Para refletir e agir: o engajamento político na internet

O ativismo Millennial ocorre por meio de vídeos, imagens, memes e textos em mídias sociais

Além das manifestações que tomaram as ruas nos últimos anos, diferentes formas de participação popularizaram-se entre os brasileiros. “Textões” em redes sociais, fóruns, grupos que buscam se mobilizar, vídeos que propõem a discussão de causas étnicas, de gênero, LGBT e da prática política proliferaram online e levantaram dúvidas sobre seu impacto na sociedade. E no centro de tudo isso está uma geração que fez desse local uma das principais formas de engajamento sobre questões sociais e políticas: os Millennials.

Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Continua de 2016, divulgada pelo IBGE, 116 milhões de brasileiros estão conectados à internet. Desses, 44,5%, ou seja, 51,6 milhões são da geração Millennial. O debate político se dá por jovens que cresceram com o acesso e com a lógica de interação das mídias sociais. Thiago Falcão, mestre em Antropologia Social, explica que, além do contexto tecnológico, a internet possibilita aos Millennials “uma pluralidade de pautas e questões nas quais podem ter identificação e posterior engajamento. Incluído nisso também um acesso a informação mais amplo, em um estilo de atuação mais autônomo e horizontal”.

Um perfil político

A horizontalidade e a autonomia são características da personalidade desses jovens. Mas, no que diz respeito à política, o ambiente polarizado e com pautas negativas também influencia, contextualiza Elis Radmann, doutora em Ciências Sociais. Assim, há duas tendências: uma parte dos Millennials é desinteressada e cética em relação à política; a outra é engajada em movimentos, inclusive apolíticos.

Com o objetivo de detalhar ainda mais quem são esses jovens, a pesquisa Sonho Brasileiro da Política foi lançada em 2014. Realizado pela empresa BOX1824, o estudo entrevistou mais de 300 pessoas entre 18 e 32 anos. O levantamento aponta que 39% desses jovens não tem interesse pela política, enquanto que 61% estão interessados e abertos à participação. Os quatro perfis políticos do Millennial brasileiro podem ser conferidas abaixo:

Por que a internet?

A pesquisa Sonho Brasileiro aponta ainda que a ideia do que é participação para os Millennials passa diretamente por sua ação online. 42% dos jovens consideram válido assinar petições; 18% afirmam que se aproximariam mais da política se houvesse mais formas de participar online e 29% gostariam de aprender mais sobre o assunto na internet. Um dos motivos para essa preferência seria o alcance. “O que temos de novo é a inclusão de mais pessoas no debate público. Antes, o assunto ficava restrito a pequenos grupos ou esferas políticas mais institucionalizadas”, explica Falcão.

Esses diálogos – que normalmente não encontram espaço em outros locais da sociedade – foram o que atraiu Natalia Seixas (27), historiadora e estudante de Letras da UFRJ, para o engajamento online. A jovem conta que não havia discussões sobre assuntos sociais em sua escola e universidade. Ela costuma se manifestar politicamente pelo Tumblr. “Eu passei a saber sobre o movimento feminista e sobre problemas sociais, como o racismo, pelas mídias sociais. Eu lia textos escritos por minorias – minorias que até eu pertenço, porque sou muito ligada à causa das mulheres e ao movimento LGBT, por eu ser bissexual”, conta ela.

[Podem compartilhar se quiserem, okay? Escrevi isso aqui para ser ouvida!]Nunca fiz textão no FB, mas dessa vez tive…

Publicado por Natalia Seixas em Segunda, 22 de janeiro de 2018

Além disso, Seixas vê uma certa segurança para tratar de assuntos que podem não ser bem aceitos por alguns setores da sociedade. “Muitas das vezes, é perigoso você abrir uma pauta feminista na vida real, onde você pode ser agredida fisicamente. Pelas redes sociais, não há esse risco”, opina ela.

Espaços democráticos

No entanto, há sempre o questionamento se o ativismo digital, chamado pejorativamente de “ativismo de sofá”, pode ou não ser considerado ativismo. Mas, como explica Radmann, “do ponto de vista de como a democracia foi pensada: todo o tipo de participação é válida; qualquer atitude ajuda a transformar a realidade social”. E mesmo aqueles que preferem o engajamento presencial também se utilizam das redes sociais para a organização de ações políticas.

Leonardo Manffré (25) é comunicador e militante nas áreas de educação, comunicação e arte. “Não sou um grande valorizador da internet, das redes sociais. Não acho que elas são revolucionárias. Mas, em um sentido, elas auxiliam muito ao facilitar o contato e a organização – seja no nível de uma manifestação instantânea ou de grupos de militância política ou cultural”, diz.

A crítica que Manffré coloca ao suposto caráter revolucionário das mídias sociais é uma das maiores questões ao se considerar a internet um espaço democrático. Para Radmann, sendo a individualidade uma das características da geração Millennial, é difícil um debate transpor a barreira das ideologias. Assim, o respeito à opinião divergente e a capacidade de negociar concessões para o bem comum perdem-se de vista com a facilidade de se excluir uma voz online.

(Gif: Wesley Anjos)

E, assim, o problema se volta para o papel das mídias sociais e para as bolhas ideológicas. “Os algoritmos colocam a gente em uma redoma de pessoas que pensam como a gente […] As redes sociais não têm como função primordial uma democratização do conhecimento e das discussões. Mas, sim, o lucro capitalista. O poder não está com o povo”, opina Manffré.

Desafios e perspectivas do engajamento

Além dessas questões, há ainda o questionamento da relevância do engajamento político e social desses jovens. “É comum, em discussões nas redes sociais, os tópicos levantados desvirtuarem do seu assunto original. Isso acontece conforme mais pessoas participam da discussão”, explica Falcão. Essa pode representar uma dificuldade de movimentos sociais e políticos de levar suas pautas para fora da internet.

É necessário que a maioria das pessoas vejam propósito e lógica em uma causa online para legitimar um protesto. (Foto: Wesley Anjos)

Apesar de muitas manifestações de rua serem organizadas online, muitas outras não conseguem o mesmo. A participação na internet não se concretiza socialmente. Radmann defende a existência de uma apatia nesse período histórico, que terceiriza a responsabilidade. Ou seja, se espera que outras pessoas realizem os atos. “Atualmente, a maior parte das pessoas afirma nas pesquisas de opinião que apoiam as manifestações, mas não possuem o interesse em participar”, diz ela.

O pesquisador Falcão ressalta, no entanto, que a participação online – sendo parte da personalidade dos jovens – possibilita o engajamento e a ação política. E, ainda que não de forma instantânea, novas pautas passam a ser discutidas socialmente. Assim, o engajamento político e social faz parte não só da vida dos Millennials, como da vida pública brasileira. E mostra um grande potencial de transformação, se conseguir lidar com as diferentes problemáticas que todo espaço democrático apresenta.

 

Reportagem: Gabriella Soares dos Santos

Produção multimídia: Wesley Anjos

Edição: Beatriz Milanez

 

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