Coletivo Negro Kimpa, o transformar da dor em luta

A história do Coletivo Negro Kimpa começa no final de 2014, quando a aproximação de estudantes negras e negros da Universidade Estadual Paulista em Bauru culminou na vontade de reunir pessoalmente todas essas pessoas que quisessem construir um movimento organizado de luta negra dentro da universidade. Primeiro, aqueles que já se conheciam; depois, as reuniões presenciais marcaram as diretrizes do coletivo, quem faria parte, qual seria a estrutura, e como se dariam as atividades de construção do grupo. Entre reuniões organizativas, reuniões de estudo e discussão de textos, cresceu e se fortaleceu o Kimpa.

“Ultimamente os racistas tem nos dado tanto trabalho que estamos nos encontrando mais do que nunca. O racismo que vemos na universidade é só um reflexo do que acontece na sociedade como um todo. Aqui dentro, o racismo já começa quando vemos que os negros são apenas 3% dentro da universidade, sendo que somos 50% da população. Essa universidade foi construída para os brancos e para a elite intelectual, e continua sendo assim. O vestibular é uma prova disso, é um dos processos mais excludentes que temos: só entra quem tem tempo de estudar, quem é de escola particular, quem não teve que trabalhar nesse meio tempo, e essa não é a realidade da maioria da população – 80% da população mais pobre é negra.”

Reunião do Kimpa, alguns membros presentes. (Foto: Giovanna Diniz)

Reunião do Kimpa, alguns membros presentes. (Foto: Giovanna Diniz)

“Dentro da universidade a gente tem racismo em todas as relações. Racismo com as faxineiras, com os funcionários, dentro da sala de aula. Muitas vezes somos os únicos negros em nossas salas de aula. Tem professor fazendo piada. Tem racismo em festa. A universidade é um resumo de como o racismo funciona na sociedade, nas relações interpessoais e na falta de representação dos negros nesses espaços.

“Por causa do processo de embranquecimento muitos de nós entramos na universidade achando que não somos negros. Somos morenos, pardos, queimados de sol. A gente nunca se identifica como negro porque durante a nossa vida toda isso é visto como uma coisa ruim. “Não, mas você não é negra, você é moreninha”. E é algo que serve para deslegitimar a nossa identidade. Fazemos muitos debates no Kimpa para debater essas ofensas racistas e construir argumentações que possam nos empoderar diante dessas situações no dia a dia.”

Para as estudantes negras, as lutas diárias contra o racismo são somadas às lutas diárias contra o machismo. A mulher negra sofre todos os tipos de opressão, é como uma faca de dois gumes. Dentro do Kimpa, construído por estudantes negros tanto homens quanto mulheres, a desconstrução do machismo se torna vital para que o espaço seja acolhedor para as negras que também estão na universidade e sofrem a opressão da cor, sofrem a opressão do sexo.

Júlia Conceição, militante do movimento negro e integrante do coletivo. (Foto: Bibiana Garrido)

Júlia Conceição, cursa Psicologia, militante do movimento negro. (Foto: Bibiana Garrido)

“Nós construímos a nossa vida social dentro da universidade e acabamos ficando em uma bolha. A gente imagina que as coisas não vão acontecer, mas não é bem assim. O machismo se une ao racismo quando os homens brancos hiperssexualizam as mulheres negras, ou tem vergonha de se relacionar com elas. Descriminam as suas amigas negras. Isso acontece muito. O machismo está ligado ao racismo quando os homens paternalizam as mulheres negras, acham que não podemos lutar a nossa própria luta, ou se colocam no nosso lugar para falar. Temos que ter a nossa voz. A voz da mulher negra. O machismo e o racismo estão intrincados na vida da mulher negra e é incrível porque parece que estamos sozinhas nessa luta. De um lado, feministas brancas com atitudes racistas, de outro, homens negros com atitudes machistas, é muito difícil compor esses dois espaços. No Kimpa temos essa política de deixar as mulheres negras falarem por si, porque a gente sabe o quanto é difícil. Mas o racismo e o machismo estão totalmente em todos os lugares dessa universidade, quando a gente vê, por exemplo, dentro da sala de aula, que todas as pessoas que nunca namoraram são suas amigas negras, e todas as pessoas que namoram, ou tem um caso, são suas amigas brancas. E elas vem chorar para você de coisas que você nunca passou na sua vida. A gente também é diminuída enquanto mulher. Mas a gente é ainda mais diminuída enquanto mulher negra.”

