Bauru e a sina do “chão de passagem”

No passado, a ferrovia fez de Bauru uma localidade passageira, onde os viajantes ficavam por pouco tempo. Essa tradição acabou, mas os estudantes que passam apenas os anos do ensino superior na cidade perpetuam a característica.

Todos os anos, uma nova leva de estudantes chega a Bauru para viver a vida universitária. Além das tintas do trote, das diversas festas de recepção e dos novos amigos, eles precisam lidar com a adaptação em uma cidade nova, procurar moradia e adquirir um novo estilo de vida. Mas não são apenas os universitários que sentem a mudança. Quem já recebeu um visitante em casa sabe que a vida do anfitrião também passa por alterações.

Atualmente, Bauru abriga em torno de dez instituições de ensino superior. Entre as que mais atraem moradores de fora estão as faculdades públicas, como é o caso da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e da Universidade de São Paulo (USP), e faculdades privadas com grande reconhecimento externo, como a Universidade do Sagrado Coração (USC) e o Instituto Toledo de Ensino (ITE).

Porém, essa ampla cobertura na área do ensino superior não foi sempre o chamariz para o município. Até meados do século XX, Bauru ainda se destacava em razão da ferrovia e quem passava pela cidade eram viajantes que queriam avançar para o interior do estado de São Paulo. Os motivos mudaram, mas a cidade continua sendo casa de muitos moradores passageiros. Embora uma parcela dos estudantes que chega para fazer o ensino superior se estabeleça no município mesmo depois de formada, a grande maioria ainda fica na cidade apenas durante os anos universitários e depois vão embora.

Ao longo dos anos, o aumento de estudantes de graduação e pós graduação foi maior do que o das outras categorias. (Arte: Mariana Caires)

A tradição dos universitários em Bauru é recente e segue em crescimento. A Faculdade de Odontologia de Bauru (da USP) foi criada em 1962; e a Unesp em 1988. Antes da formação do campus bauruense da Universidade Estadual Paulista como se conhece hoje, desde 1967 existia no local a Fundação Educacional de Bauru, que deu origem à sigla da atual FEB (Faculdade de Engenharia de Bauru). Estima-se que os universitários vindos de fora em Bauru sejam cerca de 20 mil pessoas, quantidade superior à população completa de cidades da região, como Pirajuí e Piratininga.

Os universitários na economia de Bauru

Jovens de classe média ou classe média alta, com pouca experiência em morar fora de casa e vida social agitada. Essa pode ser uma breve descrição do perfil da maioria dos universitários que vivem em Bauru. Com essas características, eles aquecem uma parte da economia da cidade, principalmente no setor de prestação de serviços e comércio. Nas regiões próximas às faculdades, prosperam comércios de diversos tipos: papelaria, mercados, farmácias, lojas de roupa, lojas de informática, entre outros. Esse fator se mostra ainda mais relevante pelo fato de que o comércio é considerado o setor mais importante da economia da cidade.

Para oferecer condições de vida para esses novos moradores e atender às  suas demandas, a infraestrutura deve ser uma preocupação constante do município. Maximiliano Martin Vicente é historiador e professor de Realidade Socioeconômica (Unesp) e explica que “para o município, os universitários também implicam em gastos, pois é necessário manter uma infraestrutura para as demandas provenientes desse setor. As demandas seriam água, eletricidade, postos de saúde etc”.  Ele opina que “não é apenas uma questão de números e sim de oferecer a qualidade. E isso ainda está bem distante para as pessoas que vêm de fora”.

Em relação ao campo financeiro, a cidade possui subsídios para realizar esses investimentos. “Se pensarmos em termos econômicos, o município recebe de volta parte do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) que paga, pois os salários dos professores, a vinda de alunos, o consumo de materiais necessários para a manutenção das universidades repercute na economia local. O caso de Botucatu é bem emblemático. O orçamento da universidade é superior ao da prefeitura”, aponta Maximiliano.

A questão imobiliária é uma preocupação constante na vida dos estudantes. Os preços de aluguel, principalmente nas regiões de maior concentração universitária, elevam o custo de vida na cidade. Ana Carolina Moraes, Daniela Arcanjo e Ana Flávia Cézar estudam na Unesp e formaram uma república em 2014. As três são de cidades menores do que Bauru (Brodowski – SP, Pirassununga – SP e Cambuí – MG, respectivamente) e, ao chegar aqui, acharam caros os valores para aluguel de apartamentos. Essa é uma das razões para a existência de muitas repúblicas de universitários na cidade, dividir as contas alivia os gastos. Além disso, as amizades e a convivência também favorecem a forma de moradia.

