Maternidade compulsória e a escolha da mulher

O conceito retrata o exercício de ser mãe como uma cobrança social

Ao longo da vida de uma mulher, a maternidade é pautada inúmeras vezes, nas mais diversas idades e classes sociais. A construção social feminina inclui, entre diversos predicados, a probabilidade da gravidez e da maternidade. Desde brincar com bonecas até ouvir indagações como “quando vai chegar meu netinho?”, mulheres crescem convivendo com a ideia de maternar, às vezes sem sequer refletir se é isso mesmo que querem. Muitas mulheres têm filhos porque é a “ordem natural das coisas”, como é costumeiro ouvir, mas nem mesmo cogitaram a possibilidade de uma vida sem eles. Com movimentos sociais de mulheres, esse cenário recentemente ganhou o nome de “maternidade compulsória”: compulsória pois, nesta visão, ser mãe seria como algo obrigatório, forçado pela sociedade, e não necessariamente a vontade genuína da mulher.

A socialização feminina faz com que a maioria das mulheres deseje a maternidade: segundo uma pesquisa feita pelo Repórter Unesp com 1537 mulheres*, a maior parte das entrevistadas (54,7%) tem vontade de ser mãe, o que absolutamente não é errado ou retrógrado. Mas em uma sociedade que trata mulheres sem filhos como insensíveis,  frígidas e incompletas, a reflexão é indispensável. Instituir a maternidade a toda mulher torna-se uma violência simbólica e interfere na liberdade de escolha individual.

Dever de ter filhos

Após se firmarem em relações estáveis ou casamentos, mulheres, especialmente as heterossexuais, são frequentemente indagadas sobre filhos, mesmo quando afirmam não querer a maternidade. Do mesmo modo, mulheres em idade fértil que desejam fazer laqueadura (ligamento das trompas para evitar a gravidez) são questionadas excessivamente por seus médicos, como se não devessem fazer um processo contraceptivo permanente, pois “em algum momento podem desejar filhos”. A professora de Química e blogueira Ana Eufrázio explica que “historicamente a maternidade é tratada como uma dádiva, uma benção. Enquanto dádiva torna-se socialmente inaceitável questionar os dogmas envolvidos nesse processo”.

Nos brinquedos para meninas, bonecas em menção ao papel social de mãe. Nos brinquedos para meninos, nenhuma menção à paternidade.

Contudo, é essencial lembrar que o nascimento de um indivíduo é uma mudança drástica na vida de quem é responsável por ele, especialmente na da mãe, que é mais cobrada pela sociedade. Eufrázio afirma: “A maternidade compulsória, na maioria dos casos, impede que a mulher possa dar continuidade aos seus planos, tanto da vida pessoal como profissional. A existência de um filho não desejado ou planejado pode se converter num fardo que a mulher tem de carregar, quase sempre sozinha”.

A “vocação”

Existe o senso comum de que a mulher possui um “dom natural” para lidar com crianças e exercer a maternidade, mas há quem questione essa afirmação. Apesar da quantidade de mulheres que deseja ter filhos, é possível afirmar que existe uma vocação para maternar? Todas as mulheres a possuem? A estudante de moda, Isabel Ribeiro, nega essa ideia: “Eu sempre tive uma rejeição muito grande a gestação, passo mal só de alguém narrar um parto bem por cima, não consigo encostar em barriga de mulher grávida. Então talvez existam fatores que não são só ‘ter um filho é caro’ ou ‘queria priorizar minha carreira’; para mim envolve uma falta de dom, de vontade de usar meu corpo para isso”.

A filósofa francesa Elisabeth Badinter também defende que não há vocação. Em seu livro “Um amor conquistado – O mito do amor materno”, de 1981, a autora defende que o “amor materno” fora criado para assegurar a sobrevivência dos descendentes; não se trataria de um “instinto” porque o afeto surgiria conforme a convivência e, portanto, seria conquistado – semelhante ao que ocorre na paternidade. Na mesma linha, a assistente pedagógica Fran Ruiz coloca a “vocação pela maternidade” como um fator cultural: “Ainda temos na sociedade uma visão comum que a mulher foi feita para ser mãe, nasceu com este dom, tem o senso materno e que um filho traz ao casal um resgate do amor e pode salvar casamentos e relacionamentos.”.

