As vozes que ficaram livres

“Você sabe que perco o controle quando bebo”, “não quis te machucar tanto assim, me perdoa”, “você está louca, amor”, “fica com ele porque gosta de apanhar”, “em briga de marido e mulher, não se mete a colher”: se você já ouviu uma dessas frases ou alguma parecida, você provavelmente presenciou um relacionamento abusivo.

Bruna de Lara é a idealizadora do projeto Livre de Abuso, site que busca oferecer apoio às pessoas que estejam envolvidas em um relacionamento abusivo. Ela conta que a ideia surgiu quando percebeu que havia pouco conteúdo, principalmente em português, sobre o tema. Ela conseguiu autorização para traduzir o conteúdo do site Love is Respect e mobilizou outras voluntárias para trabalharem produzindo/traduzindo conteúdo, com as redes sociais e oferecendo apoio emocional ou jurídico. A maioria dos casos acontece em relacionamentos que envolvem um homem e uma mulher, mas, também podem acontecer entre casais homoafetivos e não românticos, como pai e filho ou chefe e funcionário.

O site diferencia cinco formas de abuso: físico, sexual, financeiro, emocional e digital. O primeiro é quando o parceiro força um contato com a pessoa ou com alguma coisa próxima a ela; o sexual é quando um indivíduo é pressionado ou coagido a participar de atos sexuais que não deseja; o financeiro é quando um controla os gastos e chega a proibir compras do outro; e o emocional envolve controle, xingamentos, ameaças, intimidação, isolação e perseguição, que também podem acontecer pela internet, caracterizando o digital. Bruna explica que essas atitudes ocorrem de forma gradativa, se misturam e se tornam piores com o tempo.

“Uma das principais características de um relacionamento abusivo é o uso da culpa como forma de manipular e controlar as emoções e ações de uma parceira. O agressor faz com que ela sinta que o está magoando conscientemente ao não fazer o que ele deseja”, completa Bruna. Ela afirma que o parceiro pode aproveitar para falar tudo o que, supostamente, teria feito pela parceira, rotular seus sentimentos como irracionais e culpá-la por causar o comportamento agressivo ou não “salvar” o homem dele mesmo.

As marcas da violência emocional

“A sensação de amar alguém que te oprime é horrível, se sentir aprisionada a algo que só te faz mal gera uma sensação de incompetência, destrói todo amor próprio e confiança em si mesma”, afirma Fernanda Dal Cero. Ela conta que o seu ex controlava todos os seus atos: com quem andava, o que vestia, o que comia e até o que postava no Facebook. “Mas ‘isso é ciúmes, né?’ Não é não. É opressão e enfrentar isso foi tremendamente assustador”, relata.

Fernanda conta que, por algum motivo, achava que merecia toda a violência que sofria e que se sentir sozinha foi a parte mais difícil para conseguir terminar o relacionamento. “Eu precisava de apoio e tudo que tive foram pessoas julgando como eu estava me humilhando e era uma idiota”, desabafa. Ela afirma que demorou três anos para sentir que se recuperou por completo, mas sente que isso a afetou em algumas áreas como sexo e tolerância a violência.

“As pessoas precisam saber que a violência doméstica não se restringe a agressões físicas e que o abuso emocional pode ter consequências psicológicas tão graves para a vítima quanto um abuso físico”, explica Bruna de Lara. Ela conta que a página recebe muitos relatos de mulheres que estão ou já viveram um relacionamento abusivo e, por isso, o site conta com colaboradoras ligadas à Psicologia e ao Direito. Assim, elas oferecem suporte emocional e podem dar orientações jurídicas sobre os casos. “Independentemente desse contato com as colaboradoras ocorrer ou não, tentamos deixar sempre claro que o abuso nunca é aceitável e que nunca é culpa delas”, afirma.

“Eu demorei muito, muito mesmo, pra perceber que era um relacionamento abusivo. Fui entender melhor tudo isso quando me aproximei do feminismo em meados de 2014”, conta Caroline A.*, que já esteve envolvida em dois relacionamentos abusivos. O primeiro foi quando tinha 15 anos e durou um ano e meio. Ela conta que o parceiro nunca a elogiava e era extremamente controlador. “Reparei que a coisa não ia bem quando minha mãe veio conversar comigo e me orientar, dizendo que ele não me fazia bem”, relata.

Já o segundo, ela tinha 18 anos e o rapaz vinha de uma família “controladora”. Caroline conta que uma das coisas mais marcantes desse relacionamento foi que eles transaram no primeiro encontro e sempre que brigavam, o parceiro “amava jogar isso na minha cara, dizendo que eu era suja, uma puta”. Além disso, o parceiro sempre insinuava que ela estava tendo um caso com algum colega de trabalho. Caroline conta que o rapaz terminou quando descobriu que ela estava doente e não lhe ofereceu apoio algum. “O abuso não foi só físico, mas psicológico, principalmente. Muitas vezes eu sabia que ele estava errado, mas me culpava e não tinha forças, nem emocional para sair daquilo”, explica.

