OPINIÃO | Dia das mães: uma tradição que se recusa a mudar

Ilustração: Constanza Mena

“Mãe é uma só”, “ Não existe no mundo amor maior que o amor de uma mãe por seus filhos”. Essas são algumas das frases típicas de qualquer cartão ou anúncio publicitário de lojas na época do dia das mães.

Um dia para premiar a mulher que nos dá a vida, para mimar a rainha da casa e retribuir o sacrifício que elas fazem dia a dia por sua família. De quê forma? Com cremes rejuvenescedores, telefones celulares, secadores de cabelo, um lindo vestido, maquiagem e o indispensável café da manhã, como sempre aparece na TV.

O dia das mães é realmente um momento para comemorá-las? Ou é apenas um pretexto a mais que do qual o comércio se aproveita para nos vender itens em quantidades excessivas? Outra data para reproduzir anúncios cheios de estereótipos e funções domésticas, nos quais a mãe é representada como uma super heroína que mistura perfeitamente as funções de dona de casa, boa esposa e trabalhadora?

Não existe um feito específico que dá origem a tradição de comemoração do dia das mães. Pode-se dizer que foi em 1914 quando o presidente dos Estados Unidos, Woodrow Wilson, assinou a proclamação que estabelece o 10 de maio como dia das mães – uma resposta à demanda de coletivos femininos da época. Mas a tradição já existia. No quarto domingo de quaresma se festejava a “igreja mãe”, o lugar onde a pessoa foi batizada. A data era aproveitada pela classe trabalhadora para visitar suas mães, levar presentes e se reunir em família. Porém, há mais tempo civilizações como a egípcia,  grega e romana faziam homenagens a deusas como Isis, Cibeles, Rea, todas divindades que simbolizavam a maternidade.

Com o passar do tempo muitas coisas mudaram. Festividades religiosas como o Natal e a Páscoa agora são comemoradas até por quem não acredita em Deus. E hoje a mãe não é a mesma de uns anos atrás. Em primeiro lugar, na atualidade ser mãe não é mais sinônimo de ser esposa, nem dona de casa. Não significa ter que postergar os sonhos para criar os filhos e não quer dizer que deve-se ter uma vida de sacrifícios. E não foi só isso que mudou:  o conceito de família clássico, de pai, mãe e filhos não é o mesmo. Hoje em dia existem as famílias monoparentais e as famílias integradas por diversos membros, não necessariamente consanguíneos. Tempos atrás, ser mãe solteira significava ser discriminada socialmente, a existência dos pais solteiros era praticamente  inimaginável e o divórcio era um tema sobre o qual se preferia não falar. Se olharmos ao nosso redor, queira ou não, as coisas não são iguais a antes. Mas será que o dia das mães que conhecemos representa essa mudança?

Há dois anos, em meu país, Chile, passaram na TV um anúncio de uma loja  que mostrava  diferentes situações de descontrole que sofrem as mães: em uma parte  se  apresenta uma mulher gritando com seus filhos, em outra uma mãe despenteada e desarrumada fazendo o almoço desordenando os uniformes escolares. Na última cena, uma mulher coloca seu bebê para dormir, olhando com cara de ódio ao seu marido que dorme um sono relaxado. Ao fim do comercial, uma voz entoa a seguinte frase:  “Entretanto, para mim sempre vai ser a mãe mais linda. Feliz dia, mãe”.

A mensagem não é muito profunda, mas senti que a pessoa representada era minha mãe.  Não a mulher dos anúncios de limpeza onde ela era feliz passando um pano no chão. Nem aquela que acorda sempre linda e com um sorriso para me deixar na escola. Minha mãe era aquela que muitas vezes não gostava de fazer as coisas da casa, que ficava cansada e exigia mais ajuda a meu pai. Não por isso ela é menos amada ou ela é menos mãe.

A televisão está cheia de estereótipos e a publicidade  também, mas isso não quer dizer que eles estão corretos. Não quer dizer que a gente tem que acreditar ou aceitar isso, dizer só uma vez por um ano um obrigado a nossas mães e dar um presente para elas.

Nós não precisamos de mais mulheres frustradas por pensar que não são boas mães, por quererem se livrar de algumas tarefas que lhes são impostas para que consigam alcançar seus sonhos. Tampouco precisamos que mais crianças cresçam pensando que não são normais por não terem mãe ou então não terem a mãe que é representada nesta data.  As coisas tem que  mudar: o conceito da festividade e o que os meios representam estão distorcidos. No entanto, acredito que a responsabilidade para que isso não aconteça também seja nossa.

Reportagem: Barbara Ramirez

Editora: Bárbara Paro

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *