A redescoberta do Brasil

Estudantes africanos vivem experiências acadêmicas permeadas pelas dificuldades impostas pelo racismo institucionalizado em universidades públicas brasileiras

Na África nasceram as primeiras civilizações, filosofias e culturas. Foi a partir do imenso território africano que a espécie humana se espalhou pelo planeta. Apesar disso, pouco aprendemos sobre a história africana em nosso país. Todo o passado glorioso do povo preto foi encoberto pela mancha de sangue, ódio e exploração nomeada pelos europeus como colonização. Essa cicatriz deixada pelo período colonial ainda hoje dói e se faz lembrar na forma de  intenso preconceito e estereotipação direcionados aos povos africanos, apesar de boa parte da população brasileira ainda acreditar no mito da democracia racial.

Hoje, mais de 120 anos depois da abolição da escravatura e apesar da população brasileira ser composta por 51% de negros, eles ainda encontram dificuldades para ocupar alguns espaços, como as universidades públicas. O número de universitários pretos corresponde a 2,4% do total de alunos das instituições de ensino superior federais e estaduais. Inseridos neste percentual, estão dois africanos que enxergaram no Brasil boas oportunidades de estudos: Nelson Mucanze, de Moçambique, e Eduardo Alexandrina Essien, de Angola.

“Encontrei um país muito diferente daquele que eu imaginava. Uma nação cheia de desigualdades” diz Nelson Mucanze, intercambista angolano. O mito da democracia racial vela o preconceito no Brasil.

Pelas boas referências recebidas de seu tio que já havia estudado no Brasil, Eduardo Essien saiu de Luanda decidido a realizar seu sonho de tornar-se um Engenheiro Químico do outro lado do Atlântico. Ao desembarcar, no entanto, a realidade que encontrou não foi a esperada. “Houve diferença entre o que eu imaginava e o real. Na TV, nos passam a ideia de que as pessoas são tratadas iguais, sem distinção da cor da pele. Também mostram que tem violência por toda parte. Percebi que existem, sim, separações por cor da pele e esta violência de que falam, em qualquer parte do mundo tem” diz Essien.

Por aqui, o estudante angolano enfrentou dificuldades devido ao racismo institucionalizado e surpreendeu-se com a imagem transmitida sobre a África. “Outra coisa que percebi é que a mídia sempre desvaloriza a imagem da África, para que os negros brasileiros tenham vergonha das suas origens, e nunca reportam sobre coisas boas que os africanos fazem” ressalta. Segundo Eduardo, esta vergonha das origens está relacionada ao apagamento da cultura negra ocorrido no Brasil:  “por isso é mais fácil o branco saber de onde vieram seus pais do que os negros. E os índios que são os verdadeiros donos nem são vistos na sociedade. Eles merecem tudo ao que todos aqui têm direito. Discriminação existe em toda parte do mundo, mas não se deve negar a identidade para os que também lutaram por ela”.

A adaptação ao Brasil não foi fácil. O tratamento recebido por Eduardo o fez considerar voltar para Luanda mais cedo. “No início eu tive dificuldades e até pensava em voltar para casa. O que mais me incomodava era andar na rua e perceber as pessoas fugindo, porque faziam o pré-julgamento de que eu era ladrão por ser preto, sem falar que existe um preconceito muito grande com o africano. Em Angola as pessoas têm preocupação em tratar bem o estrangeiro seja ele branco ou preto, o que nos importa é deixar uma boa imagem”. Apesar das dificuldades enfrentadas no início de seus estudos em solo brasileiro, que o fizeram considerar voltar para Angola, o estudante graduou-se pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e hoje desenvolve sua tese de mestrado na Universidade Federal de São Carlos, cidade em que participa de diversos eventos e atividades de divulgação da cultura angolana e africana no geral. “Eu sei que temos misérias, mas também temos feito muitos esforços para acabar. Embora caminhemos com passos mais lentos do que outras nações, estamos indo para uma mãe África melhor” afirma.