Quanto ao custo de vida, Ana Flávia opina que “Bauru não é uma cidade cara, de modo geral. O preço dos alimentos no mercado, por exemplo, ficam dentro da média. Verduras, legumes e frutas poderiam ser mais baratos – principalmente pela baixa qualidade dos alimentos”. Ela também destaca o valor do ônibus na cidade. “A qualidade e quantidade de ônibus é inferior ao valor de R$ 3,50 estabelecido”.

(Imagem: Mariana Caires)

A participação e despesas dos universitários na economia da cidade. (Arte: Mariana Caires)

Cidade universitária?

Para alguns visitantes, encontrar um bauruense em Bauru é um desafio. Nos ambientes que costumam frequentar, a presença de pessoas de fora é muito maior. É uma ocorrência comum na vida dos universitários e essa perspectiva limita o entendimento e a compreensão da cidade. Afinal, Bauru é uma cidade universitária ou há uma Bauru universitária dentro de uma Bauru maior?

Os centros universitários da cidade se localizam, majoritariamente, em regiões centrais ou mais abastadas. O mesmo pode ser dito sobre as moradias dos estudantes, que ficam em bairros específicos. Além dessas localidades, Bauru possui muitas áreas que ficam à margem do alcance das universidades.

 

Uma forma de balancear os impactos que a universidade traz para a cidade é oferecer serviços de retorno à comunidade, como projetos de extensão e atendimento médico. Giovana Murça Pastori é bauruense e agora estudante da Unesp, mas conta que a forma com que teve contato com uma universidade anteriormente foi no atendimento odontológico que recebia na FOB – USP. Ela comenta que o impacto das universidades na cidade depende da área. “Na região central e perto do shopping faz diferença sim, mas na periferia, onde eu moro, não me parece trazer impacto algum, exceto em bairros como o Jardim Niceia e o Ferradura Mirim”. Nesses bairros, a faculdade se faz presente através de projetos de extensão.

Gabriela Ferreira também é bauruense e atualmente frequenta a Unesp em um cursinho pré-vestibular. Ela conta que seu primeiro contato com uma universidade de Bauru foi só no terceiro ano do ensino médio. “Minha escola planejou um passeio com o professor de química e nos levaram no laboratório de química da Unesp. Foi uma atividade muito bacana e uma visão de mundo nova, o ambiente de uma universidade é totalmente diferente do que eu vivia”, conta.

A estudante, que está em época de escolher uma faculdade, se sente satisfeita com as várias possibilidades. “Bauru abre um leque de escolhas na hora de você decidir por uma faculdade, possuímos muitas instituições de ensino, tanto particulares quanto públicas, para vários tipos de bolsos. Conheço muitas pessoas que são de outras cidades e até de outro estado e optam por estudar em Bauru”.

Para o professor Maximiliano Vicente, o título de “cidade universitária” é um mito criado pela própria universidade. “Claro que tem centros importantes em termos de universidade, como a USP e a Unesp, mas mesmo assim a maioria da população não está formada por universitários e sim por trabalhadores. Os estudantes contam em termos de relevância social? Sem dúvida, mas daí a afirmar que é uma cidade universitária há um caminho muito distante e longo a ser percorrido”.

Do ponto de vista dos estudantes, a visão de “cidade universitária” é mais difundida. Ana Carolina Moraes concorda com o título, mas comenta que “essa definição limita muito a cidade, além de reforçar o estereótipo de ‘chão de passagem'”. Ana Flávia Cézar também faz ressalvas. “Não diria que a cidade se resume a isso. Temos muitas faculdades e, consequentemente, muitos alunos. Porém, a maioria deles não explora por completo a cidade, se concentrando no eixo Nações-Duque-Getúlio, restringindo sua influência”.

A universitária Daniela Arcanjo comenta que frequenta principalmente os meios dos estudantes e baseia sua opinião nessa vivência. “O número de faculdades é grande para o porte da cidade e acredito que grande parte do comércio, que é a base da economia de Bauru, seja bem atrelada à presença dos estudantes. Além disso, Bauru tem muitas festas típicas do período universitário, em repúblicas, feitas pelos próprios alunos”.

Reportagem: Amanda Moura
Produção Multimídia: Mariana Caires
Edição: Lígia Morais

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