Cinema brasileiro é ruim? O crescimento da produção nacional e a influência estrangeira

A primeira produção cinematográfica brasileira aconteceu em 1914, muito próxima da grande explosão do cinema norte-americano após a Primeira Guerra Mundial. Entre altos e baixos, desde então o cinema brasileiro foi ganhando mais espaço e visibilidade nacional e estrangeira, mas ainda sofre com a falta de reconhecimento pela população e a indústria.

A dominação mundial de Hollywood e uma limitação na distribuição alimentam o estigma de produções fracas e sem qualidade que os filmes brasileiros recebem até hoje. Conheça a história e o desenvolvimento da indústria cinematográfica do Brasil e como o cinema americano afetou seu crescimento.

Os problemas no mercado cinematográfico brasileiro

O país sempre tentou por muitos anos fomentar o cinema através das indústrias. Buscando se voltar aos temas da modernidade, começou a ter exemplos bem-sucedidos na década de 40 através dos gêneros cômico-musicais das “chanchadas” de baixo orçamento e conteúdos banais. Nos anos 60, tentando trazer mais profundidade às produções, filmes como Deus e o diabo na terra do sol (1964) e Macunaíma (1969) foram mudando o perfil brasileiro.

A quebra nesse movimento aconteceu só nos anos 70 com a criação das “pornochanchadas”, agora com um conteúdo erótico e sexual. Essas produções acabaram contribuindo para um declínio da audiência e do potencial cinematográfico nacional, visto muitas vezes como baixo e fútil.

A crise econômica entre os anos 80 e 90 fizeram as produções decaírem ainda mais quando, no governo Collor, são fechados o Conselho Nacional de Cinema e a Embrafilmes, grandes asseguradoras dos filmes nacionais. A retomada, anos depois, traz uma luz para a produção com a criação da Agência Nacional do Cinema (Ancine) e os incentivos fiscais como a Lei Rouanet.

O que muitas pessoas não imaginam é que mesmo com a montanha russa que foi a história cinematográfica brasileira, diversos filmes receberam premiações internacionais. Conquistas em Cannes, Veneza e Berlim mostram o potencial que a nossa produção possui. Além dos eventos criados aqui como o Festival de Gramado e o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro.

O que faz o cinema brasileiro não ser assistido?

O cineasta formado pela USP de São Paulo, Rafael Dornellas, acredita que um dos grandes problemas que enfrentamos no Brasil é a distribuição precária e o pouco espaço de recepção nos cinemas. ‘’Primeiro falta mais espaço para produções nacionais nas salas de cinema, fatia que é quase inteiramente dominada apenas pela Globo Filmes e por produções internacionais. Com isso grande parte dos filmes brasileiros ficam relegados ao circuito de festivais de cinema pelo Brasil e pelo mundo, fazendo com que sua exibição e seu público permaneçam restritos” comentou Dornellas. Confira no audiocast abaixo o depoimento completo de Dornellas sobre o assunto.

Além do pouco interesse em receber essas produções, a dificuldade de expansão do cinema se dá também pelo o grande domínio da produtora Globo Filmes que, segundo Dornellas, explora o bem aceitado gênero da comédia. Os filmes de entretenimento que foram chamados nos Estados Unidos de “blockbusters”, atingem um público maior por serem fáceis de serem consumidos. No Brasil, não poderia ser diferente. Dos 10 filmes com mais audiência no país, segundo a Ancine, cinco são desse gênero.

Outro fator a ser considerado também, é a idolatria do povo brasileiro por tudo o que é estrangeiro. A sociedade sempre viu, principalmente os Estados Unidos, como uma potência tecnológica em todas as suas áreas. O crescimento de Hollywood acabou também atingindo de maneira fácil o gosto da nossa sociedade que permanece até hoje.

A influência americana

Com a globalização e os Estados Unidos tornando-se padrão mundial, sua cultura e seus produtos cada dia mais se transformam em parâmetros de diversas áreas, e no cinema não foi diferente.

E isso é natural. Basta lembrar os costumes europeus disseminados no Brasil durante séculos, para vermos como a influência estrangeira atinge os padrões brasileiros, diz Max Valarezo do canal Entre Planos, do no Youtube.

De acordo com o crítico, a visão mercantilista dos Estados Unidos que fez com que estabelecesse tão cedo a indústria do cinema americano, além de ter se tornado uma potencia mundial após a Segunda Guerra Mundial.

Além disso, outro fator importante do poder americano é que o “manual cinematográfico” nasceu lá. Movimentos de câmeras, montagens, close-ups e toda forma de criar e contar histórias na telona nasceu no modelo Hollywoodiano. Logo, sua presença nas salas de cinema do mundo todo é natural.

Consequentemente, “a cultura americana recebe muita atenção e prestígio em todos os países, juntando isso ao fato de uma enorme parte dos filmes mais aclamados e populares da história serem desse país, você cria um cenário em que cineastas do mundo todo vão buscar inspiração no modo americano de se fazer cinema”, completou Max.

Entende-se que, a questão não é qualidade do cinema brasileiro, mas o grande poder de influência do americano no Brasil, que faz com que as produções nacionais possuam menos espaço.

É essencial para o cinema americano o sucesso nas bilheterias do mundo todo, por isso, esse sistema é alimentado e o espaço brasileiro sofre para ser conquistado.

 

Texto: Ana Luisa Agostinho e Mariana Mesquita

Produção multimídia: Michel Amâncio

Edição: Victor Moura

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