Moda inclusiva é sinônimo de autonomia para pessoas com deficiência

Quem nunca se irritou com o fato de ter que acordar cedo e se arrumar para ir ao trabalho, ou algum outro compromisso importante? Ou teve vontade de sair de casa de pijama só para não perder tempo se arrumando? Bom, se isso incomoda até mesmo as pessoas que não possuem nenhum tipo de dificuldade de locomoção, imagine para pessoas que possuem algum tipo de deficiência que restringe seus movimentos. Foi pensando nisso que algumas marcas decidiram apostar nesse público e confeccionar roupas que facilitam a vida de quem já tem dificuldades suficientes em suas rotinas, e criaram a moda inclusiva.   

Drika Valério trabalha na loja ARIA Moda Inclusiva há 6 anos e afirma que uma pessoa com deficiência física pode demorar até duas horas e meia para se vestir. “Muitas vezes essa pessoa acaba nem saindo de casa pela dificuldade em se vestir. A falta de contato com o mundo externo abaixa a autoestima e com isso vem a depressão. Então essa facilidade no vestir roupas e, principalmente, vestir roupas bonitas, é transformadora na vida e na autoestima dessas pessoas.”

Suellen Albuquerque, professora no Centro Universitário de João Pessoa, com especialização em moda inclusiva e empreendedorismo, chama atenção para o processo histórico de inclusão que estamos vivendo hoje “se hoje precisamos fazer campanha para inclusão, seja em qualquer área, é porque no passado ignorávamos a deficiência. Historicamente, os deficientes eram isolados do convívio social. Por isso, temos obrigação de reconhecer os erros do passado e fazer com que a inclusão não seja mais uma “campanha”, mas uma rotina, seja normal, faça parte do nosso processo de educação.”

Moda inclusiva: como facilitar a vida de quem busca autonomia

O objetivo da moda inclusiva é facilitar o cotidiano das pessoas com deficiência, propondo soluções e inovações ergonômicas, tanto nas modelagens das peças quanto no acabamento. Ela propõe facilitar os acessos aos ambientes onde a moda é consumida e representa uma maneira de democratizar todo o processo que envolve a moda.

moda inclusiva

Mesmo que ela esteja direcionada ao atendimento de necessidades das pessoas com deficiência, a moda inclusiva pode também ser usada por indivíduos que não tenham deficiência alguma e não precisem de adaptação, mas que podem utilizá-la para um maior conforto. Dessa forma, se por um lado ela atende às necessidades da pessoa com deficiência, atende também às demandas de bem-estar e simplicidade de qualquer outro consumidor.  

O mercado da moda vem se mostrando extremamente rígido em seus padrões ditos “corretos” e fica claro que ele não contempla boa parte da população que possui corpos diferenciados. Isso se mostra quando se fala em roupas para pessoas gordas ou para pessoas com deficiência, por exemplo. É o que nos explica Drika, “infelizmente o mundo da moda hoje não está aberto à moda inclusiva e vai demorar muito para esse olhar chegar nesse público. Porque a gente sabe que são corpos que você não vê na TV, que são totalmente opostos do que a mídia impõe todos os dias em revistas, jornais, clipes e novelas.”

No entanto, para que essa realidade mude é preciso estudar moda e, essa formação, como explica Suellen Albuquerque, sempre foi visto com muito preconceito. “O mercado ainda vê a moda como algo muito fútil, principalmente quando estamos falando em estudar Moda no Brasil. O trabalho é a longo prazo, estudamos tecnologia, processos, inovação, comportamento do consumidor, entre tantos outros”. Tudo isso para atender à diversas demandas, dentre elas a demanda da pessoa com deficiência com a confecção das roupas inclusivas.

Drika explica que essas roupas possuem características com aparências convencionais porém com aberturas estratégicas. “Por exemplo, ao invés de um calça abrir na frente com um zíper, ela vai abrir do lado com um velcro para facilitar quem usa cadeira de rodas. Vai ter uma abertura maior para facilitar quem usa sonda e precisa ir ao banheiro várias vezes.”

