicológicas, o que mais comumente vemos são casos de ansiedade de um modo geral, visto que as vítimas precisavam, na interação com o parceiro, a todo momento antever situações muito ruins, mudar seu comportamento para evitá-las e tentar controlar a ocorrência dessas situações futuras que, fatalmente, acabavam ocorrendo. Ao sair da relação, a vítima pode, por exemplo, generalizar a forma de agir diante de gatilhos, e passar a tentar hipotetizar e antecipar eventos ruins, que não necessariamente tem a ver com a relação amorosa […]”, expõe Aline.

Amanda* preferiu correr o risco de incorrer em crime ao não dizer a verdade em audiência. Para muitas pessoas, essa pode ser uma atitude difícil de entender – tanto que o julgamento de amigos e familiares nesses casos é algo bastante comum. Entretanto, existem variados fatores que contribuem para que a mulher agredida tenha uma posição reticente quanto à denúncia do agressor.

As correntes que prendem e oprimem

A cientista social Neiva Augusta Viegas Vasconcellos, mestra em saúde Pública na área de violência e saúde, elenca algumas dessas condições: “São inúmeras as razões para que isso aconteça, as quais vão desde dependência econômica à naturalização da violência pela sociedade – e, muitas vezes, por ela mesma em seu próprio desconhecimento de que xingamentos, humilhações, constrangimentos também constituem violência […].”

No relato seguinte, é possível identificar alguns desses motivos apontados pela cientista social. Casada há anos com o mesmo homem, Marcela* passou por inúmeros episódios de violência física e psicológica ao longo de toda a relação. Há menos de cinco meses, Marcela* se viu vítima de mais uma agressão e percebeu, com a ajuda da filha recém-formada em psicologia, que vivia num relacionamento abusivo.

“Fui num aniversário com meu marido – pasme, o mesmo! – na casa de uma amiga de infância. Lá, encontrei um amigo gay muito querido. Jovem, lindo, professor de educação física, ele estava me contando o drama dele de descobrir que estava com o vírus HIV. Meu marido estava com os outros homens conhecidos perto da churrasqueira.

Tudo dentro do normal quando, então, minha amiga pediu pra eu e meu amigo tirarmos as fotos do parabéns. Quando levantamos e fomos nos posicionar em meio àquele burburinho, levei um murro nas costas e fui parar de quatro no chão. Nem tinha visto quem foi, e quando me virei meu marido estava possesso, com os olhos esbugalhados, os punhos cerrados e gritando: “Vai feder! Vai feder! Você vai ver, vai feder!

“Fiquei com medo de ele agredir a mim e ao meu amigo, então peguei minhas coisas e fomos embora.”

No meio de todo mundo, minha amiga assustada e algumas pessoas rindo, sem entender direito. Mas todos começaram a cantar o parabéns e eu levantei e tirei as fotos todos tremidas. Passei medo por minha vida inteira, tremi de medo dessas coisas. Perguntei várias vezes o que estava acontecendo e ele se recusava a responder. Fiquei com medo de ele agredir a mim e ao meu amigo, então peguei minhas coisas e fomos embora. Na estrada, ele corria como um louco e jogava o carro nos outros…um horror! Tive medo de morrer de novo. Chegando em casa, não teve acordo, não teve explicação: fui dormir no outro quarto. E assim ficou por uma semana.

Contei pras minhas filhas, elas acharam um absurdo e foram falar com ele. Daí, como sempre, ele chorou e pediu perdão. A besta aqui, pelos mesmos motivos de 25 anos atrás, […] perdoou! Mas pensa numa pessoa que tem vontade de ir embora pra qualquer lugar bem longe, mudar de nome, deixar toda essa história, essa vida, esses personagens e começar tudo do zero.

O pior é me sentir aprisionada na condição financeira, na manipulação da minha mãe e na minha falta de coragem de jogar tudo pro alto. Não posso, não devo…é difícil! Em consequência a essa última agressão somada a anos de um casamento meia boca, meu relacionamento com ele se tornou uma obrigação ruim de cumprir […]. Até minha filha psicóloga já falou pra separar, mas ela não entende minha situação. Tem muita coisa em jogo.”

Apesar de ter plena consciência das práticas abusivas dentro da relação, Marcela* lista as circunstâncias que impossibilitam sua separação. A pressão familiar – por parte de sua mãe, principalmente – e a dependência financeira são um entrave para a sua perspectiva de autonomia: “há vítimas que reconhecem estar em relacionamentos abusivos mas, por diversos motivos, não conseguem sair da relação. Nestes casos, o psicólogo também é de grande ajuda e pode instrumentalizar, dar suporte e apoio necessários para retirada da vítima da situação violenta”, orienta a psicóloga Aline.

O sofrimento e a maternidade

Após um relacionamento conturbado que foi marcado pelo ciúme e possessão do parceiro, Kátia* se envolveu com aquele que seria o pai de sua filha. A gravidez aconteceu em um contexto no qual o rapaz ameaçava cometer suicídio frequentemente ao menor sinal de término da relação e, para que isso acabasse, sua sugestão era de que os dois tivessem uma filha. Com o nascimento da criança, ele prometia que não teria mais vontade se matar. Após um mês de término do casal, Kátia* descobre que está grávida.

“Em relação à gravidez que ele estava tão desesperado pra acontecer, quando ele ficou sabendo, agiu com indiferença. Isso acabou comigo. Cogitei até não ficar com a criança; afinal, era nítido que ela não teria pai. Não me ofereceu ajuda financeira, sequer soube o sexo da criança.

“O avô nunca se convenceu que era neta dele, tanto que pagou um exame de DNA mesmo após ela já ser registrada pelo pai. Deu positivo, óbvio.”

Mas exatamente por ter desejado essa criança, não seria justo não ficar com ela. Foi bem difícil pra mim. A família dele me via na rua e fingia não me conhecer, passei dificuldade financeira e até fome. Ninguém me procurou, mas assim que a criança nasceu, viram a foto e todos vieram pra conhecer a menina. Afinal, ela é a cara da família do pai. O avô nunca se convenceu que era neta dele, tanto que pagou um exame de DNA mesmo após ela já ser registrada pelo pai. Deu positivo, óbvio. Depois disso, ele nunca mais insinuou que não era neta dele.”

Em todos os três casos aqui trazidos, a ideia de que a violência doméstica é um assunto que diz respeito somente ao casal justifica a perda da dignidade humana dessas mulheres. A socióloga Neiva sustenta que, em casos de denúncias de agressões, a vítima também é punida: seja por parte do sistema burocrático machista, ou por parte “da sociedade que ainda acredita que em briga de marido e mulher não se mete a colher”, reitera a cientista social.

Mas, mesmo naquelas histórias em que há a denúncia e a consequente punição das agressões, as mulheres estão sujeitas ao sentimento de culpa: “A busca por um psicólogo com quem a vítima se sinta confortável e à vontade para falar sobre o que a fere é fundamental. O psicólogo jamais colocará a vítima em um lugar culpabilizador, mas fará um acompanhamento que envolva a escuta empática […]”, aconselha a psicóloga Aline.

Repórter: Michel Amâncio

Produção Multimídia: Bianca Furlani

Edição: Danielle Cassita

Foto de capa: Colagem do retrato de Maria da Penha (Créditos: Bianca Furlani)

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