Alguns indícios de que você pode estar em um relaconamento abusivo. (Imagem: Ana Oliveira/Repórter Unesp)

Alguns indícios de que você pode estar em um relaconamento abusivo. (Imagem: Ana Oliveira/Repórter Unesp)

“Ainda existe muita gente achando que relacionamento abusivo é só quando uma pessoa bate na outra, só que não é só isso. É tudo, é toda a chantagem, todo ‘eu te acho linda, mas não sai com essa roupa'”, afirma Ana C.*, que também esteve envolvida em dois relacionamentos abusivos. Ela conta que o primeiro foi com o seu ex-marido e se sentiu forte para se separar quando ficou grávida. Já o segundo foi em um relacionamento não-monogâmico: “quando eu ficava com algum cara, ele me ofendia, ele já me beijou a força várias vezes, tanto que em uma ele me machucou e depois pediu desculpa”. Ela conta que, nos dois relacionamentos, sentia medo que os homens pudessem fazer algo contra ela e rejeitada, o que a levou a beber e ser mais agressiva durante um tempo.

N.B.* também esteve envolvida em um relacionamento não-monogâmico quando tinha 20 anos e conta que os abusos começaram quando ela passou a se encontrar com outras pessoas. “Ele não aceitava de forma alguma que eu fizesse o que ele fazia, brigava, gritava, dizia que não queria transar comigo por eu ser gorda”, conta. Ela afirma que só conseguiu terminar quando recebeu apoio de um amigo e que “a maior dificuldade foi perceber e aceitar que não havia amor, paixão, carinho, que o sentimento que tínhamos era doentio”.

Fabiana C.* é outro exemplo de que relacionamentos abusivos também acontecem em relações não-monogânicas e não-heterossexuais: no começo, o seu relacionamento era com o namorado e uma namorada, quando tinha 13 anos e ele era cinco anos mais velho. Segundo Fabiana, eles terminaram com a menina logo no início e, na primeira briga, foi humilhada e sentia que ninguém nunca mais ia querer ficar com ela. “As brigas aconteciam todos os dias e ele ameaçava se matar caso eu terminasse. Meus amigos foram se afastando, eu fui ficando dependente”, conta. Diz que só percebeu o mal que ele a fazia quando alguém lhe disse: “você não pode deixar um cara te tratar assim! Agora ele te trata mal, amanhã ele te bate, depois de amanhã ele te mata”.

Thamirys Marques e Brenda C.* contam que os relacionamentos que tiveram ficaram abusivos no término. “Até três meses antes era tudo normal, inúmeras pessoas falavam como éramos exemplo juntos”, conta Brenda. Ela diz que seu parceiro terminou alegando que ela era muito ciumenta e que a situação piorou quando descobriu que estava grávida. “Mas hoje estou mais forte, minha filha é minha força”, relata.

Thamirys conta que, quando decidiu terminar o seu relacionamento, viu que “aquele namorado tranquilo e romântico se transformou num homem extremamente ciumento e possessivo”. Diz que, no início, ele aceitou o término, mas depois de um mês, a procurou. “Disse que estava sofrendo muito e que não sabia viver sem mim. Eu me senti extremamente culpada por saber que era o motivo de tanto sofrimento de uma pessoa”, conta Thamirys, que acabou retomando o relacionamento por mais dois anos. “As pessoas ao meu redor me alertavam, mas eu não me dava conta. Foram dois anos sendo uma Thamirys que ele projetou”, explica. Ela teve coragem para terminar de vez quando começou a frequentar a faculdade – no início, escondida do parceiro.

Entrevista com a psicóloga Raquel Barreto sobre relacionamentos abusivos

Mas como sair de um relacionamento abusivo?

“De forma geral, a vítima tem roubada a capacidade de agir de acordo com seus interesses, devido ao controle e à manipulação extrema a que é submetida”, afirma Bruna, do projeto Livre de Abuso. Mesmo que a vítima tenha noção da situação, a separação não é fácil devido a dependência, emocional ou financeira, em relação ao parceiro. “O passo mais importante para desvincular-se de um relacionamento abusivo é a construção de uma rede de apoio, embora isso possa parecer difícil em um primeiro momento”, explica Bruna.

Ela afirma também que dividir a experiência com uma pessoa de confiança é fundamental para apoio emocional e segurança. Bruna diz que o ideal é cortar os laços com o agressor e, caso precise encontrar com ele, que seja em um local público para diminuir as chances de agressão. “Caso a mulher se veja ameaçada ou intimidada pelo agressor, é importante procurar orientação profissional para conhecer as medidas que podem ser tomadas para mantê-la segura”, completa.

*Nomes ocultados para preservar a identidade dos entrevistados.

Reportagem: Moema Novais
Produção multimídia: Ana Oliveira
Editor: Jonas Lírio

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