Beijo na boca em novelas não é coisa do passado

Quase tudo é permitido nas novelas brasileiras. Traição, assassinato, racismo, machismo, sexo.  Mas convenhamos: mostrar beijo entre pessoas do mesmo sexo é passar dos limites.

A estreia da novela Babilônia da Rede Globo em março deste ano provocou discussões ao mostrar um beijo entre Teresa (Fernanda Montenegro) e Estela (Nathália Timberg). Para a psicóloga Ana Carla Vieira, além da homossexualidade, outro fator que contribuiu para a rejeição do público foi o fato de as duas estarem na terceira idade. “Em nossa sociedade, existe a ideia de que os idosos não têm sexualidade, trazendo péssimas implicações como a falta de privacidade nas instituições que moram ou em suas próprias casas e descuidos com relação à sua saúde sexual”, explica.

Desde então, o casal, que na trama está unido há 35 anos, deixou sua sexualidade de lado. Mesmo na cena do casamento das duas, não houve sequer um selinho. Não estando dentro da norma, elas foram rejeitadas. A normatividade, como esclarece Ana Carla, é aquilo que é valorizado por um grupo social, o que se pensa como correto. Na nossa sociedade, isso se traduz no corpo magro, de pele branca, classe financeira alta, heterossexualidade, família nuclear e pessoas não portadoras de deficiência física ou intelectual.

A representação que existe, de fato, mostra uma parcela da sociedade. “Eu me sinto representada porque sou uma menina cis*, lésbica, branca, magra, de classe média e não sigo o esteriótipo de lésbica ‘masculinizada’”, conta Karen Favaretto, estudante de Relações Internacionais. A jovem, entretanto, tem consciência de que isso não representa “nem metade das minhas amigas ou meninas com quem já me relacionei, e sei que isso é extremamente prejudicial para elas”.

A aceitação é bem maior quando o personagem é estereotipado, com trejeitos e jargões. Se for engraçado, então, melhor ainda. O filho da “mami poderosa” Félix (Mateus Solano, na novela Amor à Vida) tinha dezenas de falas humorísticas que expressavam seu jeito irônico e sarcástico de ser, assim como o jornalista Teo Pereira (Paulo Betti, na novela Império) sabia muito bem a hora de atacar a Claudete hétera (Cláudio Bolgari, interpretado por José Mayer também na novela Império). Essas personagens complexas são importantes, pois colocam a homossexualidade no cotidiano da mídia e provocam debate, além de serem interpretadas com maestria por grandes nomes da teledramaturgia brasileira. Entretanto, o tom humorístico também pode prejudicar a causa, dando a impressão de que a questão não precisa ser levada a sério.

A graduanda em Direito, Mariana Ferreira, comenta que “o riso é uma forma de afastar o telespectador da personagem, pois o mesmo acaba por caricaturizar e transformar a personagem em piada”. Ao contrário, personagens que tratam a questão da sexualidade de maneira mais natural – como Ivan (Marcello Melo Jr., Babilônia), Clara e Marina (Giovana Antonelli e Tainá Müller, Em Família) – trazem a questão para mais perto do público, o que gera a reflexão e, muitas vezes, traz à tona preconceitos que resultam na rejeição, já que não é mais uma piada.

LG e nada mais
Apesar dos poucos personagens, homossexuais ainda são os mais representados de toda a comunidade LGBT+. Até hoje não houve a representação de um personagem bissexual, por exemplo. O que ocorre são personagens que aparecem no início das novelas como gays, mas, no decorrer da trama, vão “se transformando” em heterossexuais, como no caso de Cássio (Marco Pigossi, em Caras & Bocas) e Orlandinho (Iran Malfitano, em A Favorita). Isso mais prejudica do que ajuda, pois provoca o pensamento que “se o gay da novela ‘virou’ hétero, por que o meu amigo gay também não pode mudar de ideia?”.

Já travestis, transexuais e transgêneros quase sempre são personagens caracterizados com o velho tom humorístico. Quando são levados a sério, como foi o caso da primeira personagem transexual das novelas, Ramona (Claudia Raia, em As Filhas da Mãe), em 2001, sofrem rejeição da audiência – um caso parecido com o do casal homossexual Teresa e Estela.

O primeiro e último assexual a figurar em uma novela da Rede Globo apareceu em Malhação ID, interpretado por William Barbier. No começo da trama, Alê não se sentia atraído por mulheres e chegou a pensar que fosse gay, mas descobriu que sua falta de interesse, na verdade, era pelo sexo em si.

Eu quero mais é beijar na boca
A polêmica com os beijos evidencia o tema da homossexualidade e mostra como a homofobia está enraizada na sociedade. As novelas, séries e minisséries são repletas de cenas e enredos pesados, com valores negativos como traição, mentiras, roubo e violência propagados diariamente sem melindres. Neidinha (Elina de Sousa, Em Família) foi estuprada por três homens em um carro; José Pedro (Caio Blat, Império) mata o próprio pai com um tiro nas costas; Raquel (Helena Ranaldi, Mulheres Apaixonadas) era espancada com uma raquete pelo marido. Mas nada disso gerou boicote às produções e tampouco provocou revolta por parte do público.

As demonstrações de afeto entre os casais héteros não são reguladas de forma alguma. Tem abraço, selinho, beijo de língua, sexo e nudez, o que não influencia ninguém a nenhum comportamento negativo. Da mesma forma, pode-se inferir que um simples beijo entre duas mulheres ou dois homens – e vale ressaltar que os beijos entre homossexuais nas novelas são bem contidos – não vai fazer com que ninguém “troque” sua orientação sexual. Apenas vai dar representatividade a pessoas que geralmente não se veem na mídia.

Arte: Marília Garcia/Repórter Unesp

*cis: pessoa que se identifica com o gênero que lhe foi atribuído ao nascer. Por exemplo, uma pessoa que nasceu com o sexo feminino e se identifica com o gênero feminino.

trans: pessoa que não se identifica com o gênero que lhe foi atribuído ao nascer. Por exemplo, uma pessoa que nasceu com o sexo feminino e se identifica com o gênero masculino.

 

Reportagem: Flávia Nosralla
Produção multimídia: Marília Garcia
Edição: William Orima

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