“Coxinhas” vs. “petralhas”: a polarização realmente existe?

A rivalidade entre direita e esquerda no Brasil cresceu nos últimos anos, mas será que é uma polarização realmente ideológica?

No dia 26 de março de 2017 o “Movimento Brasil Livre”, fundado em 2014 com bandeira pró impeachment, junto ao movimento “Vem Pra Rua” organizaram protestos a favor da Operação Lava Jato. A manifestação teve pouca adesão, levando 17 mil pessoas para a ação, segundo a Polícia Militar.  Com isso, a passeata virou alvo de piadas nas redes sociais, que apontavam a falta de foco e a proteção a Temer como principais motivos do “fracasso”.

O esvaziamento das ruas

Em 21 de maio a força Sindical também se preparava, e junto a “União Nacional dos Estudantes”, ao “Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra” e a “ Central Única dos Trabalhadores”, saiu em marcha pelas ruas. As manifestações aconteceram em 19 estados brasileiros e aproximadamente 60 mil pessoas, número também pouco expressivo, participaram dos atos segundo a Polícia Militar.

Vários movimentos continuam suas manifestações por conta própria, mas não com a mesma adesão de antes. O esvaziamento das ruas, portanto, apresenta-se dos dois lados, tanto direita quanto esquerda. Mas nem sempre as manifestações políticas no Brasil foram fracas, e nem sempre foram divididas em direita e esquerda.

Mas e no passado?

Em 2013 a adesão nas manifestações eram recordistas, com pautas diversas como recursos para educação, saúde e passe livre no transporte público. (Fonte: Paula Cinquetti/Agência Senado)

 

Retomando as manifestações de 2013, o cenário apresentado era outro. O que começou por causa do aumento de 20 centavos no transporte público se tornou a maior manifestação brasileira dos últimos 20 anos, um ápice de 1,4 milhões de pessoas nas ruas de todo o Brasil, provando que um evento de uma rede social pode movimentar o país.

O Brasil se uniu para gritar e protestar sua indignação com a corrupção, violência policial, gastos públicos desmedidos, falta de representabilidade no governo e má qualidade de serviços públicos. Eram muitas demandas, todos os movimentos se fizeram presentes para serem ouvidos, para serem representados: feministas, LGBTs, negros, organizações indígenas, combate à violência e defesa do meio ambiente.

Manifestações pelo Brasil

Nos anos seguintes a Avenida Paulista foi invadida pelas frases “Tchau, querida” e “É golpe!”, numa clara polarização dos chamados “coxinhas” e “petralhas”. Uma materialização dos maus sinais que a esfera pública vinha apresentando separa os manifestantes antes unidos em 2013.

Em março do ano passado, 3 milhões de pessoas se reuniram nas ruas de 229 cidades brasileiras contra o PT porque, em seu discurso, “qualquer coisa” seria melhor que Dilma. A insatisfação cresceu e medidas drásticas foram pedidas na época, incluindo pautas como a volta da ditadura.

Em 2016, uma das  maiores manifestações da história aclamou pela saída de Dilma tendo também  como alvo o  ex-presidente Lula. (Fonte: Leandro Monteiro/Reprodução Flickr)

Com o governo Temer, de partido diferente ao de Dilma, vieram novas regras. Ministérios foram extintos, reformas educacional e trabalhista implantadas. As mudanças não foram bem-vindas visto a aprovação de Temer estar em 3% como ótimo ou bom e 16% como regular, segundo dados do Ibope. Uma desaprovação de 89% não acontecia desde 1986, com José Sarney.

A tal polarização

Mas o que é mais preocupante e perceptível na fala da população é a sua falta de posicionamento,  como explica a cientista política e docente da Unicamp Andréa Marcondes Freitas, “não significa que está todo mundo de um lado ou de outro. Tem uma quantidade de pessoas que se coloca na direita ou na esquerda, mas a maioria da população se coloca no meio. Não tem uma preferência forte em relação a uma coisa ou outra”.

Ao contrário do que aconteceu com Dilma, os protestos de fora Temer não obtiveram sucesso porque a insatisfação da população não apresenta mais um alvo. A professora Andrea Freitas explica que essa impressão se deve pela falta de concentração no nome do presidente, porque a população generalizou a ideia de que todo político é corrupto e a chamada direita não apresenta uma alternativa de troca.

O cenário se tornou caótico quando a mídia divulgou os escândalos descobertos pela Operação Lava Jato, como o esquema de corrupção da Petrobras, desvendando políticos de todos os partidos. A população se alarmou com a quantidade de mandados de busca e apreensão, 844 segundo site da Polícia Federal, e começou a ver apenas oportunistas no governo, como mostra o vídeo em que o Repórter Unesp foi às ruas.

Analisando essas mudanças no perfil dos protestos brasileiros dos últimos anos, percebe-se a desmotivação do brasileiro em relação ao comando do país. Quando se trata de democracia, fala-se de diversidade de opiniões e projetos de sociedade, que devem ser debatidas de forma saudável. Um segundo desafio ainda é tomar um posicionamento.