A vinda de Essien ao Brasil foi possível graças ao Programa Estudantes-Convênio de Graduação (PEC-G), mantido pelo governo federal brasileiro. Por meio desse sistema, os interessados têm contato com instituições de ensino credenciadas e o direito de solicitar, caso necessário, ajuda financeira do governo. Em 2013, o PEC-G trouxe ao Brasil cerca de dois mil universitários de várias nacionalidades, a maioria deles vindos de países africanos lusófonos. Entretanto, o PEC-G não é o único caminho para a realização dos estudos dos estrangeiros no Brasil. Natural de Moçambique, Nelson Mucanze veio ao país de maneira independente. Acreditando nas oportunidades que encontraria aqui, ele resolveu prestar vestibular e, após seis meses de cursinho, onde pode solucionar todas dúvidas em relação ao português brasileiro, conseguiu ingressar na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, em Campo Grande.

Nascido em Maputo, capital moçambicana, Mucanze escolheu o Brasil como destino de seu intercâmbio por imaginar que os brasileiros o acolheriam de braços aberto. “Quando mudamos para um país estranho precisamos ficar num lugar onde seremos bem tratados, pois, caso contrário, a adaptação no novo país se torna muito difícil. Escolhi o Brasil porque é acolhedor e trata muito bem os estrangeiros” explica.

Assim como Essien, Mucanze diz ter sofrido um choque de realidade ao chegar ao novo país: “Antes de vir ao Brasil era difícil pensar sobre a identidade deste país. Em Moçambique eu via três países num mesmo”. Segundo Mucanze, o primeiro Brasil é o retratado nas novelas, um país rico, sem pobreza, composto majoritariamente por descendentes de imigrantes europeus e com uma população negra dedicada aos serviços domésticos em geral. Ideia que se confirmava em suas visitas à Embaixada Brasileira em Maputo, já que “a diplomacia brasileira lá representada era composta por homens brancos”. O segundo Brasil era o retratado pelos noticiários sensacionalistas, um país violento cheio de especialistas do crime, onde a vida não tem nenhum valor. Por último, o terceiro Brasil é aquele representado nos meses de fevereiro e março, o Brasil do samba e da criatividade, do carnaval e, curiosamente, a única das versões brasileiras onde a população negra se destacava. No entanto, a imagem que seus olhos encontraram no país não foi nenhuma das três. “Encontrei um país muito diferente daquele que eu imaginava. Uma nação cheia de desigualdades. Com uma população negra maior. Descobri que existia violência no Brasil, mas não aquela que a televisão mostrava” diz.

Diferente do irmão angolano, Mucanze diz não ter sofrido preconceito diretamente. “Morei cinco anos em Mato Grosso do Sul, onde fui muito bem recebido e bem tratado. Também tive toda abertura para estudar e buscar os meus projetos de vida. Mas não pude deixar de notar que a população negra era marginalizada nesse país” explica o estudante. Apesar desta marginalização, Nelson Mucanze acredita que no Brasil há mais oportunidades e benefícios à população carente: “O Brasil é um país muito desigual, mas os pobres do Brasil têm mais oportunidades do que os pobres de Moçambique. Também me chamaram a atenção as políticas públicas. Nenhum governo constrói casas para pessoas pobres em Moçambique. Em algumas áreas vejo o Brasil como um exemplo a ser seguido, em outras não”.

Hoje, Mucanze desenvolve um mestrado em Economia pela Unesp de Araraquara, com o tema “Investimento Direto Estrangeiro em Moçambique: Sua Contribuição Para o Crescimento Econômico do País”, o estudante afirma que a primeira vez que conseguiu enxergar a realidade do racismo à brasileira foi ao se mudar para outro estado.  “Quando mudei para São Paulo a receptividade não foi tão boa assim. Percebi que o fato de ser negro africano me colocava num patamar abaixo dos brancos europeus, coreanos e outras nacionalidades. Fiquei muito chocado com isso porque pela primeira vez vi que o Brasil era um país racista”, conta.

Reportagem: Isabela Romitelli
Produção Audiovisual: William Orima
Edição: Pedro Borges

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