Inclusão: as barreiras da educação acessível e do mercado de trabalho no Brasil

Em 2014, a Associação Brasileira de Recursos Humanos Nacional (ABRH) realizou uma pesquisa com aproximadamente 3 mil profissionais, cujos resultados não foram muito animadores em relação à situação dos deficientes no mercado de trabalho.  De acordo com os dados concluídos, 81% dos recrutadores empregam deficientes como uma forma de seguir o que é proposto por lei e não por acreditar no potencial destes profissionais; aqueles que confiam no trabalho dos deficientes são representados por apenas 4% dos entrevistados.

Contudo, de acordo com dados coletados pelo Ministério do Trabalho, mais de 400 mil pessoas com deficiência foram empregadas em 2016, número que aponta um aumento de 3,8% em relação a anos anteriores. Já em 2018, esta situação não sofreu grandes alterações; segundo o Censo mais recente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil possui mais de 45 milhões de deficientes em todo o território – número que indica aproximadamente 24% da população. Mesmo assim, eles representam apenas 0,9% do número total de profissionais brasileiros.

Mercado de trabalho e o preconceito / Pesquisa feita com 4319 PCDs mostrou a real dificuldade enfrentada por essas pessoas no mercado de trabalho brasileiro – falta de oportunidade 66% baixos salários 40% ausência de plano de carreira 4% falta de acessibilidade 16% / QUATRO em cada DEZ pessoas com deficiência já sofreram algum tipo de discriminação no trabalho – vítimas de bullying 57% dificuldade em ser promovido 12% isolamento/rejeição dos colegas de trabalho 9% / dos entrevistados 58% deficiência física 26% auditiva 19% visual 7% intelectual 9% pessoas reabilitadas

Muito deste quadro se deve às barreiras que ainda persistem no ensino brasileiro. De acordo com Gabriely Cabestré Amorim, pedagoga, mestre e doutoranda em Educação Especial, os cursos de graduação de pedagogia capacitam o profissional para atuar de forma ampla e genérica em sala de aula. Entretanto, ao chegarem na sala de aula, os professores deparam-se com uma diversidade de alunos, cada um com as suas características e particularidades relacionadas ao ensino.

“Alguns têm certas facilidades, outros possuem dificuldades específicas em determinadas áreas, ou até mesmo alunos com deficiência, sendo necessário que o profissional se especialize por meio da formação continuada (especializações e pós-graduação) para que ele possa educar alunos da educação especial. Além disso, o profissional deve participar de eventos e congressos voltados à educação especial, ” comenta Gabriely.

Vários municípios brasileiros possuem programas de formação continuada para professores, além de convênios com instituições que podem oferecer algum tipo de formação, visando o mercado de trabalho. Porém, mesmo com os programas oferecidos, a especialista ressalta o problema da desvalorização dos professores no sistema educacional brasileiro.

“Infelizmente, os profissionais da educação não são valorizados no país. Os salários são baixos, as condições de trabalho são precárias, as salas de aula contam com números elevados de alunos. Todos esses fatores impactam no ensino. Muitos professores trabalham dois ou três turnos, o que resulta na falta tempo para se especializar. Se eles trabalharem menos, falta recurso financeiro para investir na formação acadêmica. Como consequência dessa desvalorização, há falta de profissionais qualificados e preparados para atuar com os alunos público-alvo da educação especial”, salienta.

Cidadania na escola

De acordo com a pedagoga Gabriely, a inclusão de pessoas com deficiência no ambiente escolar é possível quando se tem o olhar voltado para suas potencialidades – não para as limitações. “É necessário compreender que, independentemente de ser portador de deficiência ou não, cada aluno possui seu tempo e sua maneira de aprender. Por isso, não devemos compará-los aos outros, apenas consigo mesmos” ressalta .

“As atividades oferecidas em classe devem ser as mesmas, apenas adaptando-as às necessidades e
habilidades de cada um. Nem sempre a forma de resposta será a mesma entre todos os alunos. Ela poderá aparecer de forma verbal, escrita, em forma de desenho, colagem, etc. Mas o importante é a participação e o desenvolvimento dos alunos”  esclarece Gabriely.