Giovana Amorim, estudante de Jornalismo, do Coletivo Negro Kimpa.

Giovana Amorim, estudante de Jornalismo, do Coletivo Negro Kimpa. (Foto: Giovanna Diniz)

Na mesa de reunião do coletivo daquela sexta-feira estavam Pedro Borges, Giovana Amorim, Letícia de Maceno, Ana Carolina Moraes, Júlia Conceição, Solon Neto e Giddeão Gasparini. Membro mais recente do Kimpa, Giddeão já escreve textos para o blog do coletivo e faz parte da administração dos posts da página do Facebook. “Antes de entrar no Kimpa surgiram umas questões para mim, pensar sobre o colorismo, por exemplo, foi durante as férias que conheci esse termo. Até então eu não me achava branco, mas também não me achava negro. Depois eu fui vendo que era diferente. Meus amigos não me veem como negro, mas aqui eu me sinto mais confiante”, conta Giddeão, que é calouro do curso de Psicologia. “E você não precisa do aval de nenhum branco para dizer o que você é ou o que você não é”, completa Pedro, estudante do curso de Jornalismo.

Pedro Borges, membro do coletivo e militante.

Pedro Borges, membro do coletivo Kimpa. (Foto: Bibiana Garrido)

“Nós precisamos de mais políticas de afirmação dos negros. As cotas raciais são uma boa iniciativa para trazer para a universidade mais negras e negros, para que eles possam fazer suas pesquisas, para que eles sejam protagonistas e possam dar respaldo para os outros estudantes negros. Trazer essas pessoas para os cargos mais altos da sociedade. Melhorar a representação dos negros na mídia, para que não sejamos mais estereotipados e inferiorizados. Aplicar o projeto de lei que vai obrigar o ensino da história dos negros no ensino fundamental e no ensino médio é muito importante, porque quando você estuda uma história embranquecida a sua subjetividade já fica totalmente deturpada por conta disso.”

“A superação do racismo vem com a criação de uma massa crítica, para que as pessoas tenham uma maior consciência em relação à sua negritude, à sua identidade. Porque a mudança não é só questão de atitude, é questão do sistema. O Estado como conhecemos tem uma estrutura racista, independentemente se for um presidente negro ou presidenta negra, essa estrutura não vai mudar. Temos que destruir essa estrutura e por isso é importante a massa crítica dos negros e negras na universidade.”

“Com os recentes casos de racismo na Unesp, a gente se sentiu não só ofendido enquanto coletivo, mas como pessoas. A gente já passou por isso tantas vezes e entramos aqui acreditando que é um ambiente de desconstrução, onde ideias pudessem ser partilhadas e as coisas pudessem ser diferentes. Mas é o contrário. Pichações racistas em um banheiro só mostram que é uma atitude covarde, que essas pessoas não tem coragem de se mostrar, de se admitirem racistas. As suásticas no banheiro são mais absurdas ainda, porque remetem a regimes que mataram milhões de pessoas, e é o que acontece com a população negra ainda hoje. A população negra está sendo cada vez mais dizimada.”

Como forma de resposta às pichações racistas no banheiro masculino, o Coletivo Negro Kimpa, em um primeiro momento, colou cartazes pelo campus da Unesp de Bauru. “Alguns foram retirados muito rápido”, comenta Giovana. O posicionamento em repúdio a essas atitudes foi colocado no blog do Kimpa e também divulgado nas redes sociais. Um evento para debater o racismo na universidade está marcado para o dia 19 de agosto na Unesp, entre os convidados estão as funcionárias negras – que, inclusive, tiveram que limpar as ofensas a elas mesmas escritas no banheiro -, a comunidade negra de Bauru, representantes do movimento Hip Hop e o professor Juarez Xavier, também alvo das pichações.

Reportagem: Bibiana Garrido

Produção Multimídia: Giovanna Diniz

Edição: Vinícius Cabrera

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