Olhando o legado histórico do país e suas recentes manifestações de descrença no sistema político, é possível perceber a importância da participação consciente da política, votar pesquisando e se atentando, como alerta cientista político e professor da Universidade de Brasília (UnB), Carlos Mello Machado, em entrevista para a BBC, “Para alguns líderes políticos, é interessante que haja essa confusão [entre direita e esquerda], e que todos pareçam mais ou menos iguais. Passa a ser uma forma de se perpetuar no poder”.

Afinal, o que é direita e esquerda?

Em números, o instituto de pesquisas Datafolha declarou que 40% dos brasileiros são de direita e 41% de esquerda, uma virada em relação aos últimos anos. A pesquisa completada em julho deste ano não foi montada com a simples questão: “você se considera direita ou esquerda?”,  mas com uma série de perguntas sobre temas comportamentais e econômicos que poderiam ser colocados dentro de um espectro de ideais políticos.

Além disso, uma pesquisa feita por Latinobarômetro em 2016 mostra que uma média de 50% da população não tem nenhuma confiança em partidos políticos há pelo menos 20 anos. No fim de junho, o Datafolha divulgou o último levantamento sobre preferência partidária: 59% disseram não preferir ou se sentir representados por nenhum partido em particular.

O Espectro dos partidos

É difícil hoje definir o espectro de um partido, ainda mais tendo 35 legendas em andamento no governo, mas não é só por falta de conhecimento ou confusão. Como explica o professor Carlos Mello Machado, esta dificuldade vem do modo como o sistema político brasileiro funciona e aos políticos, que costumam subestimar o interesse do eleitor em votar. Na hora da eleição, prometem o atendimento de interesses materiais e imediatos (uma rua asfaltada, a construção de um posto de saúde) ao invés de um debate sobre objetivos de longo prazo.

Liberdade econômica vs. social

Dentro do campo da política existem os ideais de âmbito social, e os ideais econômicos. Para muitos, a direita e a esquerda se confundem nesses aspectos. É preciso separar, uma linha não dá mais conta de mensurar todo o plano. Portanto, pense em duas linhas, na horizontal a liberdade econômica e na vertical a liberdade social.

Assim, caminhar para a esquerda horizontal significa mais controle do Estado na economia, seriam as pautas de reforma agrária, projetos sociais, impostos mais altos para ricos, etc. Para a direita horizontal temos um menor controle do Estado na economia do país, com ideias de mercado livre, privatização e lucro. Para tratar de desemprego, inflação, salário mínimo, impostos, bancos e etc, falamos desta linha.

Agora, se o assunto for liberdade de expressão, educação, discriminação, família, mídia, feminismo, legalização das drogas, liberdade religiosa e entre outros, estamos em outra linha, a vertical. A linha da liberdade social é o quanto o governo controla as liberdades individuais. Quanto mais pra cima, mais controle do governo, ou seja, autoritarismo. Na ponta oposta então não temos esse controle, com o libertarismo.

A complexidade de uma definição

Juntando as duas linhas vemos que a complexidade dessa classificação é maior. Portanto, a atual polarização no Brasil não define nenhum partido, pois uma legenda de esquerda econômica pode tomar medidas de direita social, ou vice-versa. É o que tem acontecido muito no país, em que partidos têm sido acusados de mudar suas posições políticas quando na verdade estão tentando se manter no poder. Segundo a professora Freitas , “quando a gente fala que aumentou a popularização quer dizer que esse centro [da linha] está caminhando para as pontas. Na verdade, o que acontece não é isso, são as pontas que estão ficando mais radicalizadas.” Portanto, existe sim uma polarização, mas não pode ser chamada de oposição ideológica por não conter pautas claras.

Por que o brasileiro anda tão desinteressado com a política?

 

Eleitor protesta contra a corrupção em manifestação em Cuiabá que reuniu cerca de 600 pessoas em junho de 2013 (Fonte: Paulisson Miura/Reprodução Flickr)

 A bauruense Rosilene Modolo, analista de sistemas, diz não se sentir representada pelos políticos no poder. A justificativa? “Pelas atitudes deles, pelos projetos… eu sinto que é muito ausente, não atende realmente o que a gente quer”.

Rosilene enxerga que os candidatos, em época de campanha, prometem o que a maioria deseja ouvir, mas não cumprem: “Se você pegar o último programa político e o de agora não muda, é a mesma coisa”.

O eleitor ideal

Ela acredita que ainda vale a pena votar, mas descreve um eleitor ideal: “O voto deveria ser para quem realmente se preocupa com quem está elegendo, que não vende o voto e não se ilude. Tem gente que escolhe aquele que fez um slogan melhor, sem estudar”.

