Amizades duradouras não existem apenas na TV

I’ll be there for you
Cause you’re there for me too
(“Eu estarei lá por você/ porque você estará lá para mim também”)

The Rembrants – “I’ll be there for you”

Difícil ouvir o clássico refrão da abertura do seriado Friends e não pensar em união e amizade. Não há uma explicação lógica, muito menos um conceito objetivo para designar o que é a amizade. Ela existe e de diferentes maneiras. No seriado mencionado, o grupo de amigos que protagoniza a narrativa é formado por seis pessoas com interesses e características pessoais. Mesmo que todos eles formem um só grupo, cada relação de amizade que o compõe é única e se estabelece de uma maneira particular. Ou seja, o laço que une uma dupla de amigos – ainda que eles integrem um grupo social maior – é singular e indecifrável.

A construção de laços e amizades

Mas como escolhemos nossos amigos? Está aí outra questão difícil de ser respondida. Alguns dizem que as amizades são uma segunda família que podemos escolher. “Boas relações” ou “afeição recíproca entre dois entes” é o que indica o significado da palavra no dicionário. Porém, foram realizados estudos que atribuem à genética as relações interpessoais independente do vínculo familiar. A pesquisa foi desenvolvida por cientistas da Universidade da Califórnia e da Universidade de Yale e teve como conclusão que pessoas com amizades de longa data possuem carga genética tão semelhante quanto primos de quarto grau, como afirma James Fowler, professor de genética e política social da Universidade da Califórnia, em entrevista à revista IstoÉ.

No entanto, não se deve confiar somente nos genes para assegurar as amizades. Segundo Cristiane Ferreira, especialista em psicopedagogia, “não há uma fórmula, mas sim uma afinidade, sintonia entre duas pessoas que, mesmo passando anos sem se ver, quando se encontram parece que sempre estiveram próximas”. Ela ainda destaca: “por outro lado, é preciso cultivar a amizade, ligando para o amigo, se preocupando e se fazendo presente tanto nos momentos difíceis como também nas diversões”.

Conflitos e desentendimentos 

Além da atenção, o respeito e a tolerância também são comportamentos imprescindíveis para o cultivo de boas amizades. É necessário compreender e saber conviver com as diferenças do outro. Nem sempre gostos, opiniões ou posicionamentos serão os mesmos entre os indivíduos que se relacionam. Essa diversidade não é só inevitável, como é também enriquecedora para a formação cultural de cada pessoa e sua compreensão sobre o mundo e a sociedade como um todo.

Assim como os personagens do seriado Friends, a assistente administrativa Natália Geier (30) faz parte de um grupo de seis amigos todos diferentes entre si, mas com muita afinidade. Companheiros desde a infância e influenciados pelo vínculo também construído entre os pais, eles cresceram e amadureceram juntos. “Mesmo quando um estava brigado com outro, estávamos sempre juntos… E fazíamos piadas com as partes brigadas. Ao mesmo tempo, sempre soubemos respeitar o tempo e a dor de cada um. E, no fim, o amor entre nós sempre foi maior que qualquer coisa”, conta. Natália completa: “a gente sabe que pode contar um com o outro. E nossa vontade de estarmos juntos também sempre prevaleceu. Com o tempo, passamos a valorizar a amizade que criamos e a fortalecemos ainda mais, mesmo com a distância”.

A quilômetros de distância

De modo geral, muito se teme o impacto da distância geográfica em diversos tipos de relações sociais, seja em namoro, na família ou na amizade. Nesse cenário, o convívio cotidiano já não faz mais parte das interações desse relacionamento. No entanto, esse obstáculo torna-se cada vez mais fácil de ser solucionado com as possibilidades de comunicação por meio da tecnologia móvel e das mídias sociais. Se utilizadas de maneira correta, tais ferramentas podem ser grandes facilitadoras para a união de pessoas, ao invés de criar barreiras entre elas.

