Pelo espaço público de Bauru: os trabalhadores têm muitas histórias para contar

Ezequiel e Creusa são trabalhadores do espaço público. Transportando pessoas ou cuidando da limpeza da rodoviária, cada um fala sobre as dores e belezas das suas profissões

Diariamente eles passam por diversos estudantes que têm Bauru como seu lar universitário. Ezequiel (43 anos) é motorista de ônibus e faz a linha Campus/CTI, que deixa e recolhe passageiros na Universidade Estadual Paulista (Unesp). Já Creusa (50 anos) trabalha na seção de limpeza do Terminal Rodoviário de Bauru há dois anos. Mas quantos passageiros conhecem as histórias que há por trás desses trabalhadores? Ezequiel abre um sorriso logo que solicitamos a entrevista: “Claro, respondo quantas perguntas você quiser”. Creusa mantém o sorriso sempre que discorre sobre seu emprego atual: “Estou muito feliz, não tenho do que reclamar”.

Ezequiel começou nas estradas a vida de motorista, como caminhoneiro quando ainda era menor de idade. “Sempre tive paixão por ser motorista. A oportunidade surgiu porque meus tios já tinham caminhão, eles trabalhavam com isso”, conta. As viagens e os longos dias longe de casa foram deixados de lado há um ano, quando Ezequiel começou a transportar pessoas pelas ruas de Bauru: “A mudança foi muito boa. Lidar com o público é bom, melhor do que ficar 40 dias fora, passando dificuldades na estrada”.

O motorista não tem dúvida que a melhor parte do seu trabalho é poder transportar os passageiros.  Se a profissão é reconhecida, ele já não tem tanta certeza: “Poucas pessoas valorizam os motoristas do transporte coletivo, e isso eu digo em nome de todos que trabalham em ônibus circular. Ninguém é obrigado a cumprimentar e dar bom dia, mas tem gente que entra e nem olha para a sua cara, parece que não tem ninguém sentado ali”.

Ele ressalta como simples gestos de educação fazem a diferença. “Os estudantes costumam ser mais educados com a gente. Com educação você consegue tudo. Se a pessoa entra e te fala ‘bom dia’ o seu dia já é outra coisa, senão a gente fica constrangido, parece que você é uma pessoa insignificante ali”, diz.

“É um serviço muito gratificante”

Creusa, a senhora que trabalha no terminal rodoviário, também conta que o seu ambiente de trabalho era outro. Ela trabalhava nas ruas como gari, mas pediu transferência para tentar aumentar a sua qualidade de vida. “Prestei concurso público para gari em 2007 e fui chamada depois de quase dois anos, mas era muito sofrido por causa do sol quente e da dificuldade para tomar água e usar o banheiro. A gente pedia nas lojas, mas tinha lugar que negava porque o banheiro era só para os funcionários.”, conta.

Além desses problemas, ela ainda tinha que lidar com a falta de educação das pessoas: “Na rua, o tratamento que a gente recebe é bem diferente. Às vezes a gente estava varrendo e jogavam lixo no nosso pé, falavam que era a nossa obrigação varrer. Era bem humilhante. Você precisa ver a diferença de tratamento trabalhando no terminal e na rua”. Mesmo com as dificuldades, Creusa diz que a sua vida mudou para melhor depois que se tornou funcionária pública. Ela valoriza e reconhece a importância do seu trabalho.  “É um serviço muito gratificante. A nossa chefia valoriza bastante a gente e algumas pessoas percebo que também. Se não é a gente limpando, como é que fica? Fica tudo sujo?”, questiona.

Sobre o local de trabalho atual, Creusa só tem coisas boas para dizer: “Na rodoviária eu fico solta, vou para cá e para lá. A gente dá manutenção no banheiro, varre, lava, faz um pouco de cada coisa. Eu gosto.  Aqui a gente fica na sombra e tem água fresca e banheiro na hora que precisar. A relação com os passageiros do terminal também é tudo de bom.”

A única hora que Creusa lamenta é quando fala que gostaria de estudar mais: “Assim eu poderia dar mais de mim aqui, porque tenho poucos estudos. Mas mesmo assim estou me saindo bem”. Apesar disso, ela não deixa de reforçar a sua satisfação e gratidão pela profissão. “Agradeço todo dia pelo meu trabalho. Tenho três filhos, quatro netos e graças a Deus sou feliz”.

Reportagem: Laiza Castanhari

Produção multimídia: Jhony Borges

Edição: Letícia De Maceno

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