Sarau das Mina propõe a união e o fortalecimento de artistas

Não importa a forma de expressão ou o gênero musical e sim o empoderamento cultural

Na última sexta-feira (11), o Espaço Gaia sediou a primeira edição do Sarau das Mina. O evento tem como objetivo fortalecer a produção cultural feminina, promovendo um espaço democrático onde todas as mulheres são convidadas a se expressarem artisticamente, seja através da apresentação e interpretação de composições próprias e também de outros artistas, de declamação de poesias, de dança ou até mesmo de exposição de artes plásticas.

A artista bauruense Manuela Saggioro, uma das organizadores do sarau (esse que é idealizado por um grupo de mulheres que trabalham horizontalmente), conta para os nossos repórteres que a proposta desse espaço de fomentação artística surgiu como uma prévia para o Sonora Festival Internacional de Compositoras, evento internacional de composição feminina.

O festival nasceu no Brasil em 2016 e é organizado por autoras e produtoras de forma colaborativa, alcançando diversos lugares pelo mundo e levantando questões como a falta de representatividade das mulheres no meio musical e o não reconhecimento das potencialidades das mesmas, o que, de certa forma, desencoraja as artistas a compartilharem seus trabalhos. O Sonora abre espaço para essas mulheres através da divulgação e exposição dos diversos talentos, além de proporcionar reflexões que conectam o grupo.

Saggioro está na coordenação do festival que acontecerá em setembro e explica que o sarau, que terá mais três edições até o Sonora (junho, julho e agosto), permite o encontro e a união das artistas em um momento anterior para que o movimento artístico feminino se fortaleça e componha o espaço proporcionado pelo festival.

O Sarau das Minas teve início por volta das 20h e a equipe responsável pela cobertura ao vivo chegou ao local aproximadamente uma hora antes do início do evento para que houvesse uma organização e também um bate-papo com a organizadora. O espaço terapêutico e cultural, que oferece aulas de yoga, psicoterapia, meditação, eventos culturais, entre outras atividades – localizado na rua Mário dos Reis Pereira, 3-139, no Jardim Araruna – é um ambiente aconchegante e que recebeu de maneira singular o sarau e as pessoas que compareceram.

Antes de entrar na sala destinada as apresentações, todos eram convidados a retirar os sapatos, esses que eram deixados do lado de fora do ambiente, bem como energias e sentimentos negativos que também não tinham lugar no interior do mesmo. Juliana Pizano, Marcela Fernandes, Manuela Saggioro, Daísa Munhoz, Isabela Vizoni, Ana Sophia Venateli, Raxi Figueiredo, Lizze Ferrer, Marthynha Ferraz, Vitória Cação, Cátia Machado e Denise Garcia foram algumas das primeiras artistas a cantarem e tocarem instrumentos, enquanto Damaris Ribeiro recitou lindamente o Soneto de Fidelidade de Vinícius de Moraes e o grupo Jade Suhaila surpreendeu através da dança de estilo tribal.

Natalia Pilati, integrante do grupo de dança Jade Suhaila desde 2012, comenta que a oportunidade que o encontro proporcionou de trazer a arte e a cultura, seja através da dança ou da música, também permite o fortalecimento dos laços e dos vínculos como mulheres, femininas e empoderadas. “A arte para mim é uma forma de expressão muito poderosa, não só de expressão, mas acredito que uma forma de cura, através dela a gente liberta todos os nossos medos, nossas tensões, e a gente consegue transmitir as vezes uma coisa que nem a gente acreditava que tinha, que é uma energia boa, uma tranquilidade, uma vibração, e isso é muito bom”.

Laura Camilo que levou sua bebê de poucos meses, Bella Mauê, defende a importância da união feminina e de criar um espaço sem preconceitos, onde as mulheres podem se expor com maior liberdade, apresentado por mulheres e assistido por mulheres, “a gente cria uma força, ver que muitas mulheres estão aqui presentes, eu acho que é importante essa união, a gente construir essa cultura feminina que já foi tão massacrada, que está tão diluída”, completa.