No caso da estudante de arquitetura Maria Clara Moreira (23), que está em intercâmbio nos Estados Unidos por mais de um ano, as redes sociais foram essenciais para manter amizades à distância. “Com o Whatsapp, Facebook, não tem desculpa pra não se comunicar. Eu tenho uma amiga que não vejo há um ano e pouco, e ela é uma das pessoas que eu me sinto mais próxima. Converso o tempo todo, ela sabe de tudo da minha vida aqui e eu da dela lá. Então é tudo questão de querer manter o contato e saber que a amizade é isso, estar presente mesmo não estando do lado fisicamente. Às vezes é difícil porque você não pode passar por momento x com seus amigos, mas nada que não dê para sobreviver”, relata Maria Clara. A estudante chegou a criar até mesmo uma frase sobre a questão durante seu intercâmbio: “a distância não diminui o amor ou a amizade, ela só aumenta a saudade”.

Tecnologia: bom ou ruim?!

Ao mesmo tempo em que a tecnologia construiu inúmeras facilidades comunicativas e permitiu, desse modo, o contato diário entre indivíduos distantes geograficamente, ela também mudou a maneira de as pessoas se relacionarem ainda que estejam próximas, lado-a-lado. “O fenômeno da internet promoveu mudanças significativas na forma de interagir, principalmente dos jovens. Hoje é possível ter contato com muitos amigos e não ter verdadeiro laço de amizade com nenhum. É comum, por exemplo, em shoppings, vermos diversos jovens, sentados uns próximos aos outros, mas concentrados em seus celulares, sem contato entre si. Mas o fato é que, independente de qualquer coisa, é possível e muito saudável compartilhar a vida com verdadeiros amigos”, analisa Suely Buriasco, educadora e apresentadora do programa Deixa Disso com dicas de relacionamentos.

Outra questão apontada pela psicanalista e terapeuta Lilian Moura é a superficialidade dos vínculos como tendência do mundo pós-moderno. Segundo a especialista, “somos hoje treinados a perceber e agir no mundo como se o mesmo fosse regido por objetos e sentimentos descartáveis, onde tudo pode ser substituído e jogado fora quando deixa de ‘funcionar’”, comenta. Deixar-se conduzir pela correria do dia-a-dia ou não levar o exercício da paciência a sério para o cultivo dos laços sociais é um dos maiores problemas de atualmente. “As atuais relações afetivas parecem desprovidas de tempo. Tempo da escuta necessária, tempo do aprendizado do outro demandante de nossa afeição, tempo da reconsideração, ou melhor, da chance que nos damos para aceitar ou não aquele ser diferente e imperfeito, que merece uma melhor ‘avaliação’. É necessário aceitar, refletir, reconsiderar, investir na relação, aceitar frustrações, praticar a tolerância, saber a hora de recuar, de se calar, de ouvir”, frisa Lilian.

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Como faço para manter minhas amizades?

Assim como não há um conceito objetivo para definir o que é a amizade, não existem regras sobre como preservá-las; cada relação se constrói de uma maneira e dessa forma prospera. Todavia, determinadas atitudes podem contribuir fortemente para que os amigos conservem seus laços para a vida inteira. “O segredo é manter-se confiável e confiar, pedir desculpas e perdoar; ser solidário, parceiro, imparcial e saber ouvir o outro com atenção, respeito e compreensão”, recomenda Suely Buriasco. “Parece muito, mas na verdade não é. Tudo depende da disposição em valorizar o outro e o seu papel na própria vida. Quando compreendemos a alegria de interagir com pessoas especiais e o quanto crescemos com isso, concluímos que todo esforço por manter verdadeiras amizades é recompensador”, completa.

Portanto, deixar o egoísmo de lado e saber ouvir, conviver e, assim, aprender com as diferenças é essencial para manter um amigo próximo por anos, não importa a distância. A equipe do Repórter Unesp foi às ruas de Bauru para saber a opinião das pessoas sobre amizades. Confira:

Reportagem: Camila Pasin
Produção multimídia: Carolina Rodrigues
Edição: Giovanna Hespanhol

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