Outra de suas características são as aberturas estratégicas no cós de uma calça ou no decote de uma camiseta em que há recortes com fechamento do tipo velcro, ímã, ou zíperes com puxadores maiores que facilitem o vestir.

moda inclusiva facilita a vida de pessoas com mobilidade reduzida

Essa camisa possui ímãs no lugar dos botões, dando maior autonomia para quem tem o movimento das mãos comprometido. Foto: Divulgação/ARIA Moda Inclusiva

Além disso, vale ressaltar a importância dos bolsos em lugares estratégicos. No caso de um cadeirante, por exemplo, o bolso traseiro da calça,  além de não ter função, pode causar lesão devido à pressão que a costura pode provocar na pele da pessoa. Nesse caso, o ideal são bolsos na altura lateral da coxa, onde a pessoa pode guardar seus pertences sem correr o risco de adquirir algum tipo de lesão.

Tudo isso buscando que a pessoa com deficiência tenha o mínimo de ajuda possível ou nenhuma, trabalhando sempre sua autonomia. “E também pensando em quem precisa cuidar de uma pessoa com deficiência ou acamada. Essas aberturas estratégica facilitam isso também”, explica Drika.

A busca por independência e autoestima

Descobrir esse mundo pode ser uma porta de entrada para que a pessoa com deficiência consiga autonomia, independência e autoestima. Drika diz ainda que já ouviu relatos de modelos da loja  que, antes de conhecer a moda inclusiva, tinham tentado suicídio e depois que conheceram esse universo voltado para pessoa com deficiência, encontraram meios para superar a baixa autoestima e a depressão. Segundo Drika, “A melhora na autoestima dos clientes é o que faz a gente seguir em frente trabalhando com a moda inclusiva. É o poder da moda em transformar e salvar vidas. “

Bruna de Mello Fredel Biondo possui deficiência física e faz uso das roupas inclusivas há quatro anos. Para ela, as roupas adaptadas fizeram grande diferença em sua rotina, por se adaptarem às suas necessidades. Ela afirma, no entanto, que “deveriam ter mais comércios como esse porque do mesmo jeito que as pessoas que andam tem roupas adequadas para seu corpo, nós temos o mesmo direito. Porque não é correto que por conta de uma deficiência física  você tenha que ir ajustar todas as suas roupas. É muito mais fácil se você encontra roupas já adaptadas.”.

Os desafios: a falta de mercado para pessoas com deficiência 

Infelizmente, esse não é o caso de Sueli Sá, que não consegue encontrar esse tipo de roupa com tanta facilidade. Moradora da cidade de São Bernardo do Campo, Sueli possui deficiência física e percebe a falta desse tipo de comércio na sua região. “Para falar a verdade, nunca comprei roupas inclusivas, apesar de ser cadeirante. Quando preciso de algo vou em uma loja e compro. Além da dificuldade em encontrar roupas que eu use com facilidade, por ser gorda eu também tenho dificuldade de achar meu tamanho”, complementa Sueli.

Suellen Albuquerque  afirma que isso ainda acontece por conta da falta de visão de mercado. “Pela minha vivência não só no campo da moda, mas também na área do empreendedorismo, percebo que os empresários e investidores querem sempre um mercado ‘pronto’ e que já está ascendendo.  Quando temos um cenário com empreendedores criativos com a visão do potencial da moda inclusiva, falta o recurso financeiro para realizar. Do outro lado, quando temos o recurso financeiro, falta a criatividade e a visão do negócio.”

Há necessidade – afirma a professora – de unir esses mundos, porque o público consumidor existe e é real e carente pelos produtos.  Nesse sentido, é preciso que a moda inclusiva seja inserida nas políticas públicas, incentivando as indústrias do setor de vestuário e acessórios no desenvolvimento de produtos nesta categoria.

Falando como quem já trabalha com esse tipo de negócio, Drika diz que falta persistência nas lojas desse tipo, porque quem entra no mercado não vai ter retorno imediato. “É um investimento a longo prazo que muitas vezes a pessoa não tem paciência para investir e muitas vezes não tem interesse por ignorância, no sentido de não ter esse problema, ou não ter ninguém da família ou conhecido com deficiência que precise de uma roupa adaptada.”.

Há ainda um grande caminho rumo a inclusão de roupas adaptadas ao mercado da moda, mas há também muita persistência de quem já está no meio. É o que enfatiza Suellen ao dizer que “aos poucos vamos conseguir mudar essa visão retrógrada, cada vez mais temos marcas locais cheias de identidade, que mostram que não precisamos ‘engolir’ tendências globais, e sim fazer nossa identidade e nossos valores transporem para o produto de moda.”

Texto: Aressa Joel

Produção multimídia: Thuany Gibertini

Edição: Victória Linard

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