A onda de ódio atinge a qualquer um, inclusive no meio cibernético

Como a disseminação do ódio relacionada a intolerância contribui para violência na vida real e na internet

Ódio, do Latim odium. Segundo o dicionário Houaiss, significa raiva e rancor. Nessa pequena palavra, porém, não cabem todos significados que estão abarcados em nossa cultura. O ódio não está relacionado somente à violência física, mas também à verbal. Mais recentemente, através da internet, popularizou-se a expressão “discurso de ódio“, quando os limites da liberdade de expressão são ultrapassados, causando incitação e discriminação, geralmente, direcionado a minorias.

“Expus minha opinião num comentário em uma página de portal de notícias do Facebook e recebi xingamentos ofensas, e até ameaças. Depois disso, tomo muito cuidado com o que digito, pois a internet é um ambiente tóxico, cheio de gente ruim”, relata Flávia*.

O depoimento de Flávia* é mais comum do que se imagina. Segundo dados do site da Safernet, organização não governamental que trabalha em prol dos Direitos Humanos na Internet, são mais de 3,8 milhões de denúncias contabilizadas desde 2006, incluindo temas como “apologia e incitação de crimes contra a vida”, “racismo” e “intolerância religiosa”. Essas ofensas agressivas e violentas são consideradas crime, segundo a Constituição.

Os limites do “hate speech”, ou discurso de ódio, são ultrapassados quando incita violência ou ação discriminatória (Fonte: Pixabay. CC0 Creative Commons. Grátis para uso comercial, atribuição não requerida)

Quando as ofensas se tornam comentários de ódio virtuais: o que está por trás?

No Brasil, figuras polêmicas como o político Jair Bolsonaro têm adquirido consideráveis seguidores. O discurso fascista mascarado pela defesa do liberalismo se mostra cada vez mais presente em nossa sociedade ocidental.  A ascensão deste discurso intolerante está relacionada, segundo o professor, jornalista e militante dos direitos humanos e LGBT Julian Rodrigues, em seu artigo para Revista Fórum, a combinação  da “defesa radical dos interesses do mercado com a propagação de ideias reacionárias, moralistas, misóginas, racistas, homofóbicas, transfóbicas, discriminatórias, anticomunistas (e anti qualquer coisa que soe progressista).”

 A professora e doutora Thaísa Bueno, em seu artigo “Um panorama dos estudos científicos sobre comentários de leitores”, discorre sobre a polêmica do ato que faz parte da cultura participativa, iniciando a discussão e indagando a real necessidade dos comentários de leitores nos veículos jornalísticos da web.

Segundo Thaísa, entre as motivações que fazem as pessoas comentarem ódio, principalmente em portais de notícias, está a “sensação de distanciamento que a máquina oferece faz com que o internauta sinta-se encorajado a expor suas opiniões de maneira mais agressiva.”

Diferença entre ao vivo e virtual

A professora afirma que pessoalmente uma pessoa não faria isso, porque enfrentaria o outro e isso força um controle de comportamento. No entanto, na internet as pessoas não se sentem entrelaçado com o interlocutor, não têm compromisso com ele ou com sua resposta dele.  Além disso, na opinião da professora, “os comentários de leitores escancaram uma dura realidade nacional que é o nosso baixo nível educacional, seja pela incapacidade, como se vê, de promover um debate consistente ou mesmo de construir um raciocínio argumentativo, restando nesse sentido apenas partir para a agressão.

Por fim, também percebo que o próprio algoritmo acaba por ajudar nessa polarização, já que podemos selecionar só seguir quem compartilha da minha opinião, quem me aprova. Isso é um germe de intolerância.”, relata Thaisa Bueno.

Sobre a regulação de comentários que alguns portais de notícia tem aderido, Thaisa considera uma questão controversa. “(…) a regulação, embora muitas vezes pareça um mal necessário diante de tanta barbaridade, por outro inviabiliza também a própria dinâmica do comentários, que é mais instantânea.”

Os crimes

 

Como se defender?

 Qualquer pessoa pode se tornar um aliado no combate aos crimes de ódio. A Internet não é uma “terra sem leis”.

Criamos um quiz que busca esclarecer dúvidas acerca das atitudes que vítimas podem tomar quando atacadas:

Veja também: O conceito de Comunicação Não-Violenta como forma de combater as ondas de ódio

*O nome foi alterado a fim de preservar a identidade da fonte.

Reportagem:  Mariane Tognoli Arantes

Produção Multimídia: Lívia Reginato

Edição: Sofia Hermoso

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