Na pesquisa feita pelo Repórter Unesp, ao serem indagadas sobre se a maternidade é o que torna uma mulher realizada, 76,8% das entrevistadas disseram que não. A diarista Maria Bernadete de Campos é casada, sem filhos, e afirma que não ser mãe foi opção e que é feliz sem eles. A educadora Luiza Silva, que não se casou, também se sente realizada sem ter exercido a maternidade, mas reconhece a pressão da sociedade sobre as mulheres que não desejam ser mães.

Ainda, muitas mulheres não se satisfazem plenamente após a maternidade. No início de 2016, a corrente virtual “Desafio da maternidade” se popularizou nas redes sociais e propunha que mães compartilhassem fotos que representassem a maternidade e o amor pelos filhos. Algumas usuárias, incomodadas com o desafio, desabafaram nas redes e propuseram a campanha “maternidade real”, em que expunham as dificuldades de ser mãe, como a jornada dupla de trabalho, a ausência paterna, a depressão pós-parto e o julgamento da sociedade.

Autonomia sobre o corpo

Após o início da maternidade, por gravidez ou adoção, a vida da mulher muda completamente. Tendo ela escolhido ou não (no caso de uma gravidez indesejada), a transformação que ocorre após a chegada de um filho é longa e intensa. Em casos de gestação não planejada, em que a mulher é coagida a ter o bebê, o caso é ainda mais grave. Fran Ruiz afirma que “quando a maternidade é imposta às mulheres, elas perdem o direito e autonomia de escolha sobre sua vida e o próprio corpo”.  

Nesse campo, a negação ao aborto e sua criminalização também coagem mulheres a serem mães contra sua vontade, em uma espécie de punição. Frases como “agora vai ter de criar” e “ninguém mandou não se cuidar” destinadas a gestantes denotam não a preocupação com o futuro indivíduo, mas sim uma punição à mulher com vida sexual. Essa cobrança é comumente feita às mulheres, enquanto aos homens é comum a compreensão. Ruiz pontua: “É sabido que quando a mulher é mãe, sua vida praticamente para a fim de que ela possa cuidar do filho, já que a participação do homem nesse processo, também sabido, é bem abaixo do esperado”. Pouco se fala sobre o papel paterno, o que reflete nos dados: segundo o censo de 2013 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, o Brasil tem 5,5 milhões de crianças sem pai no registro.

A discussão na sociedade

Com as singelas mudanças recentes em relação à igualdade de gênero e aos direitos da mulher, o modo como a maternidade acontece também tem sido questionado. A ideia não é demonizar a maternidade ou os filhos, mas sim repensar como ela ocorre atualmente, para que o exercício de ser mãe e o desenvolvimento das crianças ocorram de maneira mais saudável. Ana Eufrázio sugere a criação de espaços para a discussão sobre a maternidade: “É preciso que nesses espaços, principalmente na mídia, as mães tenham voz e possam falar livremente sobre as dificuldades que vivenciam com a maternidade, sobre o lado negativo de ser mãe, sobre as limitações que a maternidade traz e que possam fazer isso sem o risco de serem julgadas como mães ruins”.

A educação voltada para a reflexão da mulher sobre seus papéis sociais também é de profunda relevância. Eufrázio finaliza: “É importante que a sociedade entenda e aceite que nem toda mulher quer ser mãe, tem talento, tem paciência ou condições materiais de maternar e que o direito de escolha das mulheres sobre os processos biológicos femininos deve ser imperativo”.

*A pesquisa foi realizada pelo meio virtual, portanto ressalta-se que é um grupo mais restrito em relação a classe social e escolaridade.

Reportagem: Helena Botelho

Produtor multimídia: Yuri Ferreira

Editor: Lucas Marques

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