Transexualidade: vivência e dificuldades

Em meio a polêmicas e exposição de mulheres trans famosas como Caitlyn Jenner e Laverne Cox, atriz de Orange is the New Black e primeira mulher trans a sair na capa da revista Time, pessoas transgêneros buscam sua voz na sociedade

No dia 1º de junho desse ano, a revista americana Vanity Fair parou a internet ao apresentar em sua capa Caitlyn Jenner. Ela viveu por 65 anos como Bruce Jenner, patriarca da famosa família Kardashian, e há alguns anos já havia começado o processo de redesignação sexual para se assumir a mulher presente na capa da Vanity Fair.

Já aqui no Brasil, uma semana depois de Caitlyn se apresentar ao mundo, a Parada do Orgulho LGBT em São Paulo causou alvoroço nas redes sociais: a travesti Viviany Beleboni apareceu crucificada em um dos trios elétricos, em uma clara referência à crucificação de Jesus Cristo. O ato gerou discussões sobre preconceito não só contra a comunidade LGBT como também desrespeito ao cristianismo e a revolta de setores conservadores.

“Eu me assumi com 16 anos, ainda estava no segundo ano do ensino médio, foi uma loucura” conta Luna Gruntman. “A princípio, foi um choque para todos, mas com o passar do tempo tudo ficou mais tranquilo. E meus pais sempre me apoiaram.” Já para Lucca Ramos, que se assumiu homem transexual aos 15, “a parte ruim mesmo foi a família, no geral uma ou outra pessoa se recusou a usar meu nome e os pronomes certos, mas foram poucas”.

Luna Gruntman se assumiu trans no Ensino Médio e acredita que as pessoas não entendem por conta da letra T ser a única que representa identidade de gênero na sigla LGBT. (Crédito: Camila Pasin/Repórter Unesp)

Luna Gruntman se assumiu trans no Ensino Médio e acredita que as pessoas não entendem por conta da letra T ser a única que representa identidade de gênero na sigla LGBT (Imagem: Camila Pasin/Repórter Unesp)

Além da dificuldade em terem o nome social respeitado, travestis e transexuais enfrentam problemas em atividades simples do cotidiano, como ir ao banheiro, por exemplo. “É bem comum pessoas que trabalham em estabelecimentos me virem entrando no banheiro feminino e torcerem o nariz, com desaprovação. Ou mulheres cochicharem que ali não é meu lugar”, conta a travesti Marcelie Oliveira.

A violência contra pessoas trans pode ser verbal, moral e física, desde a procura de emprego até o simples fato de existir, haja vista os dados de assassinatos de pessoas LGBT por ano presentes no infográfico abaixo. Luna conta que já tomou pedradas e relata a dificuldade de ser respeitada no trabalho: “Trabalhei em uma loja onde os funcionários me chamavam de ‘traveco’ e, se eu fosse questionar, eu era a culpada”.

Marcelie Oliveira, ou Celie, em referência à personagem do filme A Cor Púrpura, é travesti e defende os direitos básicos para transsexuais: políticas públicas para educação, saúde e segurança. (Foto: Camila Pasin/ Repórter Unesp)

Marcelie Oliveira, ou Celie, em referência à personagem do filme A Cor Púrpura, é travesti e defende os direitos básicos para transexuais: políticas públicas para educação, saúde e segurança (Imagem: Camila Pasin/ Repórter Unesp)

E no meio LGBT?

Engana-se quem pensa que a transfobia e a invisibilização parte apenas de pessoas cisgêneras e heterossexuais: muitas travestis e transexuais sentem-se invisíveis dentro do próprio movimento LGBT. “Um exemplo ótimo disso é a Parada do Orgulho LGBT, mais conhecida como Parada Gay. Parece que todo mundo que está ali é gay, que todo o resto da sigla LGBT é algo ‘variante’ de gays. Nós não temos voz no movimento, e isso leva à falta de informação”, analisa Lucca Ramos.

Muito desse processo de invisibilização se dá pelo fato de que muita gente, envolvida ou não no meio LGBT, ainda não faz a distinção entre identidade de gênero e orientação sexual. “As pessoas hoje em dia ainda tratam transexuais e transgêneros como ‘a sapatão que virou homem’ e ‘o viado que virou mulher’, só que identidade de gênero não se resume a homem e mulher e muito menos à heteronormatividade. É muito difícil as pessoas entenderem que ninguém vira nada por causa de orientação sexual”, explica Behael Santana, que é homem trans androssexual, ou seja, sente-se atraído pelo masculino e suas representações, não necessariamente por homens em geral.

Além da violência transfóbica, travestis e transsexuais têm direitos básicos, como a educação, negados. No ano passado, 95 pessoas trans puderam fazer o ENEM usando o nome social. (Crédito: Camila Pasin/Repórter Unesp)

Além da violência transfóbica, travestis e transexuais têm direitos básicos, como a educação, negados. No ano passado, 95 pessoas trans puderam fazer o ENEM usando o nome social (Arte: Camila Pasin/Repórter Unesp)

O papel do governo

A falta de respeito ao nome social bem como à identidade de gênero de pessoas trans acaba tendo o aval do Estado, afinal muitas das políticas públicas que trazem reconhecimento e voz a esse grupo de pessoas ainda não foram aprovadas. A Lei de Identidade de Gênero, mais conhecida como Lei João W. Nery, em homenagem ao homem trans mais velho do Brasil, foi protocolada pelos deputados Jean Willys (Psol-RJ) e Érika Kokay (PT-DF) em 2013, mas ainda não foi votada.

Essa lei garante o direito de mudar o nome sem se submeter a laudos psiquiátricos e triagem por dois anos, além de fazer com que a transexualidade deixe de ser considerada doença pela Classificação Internacional de Doenças (CID). “A lei [João Nery] aqui no Brasil está sofrendo um ataque absurdo de fundamentalistas religiosos na Câmara para engavetamento do projeto. Não iria interferir na vida de ninguém senão na de pessoas trans, mas querem continuar nos excluindo e nos deixando na marginalidade”, analisa Behael.

Mesmo em meio a tantas dificuldades, pessoas trans seguem buscando seu espaço nas escolas, faculdades, trabalho e, principalmente, na sociedade como um todo. Enquanto não existem políticas públicas efetivas e aprovadas que tirem travestis e transexuais da prostituição, marginalidade e invisibilidade, essas pessoas seguem sobrevivendo em meio a tanto preconceito e lutando pelo direito de ser quem são. “A tentativa de apagar a existência dessas opressões é gigante, ao passo em que elas acontecem o tempo todo. Tento, na medida do possível, conversar com outras pessoas que sofrem o mesmo, ser apoiada pelos amigos, enfim, encarar de frente, no embate”, encerra Marcelie.

A violência contra LGBTs no Brasil é alarmante, mas nota-se que as maiores vítimas ainda são as travestis e transsexuais. (Crédito: Grupo Gay da Bahia-GGB)

A violência contra LGBTs no Brasil é alarmante, mas nota-se que grande parte das vítimas ainda são as travestis e transexuais (Arte: Grupo Gay da Bahia-GGB)

 

Para entender melhor sobre identidade de gênero:
Muito além do masculino e do feminino

 

Reportagem: Ana Oliveira
Produção Multimídia: Camila Pasin
Edição: Nathália Rocha

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