Paradas LGBT: como as mobilizações são importantes para o movimento

Encontros celebram o orgulho LGBT e carregam o objetivo de trazer visibilidade a esse grupo

Se quiser, leia a matéria ouvindo a playlist acima, que reúne artistas da comunidade LGBT brasileira. 

Em todo o mundo, a população LGBT enfrenta adversidades em todos os âmbitos da vida. Entre elas, é possível citar a falta de representatividade na mídia. Há também a representação estigmatizada – tanto no entretenimento, quanto no jornalismo. Além disso, ainda existe disseminação de discursos de ódio, práticas LGBTfóbicas e as situações de violência e risco em que muitos LGBTs vivem. A realidade é de uma necessidade de luta constante pelos seus direitos.

De acordo com dados divulgados pelo​ Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos em 2016, mas referentes ao ano de 2013, ao menos cinco casos de violência contra LGBTs são registrados por dia no Brasil. O relatório também mostra que 53,1% das vítimas são gays, 26,2% são travestis, 13,6% não tiveram a identidade sexual informada, 6,2% são lésbicas e 0,9% são transexuais.

Na mídia em geral, expressões que generalizam pessoas LGBT são encontradas no discurso de grandes veículos. Em sua tese de doutorado, Iran Ferreira de Melo, professor da Faculdade ​de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, analisou notícias de exemplares da Folha de S. Paulo que abordam as Paradas LGBT. Ele identificou nos textos diversos elementos que retratam os indivíduos de forma genérica e caricata. As palavras e expressões se referem a eles como se cada um não tivesse sua própria personalidade.

No ambiente político, por sua vez, as reivindicações da comunidade LGBT precisam ultrapassar obstáculos, já que ainda enfrentam resistência. A resolução do Conselho Nacional de Justiça de 2013, por exemplo, que determinava que cartórios deveriam reconhecer união estável entre casais homoafetivos, causou polêmica e até mesmo a recusa de alguns cartórios em cumprir a decisão. 

O movimento LGBT

Para combater a homofobia e lutar pela garantia de seus direitos, a comunidade LGBT se uniu em uma militância social a partir dos eventos ocorridos na Revolta de Stonewall. Em 28 de junho de 1969, gays, lésbicas e transgêneros de Nova Iorque se rebelaram no bar Stonewall Inn contra a violência policial que eles sofriam diariamente.

A rebelião se estendeu ao longo de três dias, envolvendo confrontos físicos onde tanto manifestantes quanto agentes policiais saíram feridos. Desde então, no aniversário da Revolta de Stonewall é comemorado o Dia do Orgulho LGBT e nos dias próximos à data são organizadas diversas mobilizações para lembrar os acontecimentos da revolta. 

Stonewall Inn virou um símbolo para o movimento LGBT

Stonewall Inn no fim de semana do Orgulho LGBT de 2016, com tributos aos mortos no tiroteio da boate Pulse, em Orlando. (Rhododendrites/Wikimedia Commons) (CC BY-SA 4.0)

Foi a partir daí que as primeiras Paradas LGBT começaram a surgir ao redor do mundo. Com esses movimentos e com constante luta, logo vieram as primeiras vitórias. Em maio de 1990, por exemplo, a Organização Mundial de Saúde (OMS) retirou a homossexualidade da lista internacional de doenças. Nos anos seguintes, passou-se a aceitar a união estável entre casais homoafetivos em alguns países. 

As paradas LGBT

Após as primeiras mobilizações em cenário internacional, veio a ser organizada a primeira Parada do Orgulho GLT (gays, lésbicas e travestis) em São Paulo, em 1997. O movimento ainda não adotava uma sigla comum para representar a diversidade nesta época.

Mais tarde, o evento viria a ser renomeado para incluir bissexuais e transgêneros. Já nos últimos anos, o evento tomou grandes proporções, se tornando a maior Parada LGBT do mundo e trazendo milhares de turistas para a cidade de São Paulo todos os anos. 

Para LGBT em São Paulo

Parada do Orgulho LGBT de São Paulo se tornou uma das maiores do mundo.  (Mikaele Teodoro/SPressoSP/flickr.com) (CC BY 2.0)

Segundo a assessoria de imprensa da Associação da Parada do Orgulho LGBT (APOGLBT), responsável pelo evento, até mesmo a gestão municipal da cidade tem ajudado na organização. Devido ao tamanho do evento, a prefeitura ajuda com gradeamento, iluminação, palco e banheiros químicos. A assessoria ressalta que a APOGLBT não se sustenta sozinha e precisa de parcerias e patrocínios para organizar seus eventos. 

Controvérsias

Ainda segundo a assessoria da APOGLBT, as Paradas receberam algumas críticas por terem assumido um novo papel dentro do movimento LGBT: o de cada vez mais ser uma celebração do orgulho de sua população. Para os críticos, isso estaria transformando a Parada em um “carnaval fora de época”. Segundo eles, isso a faria perder o foco da luta por direitos.

Luiz Carlos Filho, membro do FEB Pride (coletivo LGBT da Faculdade de Engenharia da Unesp Bauru), explica que a Parada sempre teve um cunho de luta por direitos e comenta sobre o caráter festivo que elas passaram a ter atualmente no vídeo abaixo.

Ele ainda fala sobre sua própria experiência com as paradas LGBT. 

 

“Foi o primeiro momento em que eu consegui olhar e ver que tinham outros gays, outras pessoas LGBT; meu primeiro contato com travestis e com pessoas trans foi lá [na Parada]” 

Luiz Carlos Filho

As Paradas LGBT têm mudado de tom nos últimos anos, assumindo um caráter mais lúdico e alegre. Luiz concorda que deve-se buscar retomar alguns dos valores mais antigos que acabaram sendo deixados de lado. “A Parada tem essa importância de dar visibilidade e trazer o aspecto de uma diferença que muita gente não percebe ou não quer enxergar durante o dia a dia, mas hoje está longe muito de ter aquele caráter revolucionário e de mudança que tinha inicialmente”, afirma. 

 

Reportagem: Lucas Ferreira

Produção Multimídia: Ana Flávia Cézar

Edição: Heloísa Scognamiglio

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *