Acessibilidade na Educação: projetos sociais que auxiliam jovens e adultos em Bauru

A sala de aula está lotada, Luana (nome fictício para preservação de sua imagem) está sentada na primeira carteira, para poder enxergar o quadro negro, que tem letras aumentadas pela sua professora Adriana. Suas lições também são adaptadas. Em várias folhas, o texto é impresso na maior fonte possível e ainda assim ela só enxerga com seu óculos e com o auxílio de uma lupa. Luana tem baixa visão, é uma deficiente visual, e essa é a forma como a professora da rede pública municipal de São Paulo e psicopedagoga,  Adriana Coelho, faz para poder alfabetizar sua aluna de 9 anos, promovendo a acessibilidade na educação em sala de aula.

No Brasil, segundo a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN) – Lei 9.394/96, artigo 4° é dever do Estado oferecer atendimento educacional especializado gratuito aos estudantes com necessidades especiais, preferencialmente na rede regular de ensino. A mesma lei também coloca como dever do Estado, fornecer a acessibilidade na educação gratuita nos níveis básico, fundamental e médio a todas as pessoas, em idade escolar ou não.

Mas uma pesquisa realizada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) em 2016 traz uma informação alarmante. Das 145.647 escolas existentes na rede pública, apenas 26% possuem dependências adaptadas aos portadores de deficiência . A adaptação da infraestrutura é fundamental, e tão importante quanto isso é a contratação de profissionais que saibam trabalhar com pessoas portadores de necessidades especiais.

Deficiência visual e auditiva no Brasil / Quase 24% da população brasileira tem algum tipo de deficiência -12,5 milhões tem deficiência visual 9,7 milhões tem deficiência auditiva / Grau de severidade deficiência visual – 49,97% deficiência severa 46,13% dificuldade em enxergar 3,8% cegos / Grau de severidade deficiência auditiva 26,8% surdos 74,20% dificuldade em ouvir / *Dados do CENSO 2010 IBGE

Para Coelho, é fundamental dar importância para projetos, associações e ONG’s que façam a inclusão de pessoas com deficiência, em aspectos em que a escola não pode atender. “A rede pública, por Lei deveria estar preparada em atender todos os tipos de deficiência. A maioria das escolas não estão preparadas para acolher alunos especiais, nem em níveis estruturais quanto em níveis de pessoal”, afirma Coelho.

“Projetos de instituições como a AACD, APAE e outras instituições que prestam assistência aos vários tipos de deficiência, possuem uma equipe multidisciplinar que ajudam no desenvolvimento motor e na aprendizagem da criança. É notável a diferença entre as crianças que apenas vão às aulas e que não possuem esse tipo de acompanhamento, com as que são acompanhadas por esses projetos”, declara Coelho.

Em Bauru, o Lar Santa Luzia para Cegos atende 70 alunos deficientes visuais com idade entre 18 a 95 anos, com baixo poder aquisitivo. A entidade assiste pessoas que perderam a visão durante a vida, ou que já nasceram cegas.

As pessoas procuram o lar por encaminhamento médico, ou indicação de alguém quem já participa do projeto. É necessário a apresentação de um laudo que comprove a existência da deficiência visual. Em seguida, é feita uma triagem com a psicóloga, assistente social e a pedagoga da instituição. Então esses profissionais fazem juntos um plano de ação voltado para direcionar seus estudos, que podem ser: braille, mobilidade e informática.

De acordo com a pedagoga do Lar, Grasiele de Moraes a alfabetização de pessoas cegas ainda não é acessível no ensino básico e exemplifica “Lá na Escola Estadual Prof. Mercedes Paes Bueno (escola em Bauru) tem uma sala voltada para o EJA (Educação de Jovens e Adultos), mas eles não ingressam se não souberem o braile, para ler e escrever, para fazer o supletivo. É inclusão e não é inclusão. Então eles têm que vir pra cá para aprender o braille, pegar um encaminhamento com a Secretaria de Educação para poder ser incluído na escola, e frequentar a sala de recurso”.

Segundo Moraes, o maior desafio é preparar o seu aluno para o mercado de trabalho, para a vida em sociedade e para a profissionalização, porque nenhum desses ambientes está totalmente preparado em recebê-los, e nenhuma das atividades ensinadas pelo Lar garante certificados aos seus alunos, pois o Lar não é considerado uma instituição de ensino.