Camilo também fala sobre ter levado a pequena Bella para o espaço de resistência feminina: “essa questão de trazer a cultura novamente, eu acho que isso é importante para passar de geração em geração, essa é a proposta de eu ter trazido, ela é tão pequenininha, já está morrendo de sono, mas está se divertindo porque eu quero passar isso para frente, eu quero que ela leve isso e que ela tenha essa carga emocional”.

A artista Marthynha Ferraz que teve contato desde muito cedo com a música compartilha a sua trajetória no meio artístico e afirma que a importância desse sarau é “deixar que a gente fale, o mais importante é abrir espaço para que a gente fale, seja da forma e como for, poder falar e expressar. E o que é mais importante, poder ouvir. Ouvi muita coisa linda aqui, ouvi, aprendi, quando eu disse pra você que foi um anjo que me mandou, foi, foi um anjo porque foi uma experiência única, eu acredito que para 80% de quem está aqui foi uma experiência maravilhosa, abrir espaço para falar e ouvir. A artista conclui que, para a arte, sempre é tempo e que apenas ela tem o poder de unir as pessoas e recomenda os próximos saraus, “deixa eu ser seu anjo e te levar, é um espaço maravilhoso”. Durante os momentos finais e de reflexão entre as mulheres, Manuela Saggioro também fala sobre a capacidade da música de aproximar as pessoas, “a canção une a gente, constrói estradas e derruba muros”.

Gostaria de saber um pouquinho mais sobre como foi o Sarau das Mina? Corra para as nossas redes sociais, Facebook, Instagram e Twitter, e acompanhe a cobertura ao vivo! Além de conhecer melhor as artistas que fizeram desse evento um verdadeiro show e mostraram como juntas as mulheres se tornam ainda mais fortes, saiba a importância das mulheres na arte e de espaços como esse para o fortalecimento desse movimento artístico tão rico.

Confira na íntegra a composição autoral “Guerreira” de Cátia Machado, uma das artistas que se apresentou durante o sarau e que conversou com a equipe da cobertura. A canção esteve entre as últimas atividades da noite e, além de ser recebida em expectativa e calorosamente, expressou o empoderamento feminino através da arte:

Guerreira

 

Quem diz que mulher é louca

Quem diz que mulher é chata

Quem acha que a gente é bruxa

Quem chama a gente vaca

 

Não sabe da nossa luta

Pensa que a gente é fraca

Mal sabe que a gente junta

É bem melhor que separada

 

Desde pequena

Aprendi a me virar

Sei que com qualquer problema

Eu só posso enfrentar

 

Chega de disputa

Nós não damos cara a tapa

Separou, a gente junta

Veste uma saia rodada

 

(REFRÃO)

Eu sou guerreira

Sei que você também é

Bate na palma da mão

Bate na planta do pé

 

No final das contas

Mesmo com a cara lavada

Se for pra chorar eu choro

Não me sinto envergonhada

 

No final das contas

Ninguém rouba a minha risada

Eu sou rolo compressor

Passo em cima da manada

 

(REFRÃO)

 

Mesmo com a pele esfolada

Com a mão calejada

Com o corpo pesado

Com a alma cansada

 

Sei que sou discriminada

Mesmo maltratada

Me faço bonita

Eu sou da pavirada

 

(REFRÃO)

 

Eu sou guerreira

Sei que você também é

Vamos juntas pra peleja

Porque a gente é mulher

Confira também algumas fotos da noite:

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Juliana Pizano e Marcela Fernandes abrem as apresentações da noite. Foto: Gabryella Ferrari

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Grupo de dança Jade Suhaila. Foto: Gabryella Ferrari

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Preparação para o início das apresentações, com Manuela Saggioro. Foto: Gabryella Ferrari

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A pequena Bella Mauê também marcou presença no sarau. Foto: Gabryella Ferrari

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