Globo Filmes: a supremacia de uma produtora na indústria cinematográfica brasileira

Atualmente a produção cinematográfica brasileira tem se tornado objeto de estudo por muitos curiosos no país. Não é surpresa para nenhum telespectador que finalmente o Brasil tem se inserido na indústria cinematográfica mundial. Entretanto, também não é necessário estar tão sintonizado ao mundo do cinema para entender o quão ainda o país se encontra atrás da produção internacional.

Quando se fala em cinema no Brasil, é difícil se desvencilhar da hegemonia que tanto nos acompanha desde o surgimento da televisão brasileira. A Rede Globo, rede televisiva comercial gratuita, é a maior companhia televisiva dentro do país, cujo alcance diário chega a 100 milhões de telespectadores através de múltiplas plataformas, segundo pesquisa realizada pela própria emissora. Não seria também surpresa imaginar que da Rede Globo surgiria a maior – se não a principal – produtora cinematográfica no país –  A Globo Filmes.

Da rede ao império

Criada em 1998 pelo fundador do Grupo Globo, Roberto Marinho, a Globo Filmes emergiu diante do apoio dado pela rede, o que favoreceu o seu destaque desde o início. Além disso, fora o investimento próprio, a Globo Filmes contou com a ajuda financeira do meio público e do privado, por meio de parcerias nacionais e internacionais.

É nítida a supremacia e domínio da rede ao longo do desenvolvimento cinematográfico no Brasil. A Globo Filmes participou na produção de mais de 200 filmes, atingindo um público de mais de 190 milhões de pessoas.

Só para ter um panorama desse trajeto, o primeiro filme produzido foi  Simão, O Fantasma Trapalhão (1998). Nesse início, a produtora já conduzia de dois a três filmes na indústria. Nos dias atuais, a hegemonia é ainda mais escancarada: o grupo chega a executar cerca de 17 filmes por ano. Ou seja, a cada 25 dias, há uma nova campanha de filme brasileiro no ar pela televisão, vinculada ao Grupo Globo. Essa projeção, iniciada em 1998, garantiu com que em 2000 a produtora já contasse com obras de bilheteria significativa, não abrindo espaço para outras concorrentes no meio.

Ao longo dos anos, paralelo ao crescimento industrial, as críticas sobre a produtora também cresceram, pois o nível de repetição dos filmes, clichês, e a falta de comprometimento artístico se tornaram características das produções do grupo.

Mesmo com um crescimento apoiado no nacionalismo, na eficiência empresarial e domínio técnico no quesito produção cinematográfica, a Globo Filmes nada mais era do que um reflexo dos padrões televisivos do circuito comercial já consolidado pela rede.

Destaque

É interessante observar o trajeto do campo audiovisual que se estabeleceu com a supremacia do Grupo Globo. O contexto social inicial da companhia absorvido pela lógica de mercado, prevalecendo o âmbito comercial na chamada “indústria” cinematográfica. Nada estranho a lógica midiática de todo o mundo, diga-se de passagem.

É bem observado que o padrão do Grupo Globo se fez claro na Globo Filmes, fazendo com que o público que consome esse serviço notasse a grande infraestrutura e produção técnica envolvida.

Mediante a um maior financiamento tanto público quanto privado, a Globo Filmes passou a contar com um alto padrão tecnológico, somado à supremacia de grande parcela dos atores e atrizes da Rede Globo. Isso causa uma identificação dos consumidores de novelas, programas de TV, rádio e internet. O público pode consumir um filme muitas vezes por ser fã do elenco ou da pessoa que se encontra atuando.

Veja os principais sucessos da Globo Filmes dentro do cinema nacional: 

Maiores bilheterias da Globo Filmes

A hegemonia do grupo Globo passou a ser objeto de contestamento, a partir do momento que a sua produção começou a desprender conteúdos efêmeros e de pouco aprofundamento. Mesmo com a especialização e o chamado know-how da indústria, as produções em larga escala de comédias românticas fúteis e de cópias da televisão brasileira acabaram se definindo como os sucessos de bilheteria da indústria cinematográfica do país. Salvo as exceções, a alienação proporcionada pela Rede Globo facilitou a redundância, já que o principal grupo que consome é o mesmo telespectador da TV brasileira, assim como se observa no documentário de Simon Hartog, Beyond Citizen Kane (Muito Além do Cidadão Kane, no Brasil).

Em contrapartida, o crescimento de outras produtoras, mesmo que pequeno e sem o grande investimento da Globo Filmes, estão ganhando destaque nos últimos anos. Como é o caso do programa Cinema do Brasil, que tem como objetivo “aumentar a participação da indústria cinematográfica nacional no mercado externo, fornecendo incentivo para co-produções, distribuição e troca de filmes com vários países. O programa promove a imagem do Brasil no exterior e incentiva a criação de novas oportunidades na indústria cinematográfica”.

Com isso, percebe-se que a supremacia da Globo Filmes – iniciada em 1998 com a sua criação – não determina, nos dias de hoje, a total dominação da indústria cinematográfica brasileira. É nítido o crescimento de outras produtoras brasileiras que ganham destaque, seja em qualidade artística ou técnica. Com a disseminação da internet e o crescimento de benchmarks entre as empresas, produtoras além da Globo Filmes começaram a ter oportunidades de crescimento e aprendizado, tanto no exterior quanto em plataformas online, que oferecem suporte dentro deste meio. Cada vez mais, a concorrência ganha espaço e o Brasil começa a deixar de viver a hegemonia da Rede Globo na indústria cinematográfica.

 

Texto: Danilo Lysei e Vandressa Vellini

Produção Multimídia: Michel Amâncio

Edição: Victor Moura

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