A advogada Edna Martins, também bauruense, concorda e vai além – ela acredita que o voto não deveria ser obrigatório: “Você tem que fazer uma coisa espontânea para que possa ter legitimidade e sabedoria naquilo que você faz”.

O poder do voto

A obrigatoriedade do voto não é a regra em muitos países: apenas 23 a mantêm hoje em dia. Em um grupo composto pelas 15 maiores economias do mundo, o Brasil seria o único a não adotar o voto facultativo. Alguns apontam que um efeito imediato disso é a elevação do índice de abstenção nas eleições. No ano passado atingiu-se os indicativos mais elevados desde 2000: cerca de 11% dos eleitores optaram por votar branco ou nulo; outros 17,6% no primeiro turno, e 21,6% no segundo turno, sequer foram votar.

A Participação política da população

A cientista política Andréa Freitas, no entanto, é a favor da manutenção da obrigatoriedade. O ideal, para ela, é que a adesão ao voto fosse espontânea, bem como que a participação popular não se restringe apenas às eleições. Porém, como essa não é a realidade do país, Andréa acredita que a facultatividade geraria uma abstenção ainda maior. No Chile, por exemplo, nas eleições de 2012, após o voto obrigatório ter sido recém-abolido, o índice de abstenção atingiu 65,1% do eleitorado.

Os defensores do voto obrigatório costumam alegar que, até que a sociedade adquira uma cultura de participação política mais ativa é necessário estimulá-la a ir às urnas. Andréa acredita que, se o voto fosse opcional, o resultado refletiria a polarização entre esquerda e direita: “O pessoal que está no meio, que modera os extremos, ía acabar não se manifestando, porque as pessoas que costumam se manifestar não são necessariamente as mais interessadas, mas são as que têm posições políticas mais fortes”.

A complexidade do sistema eleitoral brasileiro

A aquisição da cultura da participação política, no entanto, é parte de um processo longo, agravado pela complexidade do sistema eleitoral brasileiro. Nem mesmo todos os interessados por política compreendem a fundo a dinâmica de nossas eleições – o que pode contribuir para o sentimento de não representação.

Um exemplo: nem sempre seu voto vai para o candidato em quem você vota. Nas eleições legislativas (para vereador e deputado), há o quociente eleitoral: os votos são computados não individualmente, mas por legenda – partido ou coligação. A partir daí, as vagas são distribuídas proporcionalmente entre as legendas, de acordo com o número de votos que cada uma recebeu – e então as cadeiras são preenchidas pelos candidatos mais votados dentro de cada legenda.

O voto em tempos de crise

Foi esse mecanismo que possibilitou que, em 2014, o então eleito deputado federal Tiririca (PR) levasse para a Câmara outros dois candidatos do partido, que não haviam tido votações tão expressivas.  Isso porque Tiririca teve uma votação tão expressiva, que, ao ser computada como referente à legenda toda, garantiu, proporcionalmente ao quociente eleitoral calculado, três cadeiras para o PR na Câmara.

Andréa Freitas, no entanto, defende que mudar o sistema eleitoral em um momento de crise só gera mais instabilidade. Para ela, não existe sistema perfeito, mas sim mais adequado à realidade de um país. “No sistema representativo vai ter sempre um ruído, um afastamento entre eleitor e eleito, que faz com que as pessoas em geral se sintam pouco representadas”, comenta.

Os Escândalos de Corrupção

Outro fator que pesa na forma como o brasileiro se sente em relação à política são os escândalos de corrupção, principalmente referentes à Operação Lava-Jato, envolvendo grandes figuras do cenário político – frequentemente saindo impunes.  Segundo Andréa, com o aprofundamento das investigações cresce a “sensação de que todos estão envolvidos, de que todo sistema político está corroído. Se está tudo estragado, não é muito simples que a população em geral consiga apontar uma solução para a confusão.”

Só na Lava-Jato já foram expedidas mais de uma centena de condenações, às quais a sociedade brasileira vêm assistindo ao longo dos últimos anos. Uma pesquisa realizada pela GfK Verein em 2016 média a reputação de determinadas profissões em 27 grandes economias mundiais: em relação aos políticos, o Brasil ficou em último, com apenas 6% da população afirmando confiar neles. Andréa acredita que o impacto da Lava-jato ainda será sentido por um bom tempo: “Os processos relacionados aos políticos que têm foro privilegiado vão demorar 6, 8, 10 anos para serem julgados no Supremo Tribunal Federal”.

As consequências

Para ela, a consequência mais grave disso é a apatia que se abate sobre a população. Nas crises políticas, a população costuma optar por gente de fora do mundo político. “Isso não é necessariamente ruim, mas pode significar um outsider com um discurso simplista: alguém que acha que todas as soluções são fáceis e mágicas. Na verdade, trata-se de um discurso populista, para atingir as pessoas”, finaliza.

Reportagem:  Karina Francisco e Pedro Maziero

Produção Multimídia: Maiara Freitas

Edição: Bianca Moreira 

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