A intolerância não tem rosto

Crime de racismo é cometido na Unesp e levanta o debate de inclusão 

“A Universidade é um pedaço da sociedade. Uma sociedade racista, machista, homófoba, xenófoba tem uma Universidade com essas condições também”, afirmou Juarez Xavier, negro, jornalista e doutor em Comunicação, que atualmente leciona para o curso de Jornalismo da Unesp de Bauru, local onde no último dia 22, foram encontradas pichações de cunho racista em banheiros da universidade. Os inscritos encontrados associavam negros e negras a macacos, de forma geral, e um deles citava especificamente o nome do professor.

As pichações foram encontradas na quarta-feira (22) por uma aluna e informadas ao professor, que também é coordenador executivo do Núcleo Negro da Unesp para Pesquisa e Extensão – NUPE – e estava em São Paulo em reunião do Núcleo e só viu as pichações na sexta-feira (24), “imediatamente nós fizemos uma nota de repúdio em nome do NUPE por considerar um ato criminoso, e por conta disso não poderia deixar de ser feita uma denúncia. Fizemos a denúncia, mobilizamos a direção, mandamos a notícia para os meios de comunicação, foi publicado em televisão, rádio, a cobertura foi bastante significativa e expressiva”, diz Juarez.

O crime de racismo, inafiançável, foi denunciado de acordo com as medidas legais e, com o auxílio da comissão racial da OAB,  espera-se identificar o culpado. Além das medidas legais, uma comissão de sindicância foi aberta na Universidade e tem 30 dias para apurar as informações disponíveis, podendo ser prorrogada e acarretar de suspensão a expulsão do autor do crime, caso seja identificado.

 

“O brasileiro está perdendo o preconceito de ser preconceituoso”

A frase acima, de Kabenguele Munanga, docente da USP,  retrata que os atos vão além dos banheiros da Unesp e refletem o que acontece cotidianamente na sociedade, mas que já foi naturalizado. Quase 80% dos homicídios ocorridos no Brasil são de jovens negros, pobres e da periferia, 61% da população brasileira é negra, mas a grande maioria presente nas universidades é de classe média e branca. O racismo é velado mas escancara uma sociedade excludente e discriminatória. “Nós não podemos ser coniventes com a discriminação, com o preconceito porque eles acabam trazendo na sua manga, na sua capa podre o racismo, que significa morbidade, morte violenta, constituição de lixeiras humanas nas periferias”, pontuou o professor em entrevista.

O caso teve repercussão nacional e essa ampla divulgação estabelece um dos princípios da universidade pública, a sua relação com a sociedade. A denúncia de um ato ocorrido dentro da Unesp permite que os movimentos sociais de fora dela se mobilizem e façam parte daquele espaço, que também é deles, já que quem paga pela universidade pública é a sociedade.

Os negros, grupo minoritário do ponto de vista da exclusão social, porém maioria na atual sociedade brasileira, necessitam ocupar cada vez mais esses espaços e ganhar notoriedade por suas representações. Uma dessas formas é a partir do sistema de cotas raciais e sociais – a Unesp é a única universidade estadual pública que adotou esse sistema de inclusão universitária. Com essa medida, até 2018 a Unesp contará com metade do seu corpo discente vindo do sistema de cotas.

Gabriel Marques, tem 19 anos, é negro, estudante da rede pública de ensino em Bauru e do cursinho Princípia (curso pré vestibular gratuito da Unesp). Está estudando para ingressar no curso do Sistemas de Informação da Unesp e tentará essa vaga através do sistema de cotas. Ao saber das pichações, Gabriel disse ter ficado assustado. “Eu nunca tive esse problema de racismo e meu sonho é ingressar aqui na Unesp, fazer Sistemas de Informação aqui. Ai eu vejo isso e penso ‘por que está acontecendo isso?’”, comentou o estudante.

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Gabriel faz cursinho na Unesp e vai tentar ingressar no curso de Sistemas da Informação pelo Sistema de cotas. (foto: Tânia Mendes)

Universidade democrática?

Há quase um ano frequentando a universidade por conta do cursinho, Gabriel revela que, embora não sinta diretamente o impacto do racismo,  já se incomodou com algumas situações pelas quais passou, talvez resultantes do preconceito racial: “eu estava entrando pela portaria e e dois rapazes com a camiseta da Semana de Engenharia estavam rindo e passando de carro olhando para mim. Não sei, pode ser por qualquer motivo, não posso falar que isso foi racismo, mas eles estavam olhando e começaram a dar risada, e eu só olhando de canto. Depois eu dei uma olhada pra eles e eles olharam pra frente e saíram andando rapidamente”

A situação enfrentada por Gabriel e as pichações encontradas nos banheiros são retratos de que a universidade, que apresenta um ambiente mais favorável para o debate, ainda é composta por “pessoas contrárias a construção desse espaço que repercute o debate político”, comenta Juarez. Esses atos, que não condizem com as políticas adotadas pela Universidade e com o ambiente democrático para discussões, são negativos tanto do ponto de vista da formação pessoal como profissional dos discentes. “O profissional que seja formado no contexto de cultura do preconceito, da discriminação, da xenofobia, da homofobia, vai ser que tipo de profissional?”, complementa o professor.

Para mudar um ponto de vista reforçado por mais de 200 anos de sistemas de cotas exclusivos para brancos de classe média no Ensino Superior, a Universidade propõe criar um discussão que atinja todos os cursos, todos os campi. A presença cada vez maior de negros nesse ambiente vai causar essa mudança de pensamento que, segundo Juarez, é inevitável que aconteça e deve ser cada vez mais frequente.

 

Símbolos nazistas foram desenhados sobre cartazes anti-racismo. (fotos: Michael Barbosa)

Símbolos nazistas foram desenhados sobre cartazes anti-racismo. (foto: Michael Barbosa)

Racismo, fascismo, um buffet de preconceitos

A denúncia das pichações racistas não foram o suficiente para constranger os criminosos que voltaram a demonstrar, com desenhos da suástica nazista, preconceitos de diferentes níveis. Os símbolos foram feitos sobre os cartazes anti-racismo colados nos banheiros onde as primeiras pichações aconteceram. A demonstração fascista e de ódio também é crime e em relação a ela foram tomados os mesmos procedimentos legais e administrativo-pedagógicos adotados em relação às pichações racistas.

“Quero insistir nisso, não é o que a pessoa pensa, a pessoa tem o direito de pensar o que ela quiser, mas ao externar esse ponto de vista dessa forma, ela comete um crime. Nossa ideia é de que a pessoa se dê conta disso e há alternativas para você lidar”, afirma Juarez.

As discussões em relação ao tema não vão cessar tão cedo e a Universidade deve sempre estar à frente no combate de ações racistas e preconceituosas em diferentes situações. A mudança está acontecendo gradualmente e o incômodo dos conservadores é um sinal de que os negros estão ganhando espaços antes hegemonicamente brancos.

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Reportagem: Mariana Amud

Produção Multimídia: Tânia Rita

Edição: Michael Barbosa

2 thoughts on “A intolerância não tem rosto”

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