A imagem da mulher na indústria pornográfica

Sempre arrumadas e dispostas: essa é a falsa ideia que os filmes querem passar, encobrindo as dores e ameaças vividas por essas mulheres

Por mais atual que pareça, a indústria dos filmes pornôs começou há muito tempo, em 1896. As produções receberam nome de “stags films” (em tradução livre, “filme para rapazes”) e eram filmadas na França, Estados Unidos e Argentina, primeiros pólos mundiais desse tipo de produção. Esses duravam entre 7 e 15 minutos e consistiam em homens encontrando mulheres em situações muito parecidas com o que filmam atualmente, com homens realizando algum tipo de serviço na casa da mulher, que estava esperando com vestes sensuais e toda a ação se desenvolvida após o encontro.

Em 1972, o filme “Deep Throat” (br: “Garganta profunda”) teve um grande sucesso comercial, arrecadando 600 milhões de dólares e dando grande fama para a atriz principal, Linda Lovelace. Foi a partir desse filme que as atrizes passaram a serem consideradas celebridades e tratadas como tais, com altos cachês e acesso a eventos.

Atualmente, essa indústria continua crescendo e arrecadando bilhões de dólares por ano, e apesar do glamour e dos salários atrativos, existem grandes polêmicas por trás das cenas. As atrizes são muitas vezes abusadas e sofrem inúmeras consequências dentro e fora do set graças a sua profissão. Nem todas as mulheres que trabalham com isso amam o que fazem, querem estar ali ou tem opções.

Natália Soares, formada em ciências sociais e pesquisadora na área de femininos e pornografia, explica que essas mulheres não possuem agências, então não há quem cuide delas ou de suas carreiras. “Acredito que a pornografia ajuda a estabelecer a ideia de que homens são os sujeitos e as mulheres seus objetos. As atrizes são descartadas ou substituídas com mais frequência que os atores e as violências que elas vivem são diversas.”

A socióloga ainda explica que, embora algumas atrizes tenham conquistado reconhecimento, elas não são tratadas com respeito ou como quem exerce qualquer outra profissão, dentro e fora das telas. “Drogas e álcool são coisas comuns dentro dos estúdios, já que muitas atrizes afirmam ser muito difícil enfrentar as cenas enquanto sóbrias. Esse é um dos fatores pelo qual as mulheres nos filmes sempre aparecem felizes e receptivas, mesmo em cenas de dor.”

Os abusos sofridos 

Em geral, os filmes pornográficos propagam a ideia de uma mulher irreal. Sempre disponível para transar, com vontade, interessadas em tentar coisas novas (mesmo que nunca seja perguntada se gostaria), com lingeries ousadas e sempre submissa as vontades do homem. Os papéis interpretados pelas atrizes são degradantes, humilhantes e não contemplam ou refletem os gostos da mulher real e suas vontades. Em cena, mesmo com contratos e acordos, as atrizes são surpreendidas com violências não discutidas, com atos que as machucam e envergonham.


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Shelley Lubben, fundadora da Pink Coss Foundation nos Estados Unidos, é uma ex-atriz do ramo e sua organização de caridade pública é dedicada a conceder apoio emocional e financeiro aos trabalhadores da indústria. Em seus discursos, ela explica que as mulheres nem sempre tem escolha de entrar nessa indústria, já que muitas vezes são coagidas pelos namorados ou obrigadas pela falta de condições de se sustentar, já que nesse ramo é possível conseguir altos valores.

Além dos abusos psicológicos sofridos, diferentes violências físicas acontecem nessa indústria, assim como a transmissão de doenças sexualmente transmissíveis (DST). Embora exista um sistema de controle que submeta os atores a testes e HIV nesse meio muitas outras doenças escapam desse teste e contaminam os participantes.

A cidade de Los Angeles, nos EUA, é a capital mundial do cinema erótico, por isso se mantém atenta aos dados de DSTs que ocorrem no local. De acordo com o Departamento de Saúde Pública de Los Angeles, existem milhares de casos de clamídia, a DST mais comum no país. Outras doenças são muito recorrentes entre os atores, assim como a gonorreia e herpes, por isso em 2012 o estado criou a lei que obrigava o uso de preservativos na indústria pornográfica, que acabou sendo revogada em fevereiro deste ano, após a medida ter afastado cerca de 90% da produção da cidade.

Créditos: Lucas Rubio

Fora das telas

Apesar do que é mostrado nos vídeos, a mulher representada nos filmes não representa a mulher da vida real, não representa seus gostos, suas atitudes e muito menos o que acontece de verdade na cama.

Uma pesquisa realizada pela equipe de reportagem do Repórter Unesp entrevistou 201 mulheres sobre seus hábitos pessoais, a fim de constatar as diferenças e possíveis semelhanças entre o que acontece dentro e fora das telas.

A pesquisa constatou que, diferente do que é mostrado nos filmes pornôs, apenas 25,4% das entrevistadas usa lingeries sensuais na hora da transa e apenas 12,4% dessas já usou fantasias. Além disso, a pesquisa mostra que 77,1% dessas mulheres não está sempre com vontade de fazer sexo na mesma hora que os seus parceiros.

Crédito: Izabella Miranda

Muitos relacionamentos pessoais podem ser prejudicados pelas ideias erradas transmitidas pelos filmes, já que propagam “relacionamentos” que nem sempre se aplicam a vida real e ao que um relacionamento necessita. Algumas pessoas acabam influenciadas por essa indústria, tentam colocar o que assistem na prática e acabam prejudicando os laços que possuem, já que as mulheres não são o que os filmes reproduzem e o papel do homem está longe de ser apenas o que é mostrado.

Os filmes pornográficos criam também um ideal de corpo entre homens e mulheres, que acabam frustrados por não serem como o que é mostrado. Outra ideia colocada erroneamente é sobre o ato sexual em si, decepcionando novamente os telespectadores quando estes não conseguem reproduzir aquilo na vida real ou porque a mulher não segue aquilo que sempre foi mostrado. É preciso saber diferenciar entretenimento e realidade para que um não interfira no outro, evitando assim problemas gerado pelo imaginário da industria pornográfica.

Reportagem: Izabella Pietro

Produção Multimídia: Lucas Ayres

Edição: Alexandre Wolf

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