A insatisfação popular se reflete no espaço público

A mudança na relação das pessoas com as ruas e os principais fatores envolvidos

De um lado, a população, de outro, o governo. Parece simples definir o conflito sobre o uso do espaço público. Para uma parte da população, a ideia de utilizá-lo como palco de reivindicações e luta por direitos é algo novo. Para outra, esse sempre foi o uso mais expressivo de um local pertencente a todos e todas.

“Foi nas ruas que os tchecos se libertaram em 1989 de opressivas formas de governança, foi na Praça Celestial que o movimento estudantil chinês buscou estabelecer uma definição alternativa de direitos (…)”. O trecho é de David Harvey, publicado no livro “Cidades Rebeldes – Passe Livre e as Manifestações que tomaram as ruas do Brasil”, em 2013. Ele pontua algumas ações importantes que mudaram a história através do uso do espaço público.

Ricardo Antunes é professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da UNICAMP. Ele afirma que no Brasil, após o movimento Diretas Já, houve um período de letargia. Ou seja, um estado de profunda e prolongada inconsciência. 

Entretanto, para Antunes, “a população está chegando a seu ponto de saturação e esgotamento, causados pela mercadorização da res pública, tipicamente neoliberal”. Essa seria a causa principal do momento atual do país. Além de explicar a forma como o espaço público passou a ser utilizado com mais frequência para o exercício da democracia.

Fim da letargia?

Quem não acompanhou os movimentos sociais e manifestações após o período ditatorial, acredita que antes praças e parques eram utilizados apenas pelo lazer. É comum ouvir falar na infância das crianças das décadas de 80 e 90 que cresceram brincando na rua e em praças. Além disso, o desenvolvimento da tecnologia também é um fator a ser levado em consideração, no que diz respeito ao esvaziamento dos espaços citados. No entanto, há um outro ponto de vista.

A censura aos meios de comunicação e à liberdade de expressão na ditadura militar deixou uma herança: o medo. Assim, os espaços urbanos foram esvaziados por um período. No intervalo entre as Diretas Já e as Jornadas de Junho de 2013, as manifestações que eram transmitidas pela mídia se restringiam às dos movimentos sociais rurais.

Segundo Andrei Zaiatz, “não é que antes as pessoas ocupavam simplesmente por lazer e de repente surgiu essa questão política”. Zaiatz é doutor em Arquitetura e Urbanismo pela USP e professor da PUC Paraná. Para ele, a mudança do brasileiro com o espaço público foi uma alteração na ação comunicativa da mídia.

“O que acontece é que a gente não tinha uma mídia tão alinhada com o escopo político do espaço. Isso tomou uma proporção em que a mídia, na retomada a partir das jornadas de 2013, encontrou um nicho de exploração do espaço público como plataforma. Seguindo seus próprios interesses, começou a motivar a população a ir para a rua”, afirma o professor.

Marcha das Mulheres de Bauru – SP (Foto: Sofia Hermoso)

O direito à cidade

Segundo a Constituição de 1988, todo brasileiro pode usufruir da estrutura e dos espaços públicos de sua cidade, com igualdade de utilização. Entretanto, o direito de ir e vir e o de liberdade de expressão são constantemente feridos por governos e representantes do povo.

Em cidades metropolitanas, a discussão sobre o transporte público e o descaso com a mobilidade urbana é necessária. Não é a toa que as Jornadas de Junho de 2013 tiveram seu estopim com o aumento da tarifa do transporte público. 

Para Zaiatz, a mobilidade – responsável pelo carregamento de massas – não representa seu povo. “Existe um certo descolamento entre o que o espaço público tem para ser e no que de fato ele se ratifica.”, pois o transporte público não dá conta dos que elegem os representantes do Estado, que cuidam da gestão e do planejamento da mobilidade.

O direito à cidade não diz respeito apenas a se beneficiar daquilo que ela já oferece. Também é sobre ter a possibilidade de moldá-la de acordo com as necessidades coletivas. Quando o povo passa a sofrer restrições por causa de políticas públicas, é de se esperar que aconteçam certas investidas contra isso.

Não é só no Brasil

O cenário internacional não muda muito do que é visto no Brasil. Pelo contrário, desde 2009, os protestos se intensificaram ao redor do mundo. Ou, como acredita o professor Zaiatz, a mídia se alinhou às pautas das ruas.

Da Inglaterra ao Chile, passando pela França, Irã e Estados Unidos. A indignação da sociedade se dá por diferentes motivos de acordo com cada país. Entretanto, em todos os casos, existem denominadores em comum. A insatisfação com as instituições vigentes e a ocupação do espaço público para demonstrar esse sentimento e lutar por melhorias.

Veja aqui alguns dos principais protestos ao redor do mundo:

O espaço público e a repressão

A repressão de manifestações é vista todos os dias em todos os lugares do mundo. Movimentos sociais e minorias sempre foram os mais afetados. Contudo, eles são também os de maior presença quando o assunto é lutar por direitos de forma democrática. Não só lutam por uma causa, mas também mescam conteúdos nos protestos. Assuntos como precarização e desemprego se juntam às lutas de gênero, classe e etnia.

Zaiatz acredita que “o mundo está vivendo esse momento de repressão, que não é apenas física, mas especialmente psicológica, de cortes de gastos. Uma repressão que acontece no trabalho e de maneira midiática. E ocorre também de forma política quando a gente não enxerga horizontes de representantes do nosso próximo mandato presidencial.”

Além disso, em alguns casos, o modelo neoliberal de economia reprime o próprio conceito de espaço público. Para Zaiatz, a associação de parklets, food trucks e esses tipos de programa reduzem esse espaço como uma superfície funcional. Muito disso acontece porque as pessoas descaracterizam o sentido público do espaço. Elas acreditam que é necessário um retorno para ele, como se um dia tivesse deixado de existir.

Repórter e produtora multimídia: Sofia Hermoso

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