Um grande apoiador dos trabalhos realizados no Lar Santa Luzia, é o projeto de extensão universitária da UNESP- Bauru, Biblioteca Falada (BF). Os alunos da instituição encaminham suas necessidades ao Biblioteca Falada e então o projeto realiza a transformação de textos literários, técnicos, científicos, artísticos e/ou jornalísticos, originalmente impressos ou digitais, para a mídia sonora, visando a acessibilidade na educação. Também são realizadas audiodescrições de fotografias, gráficos, filmes, videoclipes, espetáculos de dança e teatro e outros produtos audiovisuais e culturais.

Suely Maciel, docente da Universidade Estadual Paulista, responsável pela Biblioteca Falada, explica que “o projeto atua com a educação de forma indireta. Mas, na aquisição de conhecimento e informações, agimos na educação de forma ampliada. Por exemplo, se um aluno precisa ler um livro para o Vestibular, que não tem versão disponibilizada em braile e ele não encontrou esse livro em áudio, nós do projeto narramos o livro e entregamos sua versão em áudio a ele”.

acessibilidade na educação

O projeto também atende a demandas externas, basta entrar em contato através do site /Crédito: Reprodução

Desde sua criação, em 2013, o projeto já realizou mais de 500 trabalhos. A sua atuação é um ponto de luz dentro da escuridão da falta de acessibilidade na educação, no cotidiano das pessoas com deficiência visual, “Nem todo mundo tem acesso ao computador, e mesmo para aqueles que têm acesso, nem todos vão ter o leitor de tela (software para leitura de tela de computadores para deficientes visuais), nosso trabalho é disponibilizar em áudio, muitas vezes em CD”, completa Suely.

Nem mesmo a televisão é inclusiva, o tempo das matérias é muito curto, não há audiodescrição na maioria dos programas, o que dificulta ainda mais o acesso à informação para essa população.

Em Mogi Guaçu, interior de São Paulo, Enzo Santos de Pauli,  de dois anos, cavalga. Ele tem Síndrome de Down e há 1 mês tem feito equoterapia, terapia que envolve equitação. O médico que realiza seu acompanhamento indicou a terapia para o fortalecimento de sua musculatura. “Eu estou sentindo que o Enzo está super bem, depois que ele começou essa terapia, está se desenvolvendo melhor, ficando mais seguro e sem medo! A postura dele tem melhorado bastante! A equoterapia tem ajudado muito no desenvolvimento motor e neurológico dele” afirma Elaine Aparecida Santos de Pauli, mãe de Enzo.

Rosângela Gonçalves, fisioterapeuta do projeto Centro de Reabilitação “Cidade dos Meninos”, de Santo André (SP), afirma que a equoterapia é um método terapêutico e educacional. O cavalo é utilizado como um agente pedagógico e de inserção social, podendo assim contribuir no tratamento de diversos tipos de transtornos, distúrbios e deficiências.

É obrigatório o encaminhamento médico para iniciar o tratamento e são realizadas anamneses (uma avaliação pré-atividade para saber o estado de saúde do aluno e quais as suas necessidades) e avaliação física. O cavalo é simbólico e bastante sensorial, o que traz informações proprioceptivas (é a capacidade em reconhecer a localização espacial do corpo, sua posição e orientação, a força exercida pelos músculos e a posição de cada parte do corpo em relação às demais) e educacionais.

Segundo o educador físico Guilherme Gobbi, a equoterapia age como facilitadora da prática pedagógica, pois tem observado a diminuição da ansiedade, o aumento da concentração e da atenção, incute normas e limites imprescindíveis no ambiente escolar. A utilização da equoterapia como recurso conjunto ao processo de aprendizagem na escola vem sendo reconhecida como uma nova possibilidade terapêutica, por influenciar positivamente no processo de ensino e aprendizagem, ampliando o conhecimento em relação à prática na sua dimensão pedagógica.

 

Repórteres: Helena Ortega e Vandressa Veline

Produção Multimídia: Ana Luísa Agostinho

Edição: Camila Gabrielle

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