A experiência escolar de Leonardo Shirazawa, um garoto de  onze anos que foi diagnosticado com poliomielite, é muito positiva. Sua mãe, Fabiana Shirazawa, conta que o menino nunca sofreu com exclusão ou discriminação dos colegas de classe. “Com ele foi sempre o contrário, as crianças o ajudam muito. Uma vez, durante a reunião de pais, a professora dele me disse que os amigos gostam de colaborar. Quando o lápis do Léo cai, todo mundo vai pegar”.

Leonardo mostra certificado de conclusão das aulas de piano/ Foto: Fabiana Shirazawa/Acervo Pessoal

Fabiana também fala que, ao atingir certa idade, o garoto pediu para trocar a antiga mochila de rodinhas por uma com alças e, mesmo tendo a capacidade de carregar a mochila até a escola, os colegas o ajudam pegando a mochila e levando até a sala de aula. “Na hora de buscá-lo na escola, a mochila chega antes dele porque algum amigo traz. Quando ele usava andador, as crianças andavam com ele, subiam o andador pelos degraus das escadas.”

E como ensinar aos alunos o respeito às diferenças? De acordo com a especialista, para que as crianças aprendam a lidar com a diversidade, é necessário promover atividades em grupo sem distinções entre os alunos. “Também é importante falar sobre as diferenças. Explicar o a deficiência do aluno para os demais colegas em sala de aula contribui para a compreensão do diferente” recomenda Gabriely.

“Outra medida necessária é que a escola realize trabalhos com as famílias de todos os alunos para conscientizá-los sobre o respeito às diferenças, pois não adianta a escola realizar esse tipo de trabalho com as crianças se dentro de casa a família é preconceituosa. O trabalho colaborativo entre escola e família é primordial para o sucesso das ações que visam o desenvolvimento dos educandos” completa.

Os próximos passos na caminhada da inclusão

Para que os alunos com deficiência recebam uma educação melhor e mais inclusiva, Gabriely acredita que a primeira medida a ser tomada pelo poder público brasileiro é “a valorização do professor, seja com salário, condições de trabalho e formação adequada para atuação com o aluno com deficiência. As escolas também devem estar preparadas para receber os alunos, com adaptações arquitetônicas, como rampas, banheiros e salas de aula adaptados, recursos, materiais, equipe escolar preparada para receber a diversidade dos educandos”.

Outra medida necessária é o investimento em uma boa base educacional para as pessoas com necessidades especiais desde os primeiros anos de vida, pois esta etapa favorece o desenvolvimento de competências básicas para o  aprendizado de funções superiores, que serão exploradas e adquiridas nas próximas fases da educação. Mais um benefício, aponta Gabriely, é a “oportunidade que o aluno com deficiência tem de conviver, interagir e socializar com a diversidade e, dessa maneira, eliminar possíveis barreiras e discriminações sociais que a criança com deficiência poderia vir a sofrer no futuro”

Além da diversidade discente e da falta de profissionais, os alunos com deficiência ainda precisam enfrentar o desafio de se manter em escolas regulares. “Esse problema perpassa várias esferas. Ainda vemos famílias que, com intuito de proteger os filhos, preferem mantê-los distantes das escolas regulares, acreditando que, assim, evitarão problemas relacionados ao preconceito”, argumenta a especialista.

“Também existem as famílias que não aceitam o diagnóstico de determinada deficiência e/ou transtorno, e, por isso, deixam de levar os filhos à escola” ressalta . Contudo, a educação em salas regulares é um direito garantido por lei, de acordo com o decreto nº 7.611/2011. Para a especialista, a “permanência do aluno com deficiência em sala regular depende de um trabalho interdisciplinar que envolve a participação da escola, família e equipe multidisciplinar. Mas infelizmente o trabalho colaborativo não é tão simples. Ele necessita de engajamento, disponibilidade para rever e mudar condutas e maneiras de atuação, seja na escola, casa e no mercado de trabalho” completa.

Repórteres: Danielle Cassita e Flávia Magalhães

Produção Multimídia: Ana Luísa Agostinho

Edição: Camila Gabrielle

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